Casal de viajantes detido no Irão. O motivo terá sido o uso de um drone

Mark e Jolie, bloggers de viagens australianos, estavam a atravessar a Ásia desde 2017 e queriam quebrar o estigma dos países com “cobertura negativa nos média”.

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Mark e Jolie andam em viagem desde 2017 DR/thewayoverland

Juntos há seis anos, aventureiros, decidiram fazer a viagem das suas vidas. Transformaram o carro numa “casa móvel” e partiram de Perth, Austrália, em 2017. Por terra, ar e mar, seguiram por Timor-Leste, Indonésia, Malásia, Camboja, Birmânia, Nepal, Índia, Paquistão. Ao longo da viagem, Jolie King e Mark Firkin​ foram documentando todos os passos em vídeo, texto e fotografia, em várias redes. Um dos objectivos do casal passava, inclusive, por “contrariar o estigma que envolve as viagens a países com cobertura negativa nos media”. Esta semana, foi confirmado que o Irão prendeu o casal há dois meses e meio, alegadamente por ter sido apanhado a filmar com um drone não autorizado.

A detenção recente de cidadãos australianos e britânicos (Jolie tem dupla nacionalidade) já era pública, mas não tinham sido ainda divulgados os nomes. O jornal Sydney Morning Herald adianta que a ministra australiana dos Negócios Estrangeiros já se terá reunido com as autoridades iranianas para conseguir uma solução para o caso e o Governo confirmou estar a pressionar Teerão. As relações entre os dois países tornaram-se mais tensas após a Austrália se juntar a uma força internacional para guardar o Estreito de Ormuz e as detenções poderão fazer parte do plano de retaliação. 

Online, os viajantes já publicaram centenas de textos, fotos e vídeos DR/thewayoverland
O casal com o mapa da grande viagem planeada DR/thewayoverland
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DR/thewayoverland

O desaparecimento do casal de viajantes já tinha levantado muitas questões. Online, estavam frequentemente a actualizar os canais de vídeo e fotografia do seu projecto, The Way Overland, onde têm mais de 20 mil seguidores em cada; no YouTube e Facebook, o último post data de 26 de Junho e é dedicado ao Paquistão. No Instagram, há 11 semanas já tinham chegado ao Quirguistão, à região de Naryn. Depois, silêncio. E muitas perguntas e preocupações dos seguidores sobre o seu paradeiro.

A hipótese do uso de um drone como o motivo oficial da detenção é bastante plausível, consideram vários meios: os viajantes usavam frequentemente esta ferramenta para fotografar e a ABC australiana destaca que, no Twitter, o produtor de um canal de língua persa, Pouria Zeraati da Manoto TV (com sede em Londres), assegurou que seria essa a razão. “Uma fonte disse-me que o casal australiano detido no Irão está na prisão de Evin desde Julho de 2019 por terem usado um drone” perto de Teerão (é proibido usar drones na capital iraniana). Zeraati diz ainda que a família dos viajantes comentou que terá sido um “mal-entendido” e que Jolie e Mark não saberiam que a lei iraniana proíbe o voo de drones sem autorização prévia.

A BBC adianta, por seu lado, que teve a confirmação por parte de uma fonte (também não identificada) que Jolie King teria sido informada de que a detenção faria parte de um plano para uma potencial troca de prisioneiros com a Austrália. Além do casal de viajantes, relembram, outra cidadã australiana, também com passaporte britânico, está detida na mesma prisão, mas, no caso, há um ano e terá já sido condenada em tribunal a dez anos de prisão. 

Guardian indica ainda ter tido informações de que o casal de viajantes, ambos ligados à construção civil (ele designer, ela gestora de projectos), estaria a acampar perto de Jajrood, na província de Teerão, antes da detenção.

O Irão, que tem vindo a apresentar-se cada vez mais como destino turístico – incluindo em Portugal, onde há várias agências a programar viagens sem problemas –, é referido nos conselhos aos viajantes do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, numa nota geral de 25 de Junho, como um destino em que é necessário ter cuidados extra. E, “atendendo aos recentes desenvolvimentos no Golfo Pérsico, são desaconselhadas deslocações àquela região, nomeadamente às províncias iranianas de Hormozgan e Bushehr, mantendo-se vigentes as indicações relativas a outras áreas naquele país”.

O documento avança depois por uma série de conselhos específicos a quem optar por viajar pelo país, lembrando precisamente que “é expressamente proibido fotografar ou filmar edifícios governamentais e/ou militares (e áreas circundantes). Tais edifícios nem sempre estão claramente identificados, pelo que se aconselham as maiores cautelas”. "Em caso de detenção de um nacional em território iraniano”, sublinham, “a margem de intervenção da embaixada portuguesa poderá ser limitada.” 

Nada que se compare ao que se pode ler em página similar assinada pelo Governo australiano: abre logo com o aviso “Reconsidere a realização da viagem”. E explica, rotundamente: há “o risco de os estrangeiros, incluindo os australianos, poderem ser arbitrariamente detidos ou presos”.