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A cultura das falácias, a propósito do artigo de João Miguel Tavares

João Miguel Tavares perdeu mais uma oportunidade para mostrar que sabe mais do que aquilo que escreve, voltou a atear uma fogueira que é muito difícil de apagar: a fogueira do racismo e da xenofobia.

Não foi com muito espanto que li mais um texto de João Miguel Tavares (JMT) onde este apregoa ideais e concepções absolutamente reprováveis. Mais uma vez, somos brindados com uma reflexão de século XX muito à americana: os meus valores, crenças e costumes são melhores do que os teus. JMT crê que a organização política e económica dos países nórdicos, e até o sentido dos fluxos migratórios, podem identificar aquelas que são as culturas ditas superiores. Mais, JMT afirma que “há certos tipos de culturas que oferecem às sociedades que as cultivam mais oportunidades para todos os seus membros e uma maior liberdade para cada indivíduo poder ser aquilo que deseja.” Ora, esta expressão utilizada não caracteriza um país ou uma sociedade de cultura superior, mas um país mais rico que os demais.

A cultura dos povos não pode ser medida pela quantidade de meios que tem ao seu dispor, porque se os sudaneses não têm a estabilidade necessária para prosperar é precisamente devido a essas culturas que JMT acha superiores, no sentido de terem sido durante séculos colonizadores impiedosos e verdadeiros empecilhos no que tange ao desenvolvimento democrático e igualitário de todo o mundo.

É igualmente perigoso afirmar que a “paixão multiculturalista produziu os guetos que alimentaram o terrorismo”. Em primeiro lugar porque esta ideia tem implícita a questão de que a mistura de culturas, nomeadamente na Europa, é pressuposto necessário do terrorismo. Voltamos à velha questão de que o terrorismo é estrangeiro e nunca fruto das políticas dos grandes actores no panorama internacional. Em segundo lugar, os guetos criados por essa Europa fora não têm como origem a multiculturalidade, mas o capitalismo, as políticas postas em prática por esses países que JMT considera culturalmente superiores.

Portugal não inventou o iPhone, mas a América também não inventou o sistema ATM. Os portugueses fazem tanto ou mais pelo desenvolvimento tecnológico e científico como os americanos ou os franceses. Aliás, além do muito que se faz por cá, dentro de portas, também é muito o que se alcança além-fronteiras, inclusive nos Estados Unidos, por portugueses. Isto faz de nós uma cultura superior? Não.

O importante é que não se continue a eternizar a ideia de que umas culturas são superiores às outras, principalmente quando se sustenta tal ideia com as falácias com que JMT embrulha o seu texto. Os refugiados e migrantes não se dirigem maioritariamente para a Alemanha por esta ser culturalmente superior, mas por ser um país que oferece estabilidade e um dos mais ricos da Europa. Não se misture alhos com bugalhos.

João Miguel Tavares perdeu mais uma oportunidade para mostrar que sabe mais do que aquilo que escreve, voltou a atear uma fogueira que é muito difícil de apagar: a fogueira do racismo e da xenofobia.

Vivemos tempos perigosos, onde muitos aproveitam para marcar a sua agenda, que muitas vezes não é clara nem objectiva, mas contribui para o aumento do populismo que tanto criticam.