Crítica

Quando a História se engana na porta

Era uma Vez...em Hollywood é um filme sexy e malévolo, onde o espectador se embrenha e segue o gozo que cada cena lhe dá.

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“Dá-lhes um Hamlet sexy e malévolo, embrenha-te na cena e segue o gozo que ela te dá”. Ouve-se esta frase (ou muito semelhante: citamos de memória mas jurando pela fidelidade ao espírito) num momento de Era uma Vez...em Hollywood, como conselho de “direcção de actores” dado por um realizador à personagem de Leonardo DiCaprio — um actor em semi-decadência, que nos anos 50 fora vedeta de westerns televisivos mas que agora, em 1969, nos alvores da Nova Hollywood, está confinado a papéis estereotipados de vilão e se vê na iminência de rumar aos western-spaghetti italianos para recuperar alguma credibilidade (podia ser um émulo de Clint Eastwood, que também precisou do “Era uma Vez” de Sergio Leone para voltar a erguer a sua estrela: este filme é uma lente distorcida aplicada à Hollywood do final da década de 1960, naquele intervalo entre o desabamento da época clássica e a emergência dos easy riders, que já estão no filme, e depois dos godfathers e dos raging bulls).