O combate de Lionel Rogosin

Pequena retrospectiva da obra de um pioneiro decisivo do cinema independente americano mostrada no Porto e em Lisboa.

<i>On the Bowery</i> foi filmado no que era então o bairro mais miserável de Nova Iorque
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On the Bowery foi filmado no que era então o bairro mais miserável de Nova Iorque DR

A partir deste sábado, no Porto/Post Doc (Rivoli, 18h30), e para a semana em Lisboa, na Cinemateca, acontece uma rara oportunidade para conhecer um pouco da obra de Lionel Rogosin (1924-2000), um pioneiro decisivo do cinema independente americano, inspiração reconhecida por gente como John Cassavetes ou Jonas Mekas, entre muitos outros, e cujos ecos se fizeram também sentir no cinema europeu (o “free cinema” britânico também reclamou a influência de Rogosin).

Vamos ver as duas primeiras longas-metragens – On the Bowery (1956) e Come Back Africa (1959; Cinema Passos Manuel, dia 8, 16h30) – de uma obra que se estendeu por mais um punhado de filmes até aos anos 70, mas da qual estes dois títulos terão ficado como os mais emblemáticos. Um terceiro filme – The Perfect Team: The Making of On The Bowery (Rivoli, dia 7, 10h), realizado em 2009 por Michael Rogosin, filho de Lionel – compõe o breve ciclo, proporcionando uma perspectiva sobre a feitura desse filme específico, mas trazendo também o próprio Lionel Rogosin, em material de arquivo, a pronunciar-se sobre as suas ideias e os seus métodos.

Filho de um grande industrial dos têxteis, nada encaminhava especialmente Rogosin para uma vida no cinema. O “momento decisivo” deu-se na II Guerra Mundial, quando cumpriu o serviço militar na marinha americana, e numa viagem, no imediato pós-guerra, pelas terras devastadas da Europa central e oriental. A memória dos fascismos, os campos de concentração, deixaram-lhe uma profunda impressão, e a decisão de viver “como se estivesse a destruir Auschwitz todos os dias da [minha] vida”.

O cinema, para Rogosin, revelou-se o método dessa “destruição” – já houve quem o comparasse a Woody Guthrie, por causa daquela célebre guitarra com a inscrição “esta máquina mata fascistas”, e a comparação nem é descabida, porque em Rogosin existia essa dimensão popular, “folk”, ligada à terra, à gente comum e à gente deserdada.

On the Bowery, filmado no que era então o bairro mais miserável da cidade de Nova Iorque, exprime isso muito bem. Estamos nas costas do “sonho americano”, ou, para o dizer mais exactamente, no “pesadelo americano”: talvez nenhum outro filme feito em qualquer outro sítio ou época mostre assim o antigamente chamado “lúmpen-proletariado” no seu ambiente, a acumulação de tugúrios e tabernas que era a Bowery nos anos 50. Feito com não-actores, genuínos operários, desempregados e alcoólicos “prisioneiros” da Bowery, dissolvendo a fronteira entre documentário e ficção, é um filme que, apesar da brutalidade descritiva de certas cenas, tem a delicadeza e o humanismo de uma canção “folk” – sendo, ainda, uma pungente reflexão sobre a dependência (o protagonista, com a sua aura de Gary Cooper do “lúmpen”, chegou a ter convites para uma carreira de actor, mas preferiu voltar à Bowery, onde morreu alcoólico).

Come Back Africa, realizado pouco mais tarde, introduz Rogosin a uma das grandes questões do seu cinema futuro, a condição dos negros. Neste caso, com uma importância histórica inexcedível: foi rodado, semi-clandestinamente, na África do Sul do “apartheid”, de que será dos poucos (e mais remotos) testemunhos filmados. A potência do olhar de Rogosin não se esgota numa questão de “denúncia” (de resto, condenada ao fracasso: ainda houve mais três décadas, pelo menos, de “apartheid”), é ainda a profunda vibração humana desse olhar, a vitalidade das pessoas que filma, a presença da música, aquilo que mais impressiona – como se, para “destruir Auschwitz”, fosse a vida, e não a morte, que devesse ser filmada.