Basil da Cunha. Um sonho de morte

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Os Vivos Também Choram. A história de um trabalhador do porto de Lisboa (José Pedro Gomes), habitante da Reboleira, que sonha com algo mais do que a sua vida de parcas condições, nomeadamente através de uma longa viagem pelo alto-mar JOANA FREITAS

Entre os subúrbios de Lausanne e a Reboleira, Basil da Cunha cria histórias de ficção com as pessoas que o rodeiam. Mas nos seus cenários marginais, é o sonho que comanda a vida. Francisco Valente

Basil da Cunha, realizador de 26 anos, cresceu na Suíça e vive em Portugal, mas uma coisa trá-lo sempre de volta a um mesmo sítio: "Há pessoas que fazem cinema porque gostam da ideia de serem realizadores, têm um longo processo reflexivo sobre a mensagem que querem passar. [Comigo] trata-se do que sinto e vejo directamente. Não é um sonho ser realizador, é uma necessidade de mostrar um olhar sobre as pessoas que amo." Esse lugar é o cinema, e essas pessoas são as que Basil conheceu nas margens das duas cidades, onde viveu e ainda trabalha: trabalhadores, emigrantes e famílias cujo dia-a-dia está longe do conforto da maioria dos outros habitantes.

Autor de três curtas - À côté (2009), Nuvem (2011) e Os Vivos Também Choram (2012), encontra-se neste momento a montar a sua primeira longa-metragem. "Somos três amigos que decidiram fazer um filme: fizemos o primeiro sem nada, no segundo já havia um pouco mais de pessoas, que viram que estávamos a fazer um trabalho sério. Na longa-metragem, criámos um grupo de trabalho enorme, com todos os cafés, as casas, as avós, as crianças, em que toda a gente no bairro [a Reboleira] participou." Em Os Vivos Também Choram, que é exibido no Curtas Vila do Conde (6ª, 13, 21h; sáb., 14, 20h), encontramos a história de um trabalhador do porto de Lisboa, habitante da Reboleira, que sonha com algo mais do que a sua vida de parcas condições, nomeadamente através de uma longa viagem pelo alto-mar. A personagem carrega consigo algo que percorre todo o cinema de Basil: o desejo de viver uma outra realidade para além daquela que tem no dia-a-dia. "O sonho que [as personagens] nunca conseguem atingir vem de uma vontade de liberdade. Estão sempre na margem e estigmatizados, são prisioneiros desse meio onde vivem porque os outros não os compreendem ou porque não tem, simplesmente, a reacção certa no momento certo." E quando a realidade das suas vidas torna-se mais forte do que as suas fantasias, algo cai sobre o seu mundo, como se a morte fosse a concretização positiva de um sonho que não encontra lugar no dia-a-dia. "A única maneira de sobreviver é sonhar, e a capacidade de viajar na nossa cabeça é um sinal de estar mais vivo. Quanto mais se passa por dificuldades, mais perto da morte estamos, mas mais vivo se fica também. Senti muito isso no sítio onde cresci e onde trabalho agora, nas pessoas com quem convivo. É a sua capacidade de viver pelo sonho que as faz sobreviver."

Olhos nos olhos

Todos os filmes de Basil da Cunha caracterizam-se, assim, por um gesto: um trabalho mútuo com os habitantes do bairro onde o realizador também vive. "Fazemos os filmes em colaboração com pessoas que vivem lá: a história é escrita a pensar nos actores, que têm uma grande importância em todo o processo de criação. Eles fazem propostas sobre as situações dentro das quais vão poder improvisar, e é com eles que trocamos ideias." Depois de três filmes com os habitantes dos seus bairros (À côté ainda foi filmado na Suíça, as curtas restantes já em Portugal), a atracção das pessoas em entrar num novo filme é como a atracção das suas personagens por esse desejo de viver um sonho. "Cada um entra nos filmes com sensações diferentes, é uma oportunidade para criar alguma coisa, uma história... Vou modificando o que fazem, tiro coisas e acrescento outras."

Por enquanto, Basil tem também contado com a participação de (poucos) actores profissionais nos filmes. "Há pessoas que estão mais conscientes das cenas, outras menos, e a minha ideia com os actores profissionais era ter um cúmplice", explica. Os Vivos Também Choram conta com José Pedro Gomes. "Tinha que haver uma ou duas pessoas que percebessem a intenção de uma cena e que me ajudassem a levar as coisas para um lado. Mas aqueles com quem trabalhei agora na longa [apenas com pessoas do bairro], para mim, são os melhores actores do mundo. Quanto menos pessoas de fora, melhor, a máquina do cinema fica mais poderosa."

Acreditar nas pessoas - um gesto que encontra uma certa linhagem na história do cinema, e que Basil da Cunha leva também para o seu universo pessoal, onde a fantasia ocupa um lugar determinante. "Pasolini, Pedro Costa, Albert Serra ou Rabah Ameur-Zaïmeche têm uma coisa em comum: os olhos nos olhos das pessoas", diz-nos. "Não são realizadores super-potentes que assentam ideias e conceitos de uma realidade que vão modificar. Trabalham com as pessoas à altura delas. Já não estão por cima das coisas, estão ao mesmo nível."