Lisboa

Estes posters são para quem “sorri mais vezes para selfies do que para pessoas”

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Quando os seguidores no Instagram começaram a aumentar, Tomaz Castelão ficou a olhar para o ecrã. "Não, não é isto que eu quero!", pensou. Mas à medida que cada vez mais gente via os posters que colou pelas ruas de Lisboa, o projecto online/offline começava também a ser replicado em vários ecrãs. "Não uso muito o Instagram e é irónico que agora seja das vezes que estou a usar mais", reflecte o criativo e copywriter.

Durante a noite de 20 de Outubro, 30 pessoas convidadas por Tomaz espalharam-se por Lisboa e colaram 450 cartazes em "pontos de encontro", como o Cais de Sodré, "locais de chegada e partida", como a estação de Santa Apolónia, ou sítios onde todos os dias se movimentam massas de gente, como o Chiado e Alcântara. "Nenhum de nós já tinha feito algo assim", confessa, defendendo a acção enquanto "vandalismo com significado" (e que tenta causar o mínimo de impacto na cidade ao mesmo tempo que marca quem por ela passeia).

Com eles, levavam convites a olhar para a frente, para a pessoa do lado no autocarro, para quem se senta do outro lado do café ou se deita do outro lado da cama. Frases assim: "Já viste cem dramas mas nunca foste ao teatro"; "Leste mais publicações nas redes sociais do que páginas de livros"; "Preocupas-te mais com a fissura no teu ecrã do que com o caroço no teu corpo"; "Sorris mais vezes para selfies do que para pessoas".

Tomaz escreveu-as numa noite em que a cabeça não queria descansar. Escrevia, desligava a luz, voltava a ligar, escrevia outra vez (as insónias são uma das consequências do abuso de ecrãs luminosos, mas este não é o caso, garante). Não é um manifesto "anti-tecnologia" escrito por uma pessoa de 23 anos, mas antes despertadores para reflectir sobre médias "assustadoras" de horas diárias passadas em frente ao computador e com o telemóvel na mão. "A tecnologia é boa quando nos aproxima de pessoas distantes, mas é má quando nos afasta de quem está próximo. E é isso que eu vejo que está a acontecer", diz, por telefone (lá está), ao P3. 

"Já viste 100 dramas mas nunca foste ao teatro"
"Todos os momentos que filmaste e não querias perder: viste-os através de uma câmara"
"Passas mais tempo a passar o dedo pelo ecrã do que a fazer exercício físico"
"Passaste 37638 horas a segurar o telemóvel e 24 minutos a segurar mãos"
"Leste mais publicações nas redes sociais do que páginas de livros"
"Partilhaste mais petições para ajudar os pobres do que ajudaste os pobres"
"Olhas mais para o teu telemóvel do que para o mar"
"Digitaste o número para desbloquear o teu telemóvel mais vezes do que qualquer outro número"
"Preocupas-te mais com a fissura no teu ecrã do que com o caroço no teu corpo"
"Digitaste mais vezes 'eu amo-te' do que as vezes que disseste"
"Escreveste 234 675 mensagens mas nunca escreveste uma carta na tua vida"
"Sorris mais vezes para <i<selfies</i> do que para pessoas"
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