Realizador Pedro Costa convidado para membro da Academia de Hollywood

Organismo que atribui os Óscares anunciou quarta-feira os seus novos 744 membros, oriundos de 57 países e com números reforçados de mulheres e não-brancos. Autor português de Cavalo Dinheiro está na lista.

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Pedro Costa John Schults/Reuters

O realizador português Pedro Costa foi convidado para integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que anualmente atribui os Óscares. O autor de Cavalo Dinheiro e Juventude em Marcha faz parte do lote de 744 novos membros convidados a integrar a organização. Pedro Costa junta-se assim a outros portugueses no rol de membros da organização, que anunciou quarta-feira o seu segundo número recorde consecutivo de convidados a renovar a sua composição – 39% são mulheres e 30% não-brancos.

Para se ser admitido na Academia, um realizador tem de cumprir pelo menos um de três critérios: ter no mínimo dois filmes realizados e pelo menos um deles lançado nos últimos dez anos e de “um calibre que, na opinião da comissão executiva, reflicta os elevados padrões da Academia”; “ter créditos como realizador de um filme nomeado para o Óscar de Melhor Realizador, Melhor Filme e ou para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro”; ter-se distinguido, aos olhos da Comissão Executiva do Ramo de Realização, de forma única, ter merecido “mérito especial ou feito um contributo extraordinário como realizador de cinema”.

O convite, que pode ou não ser aceite pelos visados, é fruto de um apoio de dois membros actuais da Academia e do ramo (são 17, no total) a que pertença. Um nomeado para um Óscar é automaticamente elegível para ser convidado a tornar-se membro do organismo norte-americano, no entanto. A cada Primavera, os mais elevados responsáveis da Academia, o seu Board of Governors, analisam depois os nomes propostos e aprovam ou não o convite a endereçar àqueles que queiram integrar as fileiras da entidade que anualmente organiza a mais mediática festa do cinema mundial.

Pedro Costa, nascido em 1959, é autor de várias curtas e longas-metragens e um dos mais conceituados cineastas portugueses. O seu trabalho mais recente é Cavalo Dinheiro (2014, que lhe mereceu o prémio de melhor realizador no Festival de Locarno), sendo também autor de Ne Change Rien (2009), Juventude em Marcha (2006), Onde Jaz o Teu Sorriso? (2001), No Quarto da Vanda (2000, que levou ao prémio France Culture para o realizador estrangeiro durante o Festival de Cannes), Ossos (1997), Casa de Lava (1994) e O Sangue (1989). 

O PÚBLICO contactou Pedro Costa, que não prestou declarações. Além deste convite, entre os cerca de seis mil membros da Academia há já um português, Carlos de Mattos, o único a ter já recebido um Óscar - aliás dois - na década de 1980 por Avanços Técnicos para o cinema (a invenção de uma grua para câmaras, usada por Steven Spielberg em E.T.- O Extraterrestre e de uma câmara operada por controlo remoto usada por Francis Ford Coppola em Cotton Club, por exemplo).

O longo caminho para a diversidade

Esta nova lista de convites surge dois anos depois de um protesto cujos efeitos continuam a fazer-se sentir: eram #OscarsSoWhite que abalaram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que desde então tenta diversificar a sua composição. Quarta-feira, a Academia anunciou orgulhosamente que admitiu um número recorde de 744 novos membros este ano, dos quais 39% são mulheres como a actriz Gal Gadot, estrela do blockbuster Mulher Maravilha, e 30% são de outra etnia que não a branca, como Barry Jenkins, o realizador do filme que venceu o Óscar deste ano, Moonlight.

O recorde é batido pelo segundo ano consecutivo, depois de em 2016 o organismo cujos membros votam os Óscares ter convidado 683 novas pessoas para renovar a sua composição. As admissões anuais não são novidade no funcionamento da Academia, mas desde o ano em que nenhum actor nas quatro categorias que lhe são dedicadas era negro, asiático, hispânico ou qualquer outra etnia que não a caucasiana, têm-se revestido de um esforço tanto de diversificação quanto de comunicação com o mundo.

