Opinião

A ameaça da nova moeda do Facebook para a banca tradicional

O sector bancário, juntamente com os reguladores e bancos centrais, têm pela frente um desafio gigantesco para ganhar esta batalha e impedir que as grandes tecnológicas dominem este mercado.

Com a entrada do Facebook, juntamente com outras 27 importantes organizações a nível mundial, no negócio das transações digitais, a forma como efetuamos pagamentos online vai mudar radicalmente. Mas será apenas isso, que Mark Zuckerberg pretende?

Há já alguns meses, que o Facebook anunciava que iria entrar no negócio dos pagamentos online. Contudo, não se adivinhava que entraria com a dimensão e com o número de parceiros relevantes, como a que anunciou a Libra no passado dia 18 de junho.

A entrada da rede social neste negócio seria, por si só, um facto que iria mexer com o status quo das transações digitais. Mas, o que é mais relevante, e merece uma reflexão mais aprofundada, é a criação de uma moeda própria, a Libra, juntamente com os maiores players neste negócio, como são o PayPal, Visa, Mastercard e Stripe. Para além disso, ainda cabem na parceria, alguns dos maiores operadores de serviços no digital, como são a Uber, Spotify, eBay, Booking, a “portuguesa” Farfetch, entre outros.

Por um lado, o Facebook percebeu que entrar sozinho num mercado que não é o seu seria entrar num negócio que desconhece, e iria competir com empresas que controlam o monopólio dos pagamentos online, com know-how, tecnologia e canais de distribuição já muito bem implantados, o que seria quase impossível de competir. Mas, por outro lado, a meu ver ainda mais relevante, e que a maior parte dos analistas não tem valorizado, é a parceria que foi estabelecida com os operadores de serviços que dominam o mercado atualmente. Com esses canais privilegiados, e com a dimensão de operação que estes permitem, a Libra entra desde já numa posição dominante e de força no mercado, enquanto moeda digital. E, aqui, Mark Zuckerberg mostrou uma vez mais o seu carácter disruptivo e de estratega, através da entrada em mercados extremamente competitivos e com a utilização de tecnologias já existentes, como já o havia feito com o Facebook.

Com o Apple Pay e o Amazon Pay com arranques lentos, e com uma penetração baixa no mercado, a Libra pode mesmo levar a que estes meios de pagamento da Apple e da Amazon fiquem pelo caminho num curto espaço de tempo, ou tenham uma expressão muito reduzida num mercado gigantesco e altamente lucrativo, e que as Big Tech há já muito tempo espreitam para entrar.

A ameaça à banca tradicional
Apesar de Mark Zuckerberg referir que a Libra irá permitir que utilizadores do Facebook sem acesso a uma conta bancária possam enviar dinheiro entre si, e efetuar pagamentos online, nomeadamente em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, as suas motivações são claramente menos altruístas, e mais comerciais, como é compreensível. O objetivo passa por competir com a banca tradicional e entrar em força, com dimensão e competência num negócio, que estava vedado às empresas da Big Tech.

O Bank for International Settlement (BIS), considerado o “Banco dos Bancos Centrais” a nível mundial, reagindo a quente à entrada da Libra prevista para 2020, publicou esta semana um relatório onde alerta para a ameaça real da nova criptomoeda do Facebook, e como esta pode causar sérios danos ao setor bancário. 

No mesmo relatório, o BIS considera que as grandes empresas de tecnologia podem rapidamente estabelecer uma posição dominante no mercado, devido ao grande número de utilizadores que possuem — o Facebook tem atualmente cerca de 2,4 mil milhões de utilizadores em todo o mundo, o que representa mais de um terço da população mundial. “Embora estas empresas possam melhorar a inclusão e integração financeira, apresentam também riscos de estabilidade financeira, concorrência e proteção de dados”, conclui o relatório, exigindo aos reguladores internacionais, uma coordenação entre as Big Tech e os bancos, para que possam cooperar mutuamente, o que me parece uma atitude já tardia e até extemporânea, face aos planos do Facebook e dos seus parceiros, que pretendem atuar à margem do setor bancário.

Mas, Zuckerberg tem planos mais abrangentes com a introdução desta moeda digital. A quantidade de informação que permitirá obter através dos atuais parceiros, e de outros que possam entrar posteriormente, é enorme. Toda a informação de transações, envios de dinheiro, e compras efetuadas na Uber, eBay, Booking, entre outros, será partilhada com o Facebook, que juntamente com a informação que já detêm, permitirá criar outras propostas de valor para os seus clientes, muito superiores às que já conseguem hoje em dia.

O impacto que a entrada das Big Tech vai ter, é apesar de tudo ainda uma incógnita. No entanto, parece-me evidente que o paradigma mudou, e a ameaça para a banca tradicional é real e de curto prazo. O setor bancário, juntamente com os reguladores e bancos centrais, têm pela frente um desafio gigantesco para ganhar esta batalha e impedir que as grandes empresas tecnológicas entrem e dominem este mercado. Veremos se ainda irão a tempo.