Reportagem

Os areais do Malhão-Aivados não têm nada e por isso têm tudo

Ao contrário das praias talhadas pela falésia noutras zonas da costa alentejana, a extensão Aivados-Malhão é acompanhada apenas pelas dunas. Escapou às tentativas de desenvolvimento regional e aos interesses imobiliários. E hoje é um paraíso.

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Os trilhos que me levam à praia desde pequena não estão marcados no navegador de GPS. São feitos de areia. Tanto se desdobram em três caminhos, como voltam a encontrar-se uns metros à frente. Por vezes perdem-se numa curva apertada ou numa descida escabrosa.

Entre Porto Covo (passada a ilha do Pessegueiro) e Vila Nova de Milfontes, há quilómetros de areal selvagem. Não se mete pelo caminho um restaurante ou unidade de habitação. Ao contrário das praias talhadas pela falésia noutras zonas da costa alentejana, a extensão Aivados-Malhão é acompanhada apenas pelas dunas. Pouco mudou: hoje o parque de estacionamento da praia do Malhão é pavimentado, com acessos por estrados de madeira, e uma pequena ribeira que se atravessava no caminho das dunas secou. No seu todo, a zona continua imaculada. Escapou às tentativas de desenvolvimento regional e aos interesses imobiliários. E hoje é um paraíso.

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“A costa alentejana esteve mesmo à beira do abismo onde o Algarve já caiu. (...) Sobre a última costa selvagem da Europa pendiam dezenas de projectos urbanísticos, agravados por um alucinante plano da Direcção-Geral de Portos que pretendia artificializar toda a linha costeira”, escrevia o PÚBLICO em 1994, sublinhando: “Hoje criaram-se instrumentos para a preservar.”

Na altura do meu avô, que nasceu e cresceu entre Vila Nova de Milfontes e Porto Covo, o caminho fazia-se a pé, ao lado dos animais. Hoje andam pelos trilhos apenas carros com tracção às quatro rodas — por isso, o tráfego é praticamente nulo. Existem alguns acessos para veículos ligeiros a partir da estrada interior, apenas até entradas de praia específicas. Pelo meio, há só a vegetação das dunas, a que nos arranha ao passar de janela aberta, e as matas onde apanhamos as pinhas e caruma para a lareira.

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Do estacionamento até à praia, dependendo do sítio, pode ser um percurso de dez minutos. Naturalmente, dado o acesso mais complicado e a falta de confortos e divertimentos aos quais alguns veraneantes estão habituados, são praias menos populosas. Só a zona mais a sul do Malhão (com bandeira) é que é mais frequentada. Ao lado, há a praia de nudistas e depois os Aivados. Dependendo da maré, faz-se tudo a pé.

Cedo fui ensinada a trocar o medo pelo respeito ao mar. Não havia uma bandeira que o assinalasse, mas quando a rebentação das ondas mais intimidava, o meu pai levava-me para lá: aprendi de mão dada a entrar e a sair da água; a manter a calma até conseguir pôr o pé na areia; a não gastar energia a nadar contra a maré e a voltar com as ondas.

Era mais aventureira em pequena, admito, mas continuo a preferir que seja a minha intuição (e não um apito) que dite quando vou ou não entrar no mar, nas praias que conheço e que provavelmente já me conhecem a mim. E, como quem está mal muda-se, prefiro estas praias sem vigia. Não têm nada e por isso têm tudo.

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Herdade do Pessegueiro Rui Gaudêncio

À volta da praia

1. Passeio a cavalo na Herdade do Pessegueiro
Uma das melhores formas de passear pelas dunas que se estendem a sul, a partir da ilha do Pessegueiro, é a cavalo dado. A Herdade do Pessegueiro tem uma série de programas, pensados para pessoas com diferentes níveis de habilidade — de quem nunca tenha montado a cavaleiros com experiência. Há passeios de uma ou duas horas, com acompanhamento de um guia, e programas de vários dias, com direito a alojamento e piqueniques pelo caminho. Dependendo da duração, os percursos passam pelas praias, pelos trilhos à volta do Pessegueiro ou pelas dunas. 

