LUSA/PAULO NOVAIS
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O Doutor explica as legislativas

O PAN é de direita, mas …

O PAN defende verdadeiramente os animais? Será o Dr. André um Dr. Doolittle que domina a língua dos animais? Quando é que os animais elegeram o Dr. André Silva como seu delegado de turma? Será que os animais precisam de ser defendidos? O que é que nós sabemos do que vai na cabeça dos animais?

Há uma possibilidade enorme de um partido sem ideologia, e não estou a falar do CDS, vir a facilitar a composição de uma nova geringonça — o PAN. Aliás, nem faz sentido chamar-se geringonça, acho que podemos baptizar a nova salganhada governativa do PS como “Cãofusão”. Perceberam? É uma fusão com o partido dos animais e soa a confusão. Está comprovado, tenho o mesmo nível de génio do Dr. Paulo Portas para criar palavras que durarão para sempre nos anais da História — Irrevogável, Geringonça, “Cãofusão”. É curioso, também, que, para governar, o PS precise de adendas políticas, quando se trata de um partido que é, ele mesmo, uma adenda: P.S.

Li de forma atabalhoada o programa político do PAN. Optei por lê-lo da mesma forma que o próprio partido o escreveu, e sinto-me tão bem preparado para comentá-lo como a cabeça de lista por Setúbal, a Dra. Cristina Rodrigues, que apresentou algumas dificuldades em defendê-lo num podcast. Em defesa da Dra. Cristina Rodrigues, acho injusto que se interroguem deputados sobre os programas dos seus partidos, principalmente quando a probabilidade de serem eleitos é tão pequena. É uma perda de tempo estar a estudar um programa sem se saber se se vai ter oportunidade de o implementar, quando, ainda por cima, tão poucos eleitores votam por causa dos programas. Geralmente, votam em função da percepção que construíram acerca dos partidos. Por exemplo, quem gosta de animais vota no PAN, quem gosta de droga vota no BE, quem não gosta de ciganos vota no CHEGA, quem não gosta de sucesso vota no PCP e quem não gosta de pobres vota na Iniciativa Liberal. Não faz sentido que os candidatos a deputado estejam mais bem informados do que os seus eleitores. Se a democracia é representativa, faz sentido que também o seja na ignorância.

O PAN não se identifica com esquerda nem com direita, o que significa apenas uma coisa: é de direita. Como sabemos, vivemos num mundo direitofóbico, em que as pessoas de direita são ostracizadas pelo politicamente correcto e muitas crianças são obrigadas a usar uma t-shirt do Che Guevara e a fumar ganzas, só para não serem colocadas de parte pelos colegas. Muitas vezes, o mais fácil é dizer que não se é nem de uma coisa, nem de outra, e apenas praticar o mercado livre dentro do armário, usar risco ao lado só em casa e vestir um pólo só para jantar. O PAN está na fase do armário. Optou por tomar causas para não ter de assumir a sua ideologia.

No entanto, se não pensarmos naquela questão dos animaizinhos, o PAN, felizmente, é de direita. E é porque não acredita que existam coitadinhos sociais, que estão numa situação frágil porque existem questões socialmente complexas que o levaram a ficar assim — sem-abrigo, minorias, homossexuais. O PAN, como eu, acredita que não há questões sociais complexas. Há, sim, questões individuais simples. Se uma pessoa falhou socialmente a culpa é dela. A única solução que tem é aproveitar a necessidade — fome, discriminação, não ter uma secretária bonita — e fazer mais por si; não baixar os braços, lutar e conseguir. No caso do PAN, não há problema tão grave que um “reikizinho” não resolva. O reiki é uma forma de terapia que o PAN quer instituir no SNS e que só funciona se uma pessoa acreditar que ela vai funcionar. No fundo, como as fadas que morrem se uma pessoa negar a sua existência.

Pode parecer estúpido, e é quando aplicado à Medicina, mas é assim que a economia funciona. Quanto menos intervenção, melhor. No fundo, um economista liberal é um terapeuta de reiki, que tem como missão manter o Estado longe da economia, para que a sua energia negativa não seja um entrave às energias positivas do mercado livre que tudo resolvem. O mercado livre funciona segundo os princípios do karma. Se uma pessoa está mal é porque merece. Seja porque comeu um bife, fez um mau investimento ou decidiu estudar ciências sociais. Se quer estar bem só tem de deixar de merecer estar mal. Tem de fazer por si; porque só depende de si ser milionário — basta querer e não ter um estado social que a torne preguiçosa e acomodada por lhe salvar a vida mesmo que não pague impostos. Se não acredita em mim, ouça as palavras do youtuber/fitness god/nutricionista/intelectual/cabeça de lista do PAN por Braga, o Dr. Rafael Pinto, aqui

Muitas das pessoas que votam PAN fazem-no pela alegada defesa dos direitos dos animais. São pessoas que, normalmente, escrevem nas redes sociais frases do género: “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais.” Como se estas pessoas tivessem alternativa. E, neste caso, também fico com vontade de resgatar estes animais, aprisionados no vazio emocional destas senhoras.

