Sustentabilidade em risco? A Geografia vai procurar respostas

XII Congresso da Geografia Portuguesa decorre até sexta-feira no pólo de Guimarães da Universidade do Minho, sob o tema “Geografias de Transição para a Sustentabilidade”.

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Conhecer a realidade de cada território para encontrar soluções à medida é essencial, diz Rio Fernandes Adriano Miranda

Quando, na quinta-feira, um conjunto de geógrafos portugueses se sentar a debater as “Geografias de Transição para a Sustentabilidade” haverá, pelo menos, uma participante disponível para questionar se a sustentabilidade é assim tão importante. Carminda Cavaco, pioneira no estudo da geografia do turismo em Portugal, completa 81 anos esta terça-feira, mas continua a trabalhar. “Acho que a nossa dificuldade está em usar demasiado a palavra sustentável. Se vamos por aí e recuamos no tempo, nada seria sustentável na Idade Media ou mesmo no século XIX face ao mundo de hoje”, diz.

Ao telefone, a partir da sua casa em Lisboa, a geógrafa diz que não ficou surpreendida com o crescimento que o turismo teve, em Portugal e no mundo, mas diz-se sem paciência para quem reclama de que há turistas a mais ou que viajamos em demasia. “Eu é que tenho 80 anos, mas os outros é que têm comportamento de velhos. Não admitem dinâmicas, não admitem mudanças. Antigamente as pessoas viviam numa aldeia e iam à festa anual a pé, descalças, durante cinco horas. É claro que a mobilidade humana e as deslocações se têm desenvolvido. As plantas é que estão enraizadas na terra, os homens não. Os homens tentam alargar horizontes. É inevitável”, defende.

Mas não serão todas essas deslocações mais do que o planeta pode aguentar? Carminda Cavaco pede “alguma calma”, alerta para que há sempre “interesses” em jogo na defesa de qualquer lado dos campos – seja quando a discussão é sobre a energia que está mais em voga ou se atingimos o limite da sustentabilidade – e continua a acreditar numa verdade: “A ciência traz soluções para muitas coisas e há muita gente que discute a sustentabilidade como se o mundo estivesse parado”, diz.

Não faltará, certamente, quem rebata a posição da geógrafa que, apesar de se ter reformado da Universidade de Lisboa há treze anos, continua a trabalhar e vai mesmo lançar um livro neste XII Congresso da Geografia Portuguesa, que decorre entre esta quarta-feira e sexta-feira no pólo de Guimarães da Universidade do Minho – uma análise do turismo na ilha italiana da Sicília, que surge como complemento a uma obra anterior sobre o turismo no Mediterrâneo.

O congresso arranca esta quarta-feira com uma conferência do biogeógrafo Miguel Bastos Araújo, Prémio Pessoa 2018, com o tema “Biogeografia: da explicação à previsão”. Depois, ao longo de dois dias, estão previstas mais de 200 comunicações em áreas tão diversas como ambiente urbano, gestão da água e paisagem, mobilidade e transportes ou riscos naturais e protecção civil. O tema chapéu é, contudo, aquele que serve de tema à mesa redonda em que participa Carminda Cavaco, com outros especialistas, e a moderação de José Rio Fernandes, da Associação Portuguesa de Geógrafos e membro da comissão organizadora.

Rio Fernandes sustenta que a dimensão geográfica “é absolutamente central” nos dias que correm e no contexto das alterações climáticas. E esse conhecimento que ajuda a identificar a solução adequada a cada território, tem de ser acompanhado de uma descentralização das decisões políticas, defende: “O que temos é um centralismo que é geograficamente míope, quando o que precisamos é um olhar intermédio e mais transversal”.