FRANCK ROBICHON/LUSA
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FRANCK ROBICHON/LUSA

Mulheres japonesas proibidas de usarem óculos no trabalho

Várias empresas japonesas têm vindo a proibir as suas funcionárias de utilizarem óculos no emprego, exigindo em contrapartida o uso de lentes de contacto. Mulheres falam de discriminação de género.

Após polémicas sobre a obrigatoriedade do uso de saltos altos e maquilhagem em contexto profissional no Japão, as mulheres japonesas voltaram a recorrer às redes sociais para contestar o facto de algumas empresas proibirem as trabalhadoras de usar óculos durante o horário de trabalho.

Tais proibições foram reveladas pelo canal televisivo Nippon TV, que investigou empresas japonesas, dos vários sectores, que têm vindo a proibir as suas funcionárias de utilizarem óculos no emprego, exigindo em contrapartida o uso de lentes de contacto. Os argumentos utilizados pelos empregadores são diversos, quase tantos quanto os testemunhos das mulheres que contestam esta regra.

Um dos relatos dá conta de uma mulher, funcionária no sector da restauração, que foi obrigada a não usar óculos. A justificação do patrão? Parecia “rude” e os óculos não combinavam com o tradicional quimono. A publicação no Twitter, feita no mês passado, já atingiu quase 13 mil partilhas.

As empresas e lojas japonesas alegam ainda que o uso de óculos por parte das vendedoras transmite uma “sensação de frieza” e não são atraentes para os clientes. Já algumas companhias aéreas japonesas (não especificadas) justificam a proibição, segundo a BBC, com razões de segurança, enquanto outras lojas de produtos de beleza defendem que o facto de uma funcionária usar óculos impede as consumidoras de repararem na maquilhagem que as colaboradoras usam. Não ficou, no entanto, claro se estas proibições se baseiam em políticas das empresas ou reflectem uma prática socialmente aceite nos respectivos locais de trabalho.

#GlassesAreForbidden

Nas redes sociais, especialmente no Twitter, os testemunhos e críticas à proibição vão-se somando e partilhando através da hashtag #GlassesAreForbidden (“óculos são proibidos”), com as mulheres japonesas a reivindicarem o direito de usar óculos para trabalhar e a questionarem os padrões de beleza estabelecidos. Os utilizadores classificam as imposições de “desactualizadas” e “idiotas”.

“Se as regras proíbem apenas as mulheres de usar óculos é discriminação contra as mulheres”, explicou à Reuters Kanae Doi, directora da organização pelos direitos humanos Human Rights Watch no Japão.

Já Kumiko Nemoto, professora de sociologia da Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto, explicou à BBC que a sociedade japonesa tem vindo a reagir a este tipo de políticas “ultrapassadas”. “As razões pelas quais não é suposto as mulheres usarem óculos não fazem sentido. É tudo uma questão de género e bastante discriminatório”, salientou.

Kumiko Nemoto nota que estes testemunhos reflectem uma linha de pensamento “antiga e tradicional japonesa”. “Não se trata de como as mulheres fazem o seu trabalho. A empresa valoriza uma aparência feminina das mulheres, que é [supostamente] o oposto de alguém que usa óculos”, referiu, destacando que, no Japão, “as mulheres são avaliadas [profissionalmente] pela sua aparência”.

Este é o mais recente protesto contra as rígidas regras de indumentária impostas às trabalhadoras japonesas. Em Junho, estalou uma outra polémica relacionada com o facto de as empresas japonesas obrigarem as mulheres a utilizarem saltos altos. Mais de 21 mil pessoas assinaram uma petição online, no âmbito do movimento #KuToo, criado pela actriz japonesa Yumi Ishikawa — e que fez eco ao movimento #MeToo contra o abuso sexual. À data, o então ministro da Saúde, Trabalho e Assistência Social japonês, Takumi Nemoto, afirmou, contudo, que tais imposições de vestuário eram “necessárias e apropriadas” no local de trabalho.

Agora Ishikawa voltou a insurgir-se contra a nova regra: “Se usar óculos é um verdadeiro problema no trabalho, então devia ser proibido para todos – homens e mulheres”, disse, citada pela Bloomberg. “Esta questão dos óculos é exactamente a mesma dos saltos altos. É uma regra apenas para as trabalhadoras femininas”.

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