EN 2: Uma road trip à portuguesa com miúdos no banco de trás

Atravessar Portugal de Norte a Sul, longe das praias e de piscinas, de Chaves até Faro e com crianças a bordo. Sim, fazer a Estrada Nacional 2 com miúdos é mesmo boa ideia. Há testemunhos disso.

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Planear uma viagem de carro sempre ao longo da mesma estrada, durante vários dias, pode parecer tudo menos uma boa ideia quando no banco de trás levamos crianças. A tendência é lembrarmo-nos que naquelas distâncias mais longas (e às vezes nem são tão longas quanto isso) lá vêm com pequenas intermitências as perguntas sacramentais: “Já chegámos?”, “Ainda falta muito?”. Mas confirma-se que, afinal, planear fazer a já mítica Estrada nacional 2 com miúdos pode ser mesmo uma ideia muito boa. Elsa Lisboa atravessou Portugal de Norte a Sul, de Chaves a Faro, com os filhos de 12 e de seis anos instalados no banco de trás. E eles adoraram a aventura.

Em primeiro lugar, não há exageros em dizer que aquela estrada é mítica: é a única na Europa em que se pode dizer que atravessa de uma pontinha a outra um país, sendo uma espécie de coluna dorsal, ou espinal medula, de um país. Atravessá-la permite conhecer o país até ao seu tutano, ver desde os pequenos cafés até aos grandes monumentos megalíticos, atravessar pontes e vales, aldeias e cidades. Se, enfim, as crianças lá de casa não se entusiasmam com um discurso destes, temos mais argumentos para juntar à coisa. Bastará encomendar junto da Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2 o pequeno livro amarelo para os acompanhar durante toda a viagem. A missão é parar nos 35 concelhos e 11 cidades e carimbar no passaporte o símbolo que marcará cada uma das paragens. “Para os meus miúdos funcionou muito bem. Eles entusiasmaram-se com esta missão”, confirma Elsa Lisboa, que descreveu no seu blogue Viagens e Miúdos todas as etapas desta aventura.

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Dependendo da idade dos miúdos, a verdade é que eles também podem ser envolvidos no planeamento, e serem eles a ajudarem os adultos a decidir de quantas paragens se vai fazer esta viagem. Elsa Lisboa confessa-nos que não é apologista de desenhar todas as viagens e aventuras só à feição dos miúdos, e planear as paragens só em função deles, e das atracções que eles podem encontrar no caminho – a excepção que confirma esta regra foi garantir uma paragem em Mora, para ir conhecer o fluviário. “Não planeio as viagens só em função do que eles podem ou não gostar. Planeio as viagens pensando nas coisas que podemos fazer em conjunto, e desta vez o que nos interessava era a viagem e não o destino. Saberíamos que haveria sempre coisas interessantes a fazer pelo caminho. Um miradouro, um museu, um café. O que quer que fosse”, diz Elsa Lisboa.

A primeira aventura pode ser, então, planear a viagem, e decidir em quantos dias ela vai ser feita. São 740 quilómetros que, no limite, poderão ser feitos num dia. Ou em dez. Tudo depende da quantidade de vezes que se quer parar, do número de monumentos que se quer conhecer. E há muitos pelo caminho. A viagem pode ser montada através de pesquisas na Internet, não só no site da Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2, como em muitas páginas e grupos que vão partilhando dicas no Instagram e no Facebook. Num dessas páginas – a Estrada Nacional 2 - encontramos relatos de viagem bem recentes e até dados estatísticos que mostram que a Estrada nacional 2 é mesmo uma estrada para todos. Outra hipótese é procurar nas livrarias o delicioso guia da editora Foge Comigo (o stock online já está esgotado) e perceber que a viagem pode ser pensada e organizada através de muitos temas.

O percurso pode começar em Vila Verde da Raia (10km a norte de Chaves) e terminar numa das praias da ria Formosa. Pelo caminho passa-se por quatro classificações Património Mundial da UNESCO, atravessam-se os mais importantes rios portugueses e cinco serras. Cada um fará a sua viagem, e terá os seus momentos mais conseguidos. Elsa Lisboa diz que algumas das paragens que os miúdos mais gostaram foi a Livraria do Mondego, quase a chegar a Penacova. “A Livraria do Mondego é um monumento natural que foi esculpido nas margens do Mondego ao longo de 400 milhões de anos. São altas assentadas de quartzitos dispostas quase verticalmente, dando ideia de livros numa estante e que deu origem ao nome. Há um pequeno passadiço que pode ser percorrido para admirar esta beleza natural, os miúdos adoraram”, diz Elsa Lisboa. Assim como adoraram tirar uma fotografia junto da placa de estrada mais fotografada da EN2: Picha, ora pois.

A viagem de Elsa Lisboa foi feita na Páscoa. A família tinha uma semana de férias, mas também queria aproveitar uns dias de praia no Algarve. A decisão de quilómetros a percorrer por dia, e o número de paragens a efectuar, acabou com uma divisão de quatro dias, etapas de menos de 200 quilómetros/dia, e muitos carimbos no passaporte. “O único senão é que muitos postos de turismo estavam fechados por ser feriado – apanhámos a Sexta-feira Santa – e ficaram a faltar carimbos”, diz ela. Mas não faltaram emoções, nem boas memórias.

Os sítios onde se recolhem carimbos podem ser postos de turismo, cafés de beira de estrada, postos de abastecimento de combustível, e estão todos indicados no já referido passaporte. “É uma espécie de caça ao tesouro, os miúdos gostam disso”, remata Elsa Lisboa. Em alguns sítios descobrir onde era a própria Estrada Nacional 2 também pode ser uma emoção. “A estrada está quase sempre em boa estado, mas a sinalização nem sempre. Há sítios em que o caminho não é óbvio. E nós levávamos o GPS, que insistia em indicar-nos estradas principais. Mas nós queríamos a Estrada Nacional 2, e às vezes era uma aventura encontrá-la”, relata. Contas feitas, foi uma road trip à portuguesa. Com certeza.