Editorial

A segunda morte do Syriza

A derrota do Syriza já não é a derrota do movimento de esquerda que levou Tsipras ao poder: essa morreu no referendo de 2015

As eleições gregas vieram reabilitar o partido da Nova Democracia, agora com um novo líder – Kyriakos Mytsotakis, filho de um antigo primeiro-ministro dos anos 90 – e uma maquilhagem nova, o “centrismo”. A Nova Democracia é a direita tradicional grega, co-responsável, com os socialistas do PASOK, pela péssima gestão do Estado e nepotismo antes da crise financeira e pela austeridade que se seguiu. Ao contrário do PASOK, extinto na sequência da crise e de ter governando com o primeiro programa da austeridade, a Nova Democracia sobreviveu e atingiu agora a maioria absoluta. A direita sobreviveu à crise, os sociais-democratas não.

A derrota do Syriza já não é a derrota do movimento de esquerda que levou Tsipras ao poder: essa morreu no referendo de 2015, quando o partido convocou um referendo para ganhar apoio popular contra um programa de austeridade e acabou a negar os resultados e a aceitar um programa muito pior. Foi aí que o Syriza, que chegou ao poder com um programa de recusa da austeridade, foi extinto. A Europa impôs o princípio que a está a destruir – o “não há alternativa” – e a partir daí o Syriza transformou-se num partido como os outros, o “partido do Alexis”, um substituto do PASOK.

O partido do Alexis não cumpriu o programa com que foi eleito, deixa a Grécia com uma taxa de desemprego de 18,1% (40% entre os jovens) e um em cada três gregos em risco de pobreza. Infelizmente, não há como não concordar com Yanis Varoufakis quando diz, na entrevista que este domingo deu ao El Mundo, que Tsipras “é um mentiroso”. Se se juntar à tragédia da austeridade a repetição de alguns dos defeitos que têm caracterizado a jovem democracia grega (tão jovem como a nossa, com a democracia restaurada em 1974), como o nepotismo e a colocação de fiéis no aparelho de Estado, percebe-se a derrota.

O caso do Syriza foi um caso exemplar para a esquerda europeia nos últimos anos. A forma como a Europa lidou com o caso, de modo a penalizar um povo para poder ilegalizar uma ideia – a de que era possível um outro rumo e que os povos podiam escolher os seus líderes – foi infame. É evidente que o Syriza não tinha plano B e isso ditou a sua morte. Alexis Tsipras tinha, mas era outro: substituir o PASOK no espaço político grego. Até agora, Tsipras fazia parte da “aliança progressista” de António Costa. Essa aliança, que já era curta, agora ficou mais diminuída.