Basil da Cunha traz a Reboleira a Locarno

O Fim do Mundo, segunda longa do realizador luso-suíço, é um filme “do bairro” sobre uma geração que não tem esperança.

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“Na Suíça nunca me consideraram suíço, aqui também não me consideram português… Mas sinto-me português, sinto-me um bocadinho americano por todos os filmes que vi, um bocadinho russo da literatura...” Do que Basil da Cunha tem certeza é que O Fim do Mundo, segunda longa-metragem em estreia esta terça-feira no Concurso Internacional de Locarno, é um filme português apesar de ter financiamento suíço a 100% (com produção executiva da portuguesa Terratreme). Ou melhor: “Um filme da Reboleira.”

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“Na Suíça nunca me consideraram suíço, aqui também não me consideram português… Mas sinto-me português, sinto-me um bocadinho americano por todos os filmes que vi, um bocadinho russo da literatura...” Do que Basil da Cunha tem certeza é que O Fim do Mundo, segunda longa-metragem em estreia esta terça-feira no Concurso Internacional de Locarno, é um filme português apesar de ter financiamento suíço a 100% (com produção executiva da portuguesa Terratreme). Ou melhor: “Um filme da Reboleira.”

Da Reboleira onde este filho de pai português e mãe suíça, nascido em 1985, mora há anos, e da qual os seus filmes — uma mão-cheia de curtas e a longa Até Ver a Luz, estreada na Quinzena de Cannes — formam uma espécie de “arquivo vivo”. “Estas paredes têm histórias,” conta-nos num dos recantos da sua zona, onde a conversa é interrompida a espaços por amigos, vizinhos, crianças a brincar, e os seus filmes recriam essas histórias. “Aqui, tu és uma pessoa para as pessoas que te conhecem. És alguém aqui porque toda a gente conhece a tua história. Mas quando vais para a Boba (Bobadela) já ninguém te conhece, és um fantasma. E de certo modo somos todos fantasmas em sítios onde não nos conhecem.”

A referência é apropriada para O Fim do Mundo, um filme que começa pelo regresso ao bairro de Spira, um jovem que passou quase uma década numa casa de correcção e se pergunta qual o futuro que tem. “Este vai, provavelmente, ser um dos últimos filmes que vou fazer aqui,” reconhece Basil, “até porque já não estou a filmar com a geração que fui acompanhando nos filmes anteriores”. Aliás, esta segunda longa-metragem surge depois de um silêncio de seis anos (desde a curta de 2014 Nuvem Negra), durante o qual não houve filmes novos mas o trabalho nunca parou.

“O que aconteceu é que estava a rodar um filme por ano”, explica o realizador, “e já não dava tempo para absorver coisas, para viver o bairro. Durante estes seis anos fiz um documentário e uma série, que estou a montar, mas sobretudo estive a pensar, a escrever os próximos filmes, alguns dos quais ainda vou fazer aqui”. O princípio de um novo ciclo que, sim, equivale ao fim de um mundo — “Sim, há um novo ciclo que se aproxima, e sempre trabalhei com rapazes da minha geração que tinham expectativas completamente diferentes. Esta geração cuja história conto no filme é muito diferente. O Spira passou oito, nove anos fora, e não volta igual. É como a prisão, torna-te uma pessoa diferente. Perdeu alguma coisa pelo caminho”.

Filme literalmente do bairro, rodado com não-profissionais locais (“toda a gente quer entrar”), O Fim do Mundo — tal como os anteriores filmes de Basil — “só é possível se estiveres cá”. “Se vives cá, alimentas-te das conversas com eles diariamente, ouves as histórias dos que vão, que voltam,” explica. “E a história é construída desta forma. Não se encontra na montagem, já estava tudo escrito. Viver aqui não é a mesma coisa que vir de fora — o Lionel Rogosin fez isso muito bem com o On the Bowery, o Pedro Costa também — mas moro aqui há imenso tempo e tudo aquilo que escrevo está completamente interligado com as personagens. Não sou senhor da história; sou tributário de cada personagem. O preço disso é que não podes fazer o que tu queres. Não estás acima do filme.”

Acima de tudo, Basil filma contra o miserabilismo e a defender os seus heróis. “Quero fazer filmes para eles, populares”, entusiasma-se. “Adoro filmes de género e o que me parece interessante é quando te desvias um pouco disso. Por que é que não teríamos o direito de fazer aqui filmes e de valorizar as pessoas? Temos o direito de contar histórias daqui que não costumam ser vistas, sem cair no miserabilismo, detesto isso. Sinto que defendo sempre as pessoas que filmo. Quando pensas as situações, o dispositivo, já estás a olhar para as pessoas. E há perguntas que não faço, sítios onde não vou, mas se as pessoas me oferecem eu respeito. É tudo uma questão de respeito.” Um respeito que ele já sente na entrada no concurso de Locarno, “fantástica para defender o filme”, mas sem ter expectativas; a vitória já é trazer estas histórias aos ecrãs do mundo. E reconhece, confiante, que O Fim do Mundo é o seu melhor filme até hoje. “Cheguei aqui [à Reboleira] era um adolescente e com cada filme vou melhorando. E o próximo ainda vai ser melhor.