Opinião

Negócios da China

Que ninguém se deixe enganar pelas aparências que a China apresenta presentemente. Por baixo encontra-se um sistema de repressão que em sete décadas mais não fez do que aperfeiçoar-se.

A 4 de Junho de 2019, cerca de 30 mil pessoas protestaram em Londres contra a visita de Donald Trump à Grã-Bretanha – ou seja, contra o chefe de Estado legítimo, democraticamente eleito, de um país aliado. Curiosamente (ou talvez não), naquela multidão ninguém terá considerado mais apropriado redireccionar as energias e protestar frente à embaixada chinesa na capital britânica. E porquê? Porque nesse mesmo dia passavam 30 anos desde o fim das manifestações pró-democracia na Praça de Tiananmen em Pequim, com o massacre perpetrado por soldados do exército chinês. Um dos que participaram então nos protestos contra o Presidente norte-americano foi Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, autêntico comunista, anti-semita e admirador de terroristas, que, “coerentemente”, faltou ao jantar de gala no Palácio de Buckingham oferecido pela Rainha Isabel II a Trump… mas compareceu ao que foi oferecido, anteriormente, a Xi Jinping, Presidente da China.

A 4 de Junho de 2019, mas em Hong Kong, território que a Grã-Bretanha devolveu em 1997, cerca de 150 mil pessoas recordaram e homenagearam todas as vítimas de 1989; ainda hoje não se sabe exactamente quantas foram, mas as estimativas apontam para milhares. E hoje, 1 de Outubro, quando se assinalam 70 anos desde a chegada ao poder no “Império do Meio", depois de uma guerra civil, de Mao Tsé-Tung e do seu Partido Comunista Chinês, é dia de recordar e de homenagear os muitos milhões de vítimas – os cálculos variam entre 40 e 70 (!) – daquela que foi e continua a ser a maior ditadura do Mundo na história contemporânea. Pelo número de mortos que causou (mais, muito mais do que a Alemanha nacional-socialista e a Rússia/União Soviética socialista) e pelo número de pessoas que subjuga – quase um bilião e meio, actualmente. Não por causa dos anos que tem durado, porém: com efeito, a soviética (74, entre 1917 e 1991) e a norte-coreana (71, desde 1948) nisto mantêm uma – sinistra – vantagem. 

Que ninguém se deixe enganar pelas aparências, pela cobertura de “desenvolvimento” e de “modernidade” que a China apresenta presentemente. Por baixo encontra-se um sistema de repressão que em sete décadas mais não fez do que aperfeiçoar-se. E mais recentemente utiliza as novas tecnologias para melhor vigiar e controlar os cidadãos – na verdade, lacaios, escravos – que aprisiona no seu território atrás de uma “grande muralha” informática: desde 2015 que cada indivíduo, além de ter o seu rastro digital seguido, é pontuado pelo seu comportamento que, se for avaliado como insatisfatório, pode levar a sanções na sua vida quotidiana, o que inclui restrições a viagens, tanto domésticas como ao estrangeiro. Na prática, esta é a mais plena concretização do “Big Brother” – o de George Orwell, e, numa curiosa coincidência, também Mil Novecentos e Oitenta e Quatro celebrou este ano o seu 70.º aniversário. Condicionados física (durante décadas vigorou a política do filho único, que causou milhões de abortos selectivos, outras vítimas para a estatística do horror) e mentalmente (censura e propaganda que, embora não tão severas como na Coreia do Norte, apagaram a memória dos crimes cometidos, em Tiananmen e outros), os chineses que não integram a elite, quiçá “vanguarda revolucionária”, do PCC constituem a ideal “carne para canhão” de um alegado “milagre económico” conseguido à custa de baixos salários e da inexistência de sindicatos e de tribunais verdadeiramente independentes. Acrescentem-se constantes práticas de dumping e de manipulação monetária, espionagem industrial e violação de propriedade intelectual, e teremos os “ingredientes” da “receita do sucesso”. Sem esquecer, obviamente, a persistente catástrofe ambiental: é de perguntar aos que acreditam na existência de aquecimento global antropogénico porque não se manifestam contra o regime que é o maior poluidor do planeta, já que o desrespeito pelos direitos humanos não parece ser uma causa suficientemente importante e mobilizadora.

O poder financeiro acumulado – excessiva e indevidamente – por Pequim permitiu-lhe alimentar nos últimos anos as suas aspirações a uma maior influência, domínio e expansão internacionais. E se tal não é conseguido directa e violentamente, como aconteceu em 1950 aquando da ilegítima invasão e ocupação do Tibete, procura-se obtê-lo indirectamente, através de investimentos – principalmente em infraestruturas, mas não só – avultados em outros países, investimentos esses que não são a fundo perdido, que implicam contrapartidas. É uma estratégia denominada "Nova Rota da Seda" (também conhecida por “Uma Faixa, uma Rota"), à qual se deve responder, clara e inequivocamente, “não”. Infelizmente, em África muitas capitais não tiveram força para resistir à tentação – incluindo, por exemplo, as de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, onde companhias chinesas estão envolvidas na construção ou na remodelação de portos. O mesmo aconteceu na Europa, na qual, e como seria de esperar, Portugal se destaca pela negativa: a visita de Xi Jinping em Dezembro de 2018 a Lisboa, onde foi recebido entusiasticamente pelas muito incompetentes e ingénuas lideranças políticas sediadas nos palácios de Belém e de São Bento, serviu igualmente para oficializar a entrada (ou deveríamos dizer antes “captura"?) da “nação valente” no “casulo” pacientemente tecido pelos tiranos do Extremo Oriente. Há que reconhecer, no entanto, que a irresponsabilidade começou com o governo anterior, que em 2011 autorizou a participação da Three Gorges no capital da EDP, preterindo no processo empresas da Alemanha e do Brasil. Enfim, estes negócios da – e com a – China, apesar de aparentes “pechinchas”, poderão revelar-se ruinosos a médio e a longo prazo.

Tudo isto faz realçar e valorizar mais a coragem de Donald Trump, que finalmente rompeu com a inacção, com a inércia instaladas há demasiado tempo, e resolveu confrontar a China comunista e imperialista. Em simultâneo, há que nunca esquecer que, a pouco mais de 100 quilómetros de distância, está outra China, democrática e pacífica, numa ilha a que navegadores portugueses de Quinhentos chamaram de Formosa. 

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