2. Alojamento nas herdades
Em Porto Covo e Vila Nova de Milfontes as opções de alojamento são os apartamentos, os parques de campismo e alguns (poucos) hotéis. Para quem prefira instalar-se num refúgio mais calmo, existem algumas pequenas herdades. Há, por exemplo, a Herdade da Matinha — que se destaca pelas hortas biológicas que chegam à mesa e pela oferta de aulas de ioga e pilates, bem como massagens de relaxamento — e a casa de campo Cabeça de Cabra, localizada numa antiga escola primária renovada, com uma arquitectura minimalista, que nos dá vontade de por lá ficar. 

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Herdade da Matinha Rui Gaudêncio

3. Tasca do Celso 
Cozinha alentejana típica — das açordas à carne de porco — e bem confeccionada. A Tasca do Celso, no centro de Vila Nova de Milfontes, já é um clássico e uma das melhores opções na região. Antigamente, o restaurante limitava-se a uma sala com meia dúzia de mesas (sempre cheias), mas foi alargado, com uma segunda sala maior. Um conselho que deixamos, se lá for, é para pedir, quando fizer a reserva, para ficar na sala original, mais acolhedora.

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Tasca di Celso Rui Gaudêncio

4. Arte e Sal
No meio na estrada que nos leva de São Torpes a Porto Covo, é o meu restaurante preferido num raio de dezenas de quilómetros. Logo à entrada, a bancada anuncia uma escolha a tomar: optar pelo peixe fresco ou deixar-se levar por uma das opções da carta, de cozinha alentejana com um toque de modernidade. A açorda de ovas com camarão e as migas de espigos merecem atenção. Vale tudo, desde que não se esqueça de pedir de entrada os camarões Arte e Sal — a especialidade da casa, feita com um molho à base de coentros. E para sobremesa a tarte de maçã revirada. O restaurante tem uma boa carta de vinhos, com uma selecção de vinhos da região — sendo que tipicamente dispõem-se a abrir qualquer garrafa para provar a copo. Convém também fazer reserva.

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Para quem estiver em Porto Covo, um bom restaurante para o dia-a-dia é o Zé Inácio. Há peixe, mista de porco grelhado e, para sobremesa, migas doces. 

PÚBLICO - Ilha do Pessegueiro no olhar
Ilha do Pessegueiro no olhar Nuno Alexandre Mendes
PÚBLICO - Na ilha do Pessegueiro
Na ilha do Pessegueiro Enric Vives-Rubio
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Nuno Alexandre Mendes

5. Visita à ilha do Pessegueiro

Salvo a opção de ir a nado, ou saltar das gaivotas que se podem alugar na praia da ilha do Pessegueiro, a melhor forma de visitar o bocado de terra que Rui Veloso tornou conhecido é nos barcos que partem várias vezes ao dia da baía de Porto Covo, com um guia (às 10h, 14h e 16h). Não há pessegueiro na ilha, mas há, sim, as ruínas romanas e a antiga pedreira para ver. As visitas acontecem tipicamente entre 15 de Junho a 15 de Setembro. Têm uma duração aproximada de duas horas e um custo de 10 euros para adultos e 6 euros para crianças entre os três e oito anos (Para reservas ligar 965 535 683).

6. Festas de Porto Covo
A animação em Porto Covo concentra-se no mês de Agosto, ao longo do qual costuma haver uma série de concertos. Os principais eventos acontecem nos últimos dias: o dia 29 começa logo de madrugada com o tradicional banho, na praia do Banho; mais tarde, nesse dia, há a corrida aos patos, em que cerca de uma dúzia de patos são largados no meio da baía e os concorrentes, divididos por grupos, saltam à água para o apanhar; à noite, ainda no dia 29, decorre a procissão das velas e no dia seguinte há o fogo-de-artifício. 

7. Surf e SUP
A praia de São Torpes — bem como a Vieirinha, pouco depois, abaixo — são bastante procuradas pelas suas ondas. Ambas têm escolas de surf e alugam também pranchas de bodyboard e de stand up paddle (SUP). Em Vila Nova de Milfontes, vale a pena apostar nesta última modalidade, aproveitando para fazer um passeio a partir da praia rio (Mira). É possível também alugar caiaques.