O PAN defende verdadeiramente os animais? Será o Dr. André um Dr. Doolittle que domina a língua dos animais? Quando é que os animais elegeram o Dr. André Silva como seu delegado de turma? Será que os animais precisam de ser defendidos? O que é que nós sabemos do que vai na cabeça dos animais? Até aqui, o que está cientificamente provado é que os cães se voluntariaram para serem domesticados, muito antes de o ser humano precisar de domesticar animais. Isto é, o cão voluntariou-se para ser escravo do ser humano. Que eu saiba, os cães ainda ficam contentes por verem os seus donos, mesmo depois de estarem aprisionados o dia todo em casa. E desde quando é que manter uma relação S&M interespécies, em que um dos elementos é passeado com uma corrente e o outro tem de lhe apanhar os dejectos, é gostar de animais? É uma relação tóxica e abusiva. Principalmente para com o elemento que não escolheu que o passeassem com uma trela e lhe apanhassem o cocó.

E sabemos lá o que vai na cabeça das vacas. Será que as vacas prefeririam morrer de idosas, sem qualquer contributo para a economia, ou preferem saber que fazem parte de uma estirpe que fornece leite à indústria e que pequenas porções de toda a sua família mereceram ser servidas num restaurante do Dr. Chef Avillez? Se calhar, uma vaca, quando olha para um prédio, sente-se orgulhosa por saber que os humanos que o construíram se alimentaram com a carne dela. É a forma de ela participar no capitalismo. Talvez não seja bem assim que uma vaca pensa, mas tenho tanta autoridade para o afirmar quanto os militantes do PAN têm para dizer que o touro não se diverte nas touradas, a aparecer na televisão e a jogar bowling com forcados. Imaginem que diziam ao Dr. Ronaldo que ele era muito bom a praticar aquele desporto dele, mas que não o podia fazer porque o PAN o tinha abolido, sob o argumento de que aquela relva estava a ser agredida? Pois, se calhar, é isso mesmo que as vacas sentem quando estão a entrar no matadouro; como o Dr. Ronaldo, estão a entrar no campo onde podem colocar em prática o seu talento. O Dr. Ronaldo, marcar pontos; as vacas, bifes. Isto pode não ser verdade, mas não podem dizer que o contrário também não é. Enquanto não temos conhecimento suficiente para tirar uma conclusão definitiva, como no caso das alterações climáticas, devemos respeitar as vacas (e o Dr. Ronaldo) e continuar a comê-las.

Uma das medidas mais polémicas do programa do PAN, entretanto reformulada, foi a 1081, que obrigava criminosos condenados por crimes violentos a terem sessões de reconciliação com os familiares das vítimas ou com as vítimas, dependendo se as tinham matado ou não. Entretanto, o PAN colocou como excepção “crimes de violência doméstica ou violação”. Na minha opinião, é a melhor ideia do PAN. Não acho que as vítimas devam ser sujeitas a isso, claro. Mas a tecnologia está em constante evolução e podemos chegar a um cenário tipo Black Mirror, essa série que tão boas ideias tem introduzido na nossa sociedade, em que é possível introduzir os criminosos dentro de simulações onde são forçados a castigos terríveis, como reviver em loop os seus crimes violentos sob o ponto de vista da vítima ou viver numa sociedade em que o PAN é uma das maiores forças políticas. Sim, o leitor pode ser um criminoso que está a cumprir pena numa realidade da qual não tem memória e tudo isto é uma simulação criada para o castigar. Talvez seja esta a explicação para tudo o que de mau está a acontecer à sua volta e no mundo. Se calhar, este inferno em que vive é apenas proporcional ao acto vil que cometeu noutra dimensão. Se é esse o caso, parabéns aos programadores dessa dimensão por terem criado uma pessoa tão brilhante como esta que lhe escreve.

Uma das medidas que não abona em favor do PAN é a 632, onde se lê que pretende “rever o currículo escolar da disciplina de História para ensinar factualmente, e de forma acrítica, a história de Portugal”. Em primeiro lugar, dar importância a qualquer disciplina de Ciências Sociais é triste. Chega de subsídios. Em segundo lugar, sendo uma disciplina subjectiva (logo, inútil) nunca permitirá o seu estudo factual, muito menos acrítico, porque é feito por pessoas. A não ser que os livros de história de Portugal passem a ser escritos por vacas. Será? Não, não pode ser. Até porque algo me diz que a maior parte das vacas tende a desvalorizar o papel de Portugal no comércio internacional de escravos. O que é que leva o PAN a querer defender tanto os direitos de um animal tão racista?

Os regimes que glorificam o estudo da História e que pretendem que seja factual já não existem. É óbvio que estou a falar de todos os regimes de esquerda — União Soviética, Nazismo, Itália Fascista. E em Portugal também aconteceu, mas a ideologia do Dr. Salazar, como a do PAN, não era nem de esquerda nem de direita.