Os Óscares tornaram-se um símbolo da desigualdade numa das indústrias mais bem sucedidas e com maior visibilidade internacional dos EUA e, na esteira do movimento resumido num hashtag criado por April Reign, a presidente negra e mulher da Academia, Cheryl Boone Isaacs, anunciou que pretendia mais variedade no corpo de votantes e que os membros que há mais tempo não estivessem no activo poderiam deixar de ser membros, por exemplo. Essa “limpeza dos cadernos eleitorais” não aconteceu, por ter também suscitado contestação, e ao invés a Academia tem-se esforçado por aumentar o número de mulheres e de não-brancos num organismo que até ao ano passado era sobretudo formado por homens brancos: 92% dos membros da Academia eram brancos e 75% homens.

Com estes novos convites, que incluem o actor Channing Tatum, a actriz irlandesa Ruth Negga ou o casal Anna Faris e Chris Pratt, bem como o realizador estreante Jordan Peele (Foge – Get Out), as estatísticas da Academia ainda assim não melhoram significativamente. Embora a organização destaque que nos últimos dois anos, com os novos membros, o número de mulheres aumentou 359%, com os novos nomes a percentagem feminina da composição da entidade subiu apenas de 25% para 28%. No que toca às etnias, o aumento foi de 2%, dos 11% para os 13%.

Os convites, que ainda têm de ser aceites pelos actores, realizadores, argumentistas e outros nomes das áreas da produção, montagem ou fotografia com menor visibilidade dos vários sectores da indústria, foram ainda estendidos a Adam Driver (Silêncio, Star Wars: O Despertar da Força, Paterson), Dwayne “The Rock” Johnson (Velocidade Furiosa 7, Vaiana, Baywatch), Kristen Stewart (Crepúsculo, Personal Shopper), Riz Ahmed (The Night Of, O Mentor), Janelle Monáe (Moonlight, Elementos Secretos), Jon Hamm (Mad Men, Baby Driver), Leslie Jones (Ghostbusters e Saturday Night Live), Donald Glover (Atlanta), Betty White, Paz Vega ou aos realizadores Fatih Akin (In the Fade, Soul Kitchen), David Ayer (Esquadrão Suicida), Alejandro Jodorowsky (A Montanha Sagrada), Guy Ritchie (Snatch), o compositor Lin-Manuel Miranda (Hamilton, Vaiana), o músico Justin Timberlake ou o argumentista e realizador Joss Whedon, entre muitos outros, oriundos de 57 países.

A lista de novos membros, que se propaga como notícia um pouco por todo o mundo, está então povoada de nomes sonantes, uns televisivos, outros autorais, alguns em ambas as categorias, mas também alguns nomes que, juntamente com o espírito da medida em si, merecem críticas. Scott Feinberg, perito do universo dos prémios de Hollywood e arredores, escreve na Hollywood Reporter que alguns destes nomes vêm “baixar a fasquia para a entrada na Academia”, o que, defende, “dilui a credibilidade da organização e o prestígio dos seus prémios”. Refere nomes como os de Peele, Gadot ou de Wanda Sykes, sobretudo pela falta de experiência cinematográfica em volume e relevância, mas frisa sobretudo que  “a actual rota da Academia é como pôr um penso-rápido num ferimento de bala.

“As intenções da Academia são admiráveis, mas as suas tácticas são imprudentes. Em suma, a Academia não pode resolver os problemas de diversidade da indústria” do fim para o princípio, defende o colunista, porque é apenas o ponto de chegada do sector. Aponta a responsabilidade das bases da indústria, dos agentes aos estúdios, distribuidores aos responsáveis pelo marketing. 

Notícia corrigida às 11h46 - Riz Ahmed, e não Rami Malek, foi convidado a integrar a Academia