Dominik Scythe
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Dominik Scythe

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Sedutor, o título

Sugiro que nos tratemos pelos nomes. É mais fácil, prático e evita perguntas desnecessárias, pessoais, e, em muitos casos, difíceis de solucionar. Afinal, os títulos e o(s) trabalho(s) de cada um são apenas aprendizagens e trabalho.

Há quem, ao dizer senhor doutor, com a rapidez da dicção, pareça dizer “sedutor”. E parece-me que, em Portugal, a sedução para com o título maior na hierarquia académica – a que um estudante pode ascender – continua presente. Usado e abusado.

O que é um doutor? O acrónimo para um doutor é Ph.D, o que se traduz originalmente em Philosophy Doctor, ou Doutor em Filosofia. Um doutor corresponde a alguém que tem um doutoramento certificado por uma universidade. Contudo, em Portugal, o título é utilizado, culturalmente, de forma distintiva. Imagine-se que a sedução é tal que em Portugal usa-se o diminutivo de doutor (dr.) para fazer-se referência a um licenciado, enquanto se utiliza a palavra por extenso para se fazer referência a um doutorado — e até um mestre (detentor de um mestrado) é “doutor”, mesmo que o tratamento lhe desagrade. E nem sempre se sabe bem a que corresponde o título.

A tentação é tal que dei por mim, e ao longo da minha vida, a ver verdadeiras transformações, tantas foram as pessoas que de repente deixaram de ser chamadas por José, Manuel ou António, para passarem a ser chamadas por Doutor José, Doutor Fernando, ou Doutor António, independentemente do título académico e da hierarquia académica a que o título corresponde. Fernando Pessa, se por cá andasse, diria: “E esta, hein?”.

Compreendo a vaidade, principalmente quando somos uma democracia recente, e o elitismo académico, assim como a posição privilegiada a que um título académico dava acesso. São memórias ainda recentes e motivos de exaustos orgulhos. Mas é também o retrato de uma cultura servil e saloia, que é necessário repensar. Seja como for, não me parece bem que uns mereçam tantos créditos e outros tão poucos ou nenhuns. Para sermos realmente sérios, deveríamos tratar-nos a todos e a todas – antes do nome – pela correspondência hierárquica à profissão que desempenhamos. E, assim sendo, mesmo em profissões mais informais cuja legitimidade para exercer funções depende essencialmente da aprendizagem prática, como é o caso da carpintaria, teríamos que encontrar soluções.

Portanto, um servente de carpinteiro que tivesse aprendido o suficiente para ser carpinteiro deveria usar o acrónimo carp. antes do nome. E ser tratado por carpinteiro José, Manuel, ou António. Mais tarde, caso se tornasse um carpinteiro de marcenaria (marceneiro), então deveria ver por extenso o título e manter o tratamento de Carpinteiro José, Manuel, ou António. O mesmo aconteceria para um servente de pedreiro acabadinho de se fazer pedreiro (pdr.), e um pedreiro experiente que se especializa na arte da cantaria (canteiro), deste modo, veria o título escrito por extenso e seria chamado de Pedreiro José, Manuel, ou António.

É claro que para sermos justos e não falharmos na designação, quando falássemos com alguém teríamos que saber primeiro qual a profissão desempenhada. Contudo, teríamos dois problemas: no caso de ser alguém que desempenhou vários trabalhos, seria difícil escolher um título; no caso de uma pessoa desempregada ou que recebe um subsídio do Estado, poderia ser inconveniente ou desconfortável atribuir-lhe algum título.

Posto isto, sugiro que nos tratemos pelos nomes. É mais fácil, prático e evita perguntas desnecessárias, pessoais, e, em muitos casos, difíceis de solucionar. Afinal, os títulos e o(s) trabalho(s) de cada um são apenas aprendizagens e trabalho. Não são, por si só, a identidade de cada um de nós.

Notas do autor:
1) Há uns anos, dirigi-me ao banco onde tinha a minha conta domiciliada para tratar de uns assuntos. Durante a conversa, pedi à funcionária para retirar da minha ficha o título académico. A senhora mostrou-se surpreendida e, depois da tentativa frustrada para me convencer a manter o título, perguntei-lhe se o tratamento era idêntico para carpinteiros, pedreiros e outros trabalhadores. Respondeu-me que não e sorriu.

2) Ambos os meus avôs foram pedreiros/marceneiros. Durante a minha infância acompanhei-os, chegava-lhes ferramentas e ajudava a transportar algumas pedras. Duas observações relevantes: ambos faziam um trabalho minucioso (manualmente), cuidadoso e artístico; o meu avô paterno era um perfeccionista. Apesar dos poucos estudos, fazia cálculos matemáticos com uma rapidez e qualidade que me impressionavam. No entanto, se lhe colocassem um teste de Matemática à frente dificilmente acertaria alguma pergunta.

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