Sócrates justifica riqueza com cinco milhões de euros herdados pela mãe

O ex-primeiro-ministro fez referência à herança para explicar que sempre teve dinheiro de família, mas admitiu que devia ter pedido um empréstimo maior para viver em Paris. Procuradores e advogados deixaram telemóveis fora da sala de interrogatório após pedido do juiz para evitar fugas de informação.

José Sócrates
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LUSA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS

O quinto dia de interrogatório de José Sócrates, que decorre no âmbito da fase de instrução da Operação Marquês, ficou marcado pelo facto de, logo no início da sessão, o juiz de instrução, Ivo Rosa, ter pedido aos advogados e procuradores que entregassem os telemóveis e tablets para evitar fugas de informação. Além disso, Sócrates terá revelado que a mãe recebeu uma herança do avô que rondaria um milhão de contos (usou a referência à moeda antiga), ou seja, perto de cinco milhões de euros, para justificar o facto de sempre ter dito que tinha dinheiro de família. 

O pedido para a entrega dos telemóveis e tablets foi aceite por todos e foi de comum acordo que os equipamentos foram entregues para ficarem fora da sala de audiências, apurou o PÚBLICO.

Tal como o PÚBLICO noticiou, na sessão de 29 de Outubro, perante o facto de terem saído notícias, quase em tempo real, sobre o que José Sócrates estava a responder no interrogatório, Ivo Rosa chamou a atenção dos advogados para os deveres de sigilo que não estavam a cumprir e avisou mesmo que iria mandar apreender os telemóveis.

Não o fez nos dias seguintes, mas acabou por, nesta segunda-feira, já na recta final dos dias que tinha marcado para ouvir José Sócrates (28,29,30 e 31 de Outubro, tendo estendido entretanto os interrogatórios até esta segunda-feira), pedir a entrega dos aparelhos.

O interrogatório começou pouco depois das 14 horas e até às 17h desta segunda-feira, o antigo primeiro-ministro fora questionado sobre os fluxos financeiros na conta pessoal que tinha na Caixa Geral de Depósitos (CGD) e as várias viagens, nomeadamente as férias que, segundo a acusação, foram pagas pelo amigo, Carlos Santos Silva.

Saldo negativo na conta

Segundo o MP, o antigo governante tinha sempre saldo negativo na conta que equilibrava com empréstimos da CGD e transferências da mãe, do primo e de um tio. Isto até 2011 porque depois fez um empréstimo de 120 mil euros quando foi estudar para Paris.

Sócrates disse que esse valor só deu para um ano e admitiu que devia ter pedido um empréstimo maior, e que no segundo ano viveu à conta de 450 mil euros que a mãe lhe deu, depois de esta vender a sua casa na Rua Braamcamp, em Lisboa.

Sócrates foi ainda confrontado com viagens a Menorca, a Veneza e com gastos superiores a 30 mil euros que terão sido pagos pelo empresário Carlos Santos Silva. 

O antigo primeiro-ministro disse que tinha de fazer melhor as contas, mas que nunca gastou tal valor num mês.

Recorde-se que José Sócrates nunca negou que Carlos Santos Silva lhe pagava estadias e deslocações. De acordo com a acusação, da conta bancária em nome do empresário, saíram 390 mil euros para pagar férias e viagens com o ex-primeiro-ministro, amigos e familiares.

Nazaré Soares, funcionária da Top Atlântico, responsável pelas marcações e facturação das referidas viagens, terá revelado num interrogatório como testemunha ainda na fase de investigação, como é que eram feitos os pagamentos nas passagens de ano de 2008 e 2009, quando Sócrates ainda era primeiro-ministro.

De acordo com essa funcionária, o gabinete do primeiro-ministro pedia para serem emitidas as facturas originais em seu nome, sendo depois anuladas.

Era, entretanto, emitida uma nova factura, sobre as mesmas despesas, mas em nome de Carlos Santos Silva, que pagava com cheques. Estes cheques eram fraccionados.

Nas buscas terão sido recolhidos alguns documentos que sustentam esta versão da funcionária da agência de viagens. As viagens a Menorca, em 2008, e a Veneza, em 2009, que ocorreram no Verão, foram amplamente investigadas e, nesses anos, o valor das facturas passadas ascendem aos 50 mil euros.

Esta situação, de viagens pagas por Carlos Santos Silva, manteve-se já depois de Sócrates sair do Governo. Depois disso, mas através da mesma agência de viagens, os pagamentos passaram a ser feitos de outra forma. De acordo com a acusação, eram feitos através de transferências bancárias e entregas de dinheiro pelo seu motorista João Perna, numa altura em que Sócrates vivia em Paris.

No interrogatório desta segunda-feira, o antigo governante foi ainda confrontado com os seus rendimentos. Sócrates terá dito que ganhava 12.500 euros, mas que depois gastava muito mais. Qualquer coisa como 22 mil euros por mês. E que era Carlos Santos Silva que assegurava o que faltava através de empréstimos. Esta é a tese de defesa do antigo primeiro-ministro: Carlos Santos Silva emprestava dinheiro, que Sócrates tem estado a pagar até hoje.

Já na parte da tarde, Sócrates foi confrontado com a questão da casa de Paris, onde o antigo primeiro-ministro chegou a morar entre 2012 e 2014, que foi formalmente adquirida por Carlos Santos Silva. O MP acredita que na realidade o dinheiro usado para a comprar seria de José Sócrates.

Casa de Paris

A casa, situada na Avenue Président Wilson, em Paris, foi adquirida por cerca de 2,8 milhões de euros. Sócrates sempre negou que estes, e outros imóveis, fossem seus.

Porém, na acusação, é referido que a ex-mulher, Sofia Fava, é apanhada nas escutas a fazer reivindicações sobre as obras. O antigo governante terá ignorado esse facto e disse até que não queria fazer obras.

O interrogatório terminou pelas 23h15 e à saída, José Sócrates disse que “não ficou pedra sobre pedra da acusação”, sublinhando que saía do interrogatório “satisfeito” mas que tinha sido muito “exaustivo”.

Ao início da tarde desta segunda-feira, à chegada ao Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) para dar início ao quinto dia de interrogatório, José Sócrates afirmou que as acusações que pendem sobre si são “monstruosas”. Além disso, disse ainda que quanto à acusação do MP não ia deixar “pedra sobre pedra”.

O procurador Rosário Teixeira não quis fazer grandes comentários, mas defendeu que a acusação está bem fundamentada.