,Doença, morte e funeral de Gabriel García Márquez
Eliana Aponte/REUTERS

A incrível fantasia do Caribe no jornalismo de Gabo

O jornalismo e a literatura sempre andaram próximos na obra de Gabriel García Márquez. Ele usava recursos jornalísticas na escrita de ficção e escrevia jornalismo com o contágio fantasioso do Caribe. O Escândalo do Século é um testemunho dessa relação próxima entre os dois ofícios de Gabo. O livro, com edição inédita, reúne 50 textos jornalísticos de García Márquez publicados entre 1950 e 1984.

Em 1954, o romance que imortalizou Gabriel García Marquez ainda não tinha sido escrito, mas um dos seus protagonistas, Aureliano Buendía, já existia. “Quando Aureliano Buendía regressou à povoação, a guerra civil tinha terminado. Talvez ao velho coronel nada restasse da áspera peregrinação. Restava-lhe apenas o título militar e uma vaga inconsciência do seu desastre. Mas restava-lhe também metade da morte do último Buendía e uma dose inteira de fome. Restava-lhe a nostalgia da domesticidade e o desejo de ter uma casa tranquila, aprazível, sem guerra, que tivesse um gonzo alto para o sol e uma rede no pátio, entre dois postes.” O excerto foi publicado em Junho desse ano na Revista Crónica, de Barranquilla, e assinado pelo mesmo homem que 13 anos mais tarde iria publicar Cem Anos de Solidão, a saga da família Buendía, em Macondo, terra idealizada por García Márquez a partir da sua Aracataca natal. Este é só um exemplo da “tensão narrativa” que o escritor colombiano emprestava da mesma forma à literatura e ao jornalismo, de tal modo que uma e outro muitas vezes se confundem.