Investimento na construção com maior subida trimestral dos últimos 22 anos

Sector está a recuperar “o lugar que sempre lhe foi devido” e o investimento superou os quatro mil milhões de euros no primeiro trimestre do ano. Mas continua a ser mais à custa da iniciativa privada do que do investimento público.

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Andreia Patriarca

O investimento em construção teve no primeiro trimestre deste ano a maior subida homóloga desde o segundo trimestre de 1997, aquele que o sector continua a ter como referência para o melhor período de sempre (com uma subida de 13,8% na altura)​. De acordo com os dados fornecidos ao PÚBLICO pelo presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), Manuel Reis Campos, a soma do investimento feito em construção nos primeiros três meses do ano atingiu 4151 milhões de euros. “Foi, de facto, um dos melhores trimestres que há memória”, diz o presidente da Confederação, que, no entanto, sublinha que o sector ainda está aquém dos níveis compatíveis com as necessidades de crescimento sustentado do país.

No apuramento dos dados das contas nacionais feito pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) já se tinha percebido que foi o investimento em construção um dos maiores responsáveis pelo crescimento económico registado no primeiro trimestre deste ano passou de um crescimento homólogo de 2,8% no final de 2018 para 12,4% no arranque deste ano.

“O sector está finalmente a reocupar o lugar que sempre lhe pertenceu, e está agora a preparar-se para a próxima década de investimento. Era preciso é que o investimento público fosse de facto calendarizado e programado. Falta um ano para a próxima década, o próximo ciclo, e está tudo por decidir”, protesta.

É que se os dados apurados pelas taxas de variação trimestrais revelam perspectivas animadoras, Reis Campos diz que a responsabilidade é praticamente toda do sector privado, uma vez que a iniciativa pública continua aquém do desejável. “Basta pensarmos nas recomendações que o Conselho Europeu tem deixado às avaliações do Plano de Estabilidade e Crescimento entregues pelo Governo português os indicadores de investimento público continuam muito baixos. O sector da construção deveria representar 11% do PIB, e ainda estamos muito longe disso”, sublinha o presidente da CPCI.

Reis Campos baseia-se no Observatório das Obras Públicas, que é dinamizado pela sua associação, para demonstrar que em termos homólogos, no passado mês de Abril esse indicador registava uma variação negativa de 12%. Foi em Maio que esse indicador passou para terreno positivo, com uma variação homóloga de 6%. De acordo com este barómetro, durante o ano de 2018 foram promovidos 2633 concursos públicos, mas apenas 2028 contratos foram de facto celebrados – e, destes, 460 correspondem a ajustes directos. Para viabilizar uma comparação homóloga, verifica-se que nos primeiros cinco meses de 2018 foram promovidos 997 concursos públicos. O número dispara para 1766 contratos se em análise estiver o período de Janeiro a Maio de 2019.

“Estes números são muito importantes porque mostram uma variação homóloga de 77%, mas nós preferimos registar o número de contrato celebrados e, aí, vemos que a variação homóloga se fica pelos 6%”, analisou. “Portugal ainda não tem a necessária convergência com a restante Europa, que continua a alertar que o investimento público é essencial”, sintetiza Reis Campos.

De acordo com os mais recentes dados do Euroconstruct, o sector europeu da construção civil cresceu 3,1% em 2018, em termos reais. O crescimento da construção civil em Portugal durante o ano de em 2018 foi superior a 7%, ou seja, muito acima da média europeia. “O ciclo de expansão desta indústria que se vem verificando nos últimos cinco anos continua a ser dinamizado pela construção nova (mais 4,3% em 2018), com destaque para as infra-estruturas e a construção residencial”, adiantou ao PÚBLICO António Coimbra, representante em Portugal desta associação que representa o sector.

Segundo a informação analisada pelo Euroconstruct, o resultado em Portugal foi dinamizado sobretudo pela construção residencial, que teve taxas de crescimento de 12,4%. “O segmento das infra-estruturas manteve-se como o menos significativo em termos de contribuição para a expansão do sector, com um crescimento anual de 6,9%”, disse António Coimbra. O Euroconstruct analisa 19 mercados europeus, e na última conferência, realizada em Roma, demonstrou que apesar de estar em crescimento sustentado desde 2013, o sector ainda está longe do seu pico de actividade, atingido na primeira década deste século.

O dinamismo do sector da construção em Portugal é uma realidade, que pode ser confirmada também pelo número de novas empresas que foram criadas nos primeiros meses deste ano. De acordo com os dados divulgados pela Informa D&B, que monitoriza os casos de novas empresas, encerramentos e insolvências que são reportadas oficialmente, até ao final de Abril foram criadas quase 19.500 novas empresas, mais de 12% do que no mesmo período homólogo, com 2018 a ser o ano em que foi batido o recorde de criação de empresas em Portugal.

Além do sector dos serviços, que é sempre onde surgem mais empresas, este ano de 2019 tem-se destacado pela vitalidade nas empresas de construção, tendo-se registado a criação de 2345 novas empresas de construção até Abril.

O principal problema que agora é reportado pelo sector da construção civil e das obras públicas não é a quebra de actividade, mas antes a falta de mão-de-obra para poder dar resposta a todas as encomendas.