Nuno Ferreira Monteiro
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Nuno Ferreira Monteiro

Megafone

A propósito da polémica das beatas

É necessária uma lei para que deixe de ser “normal” atirar beatas para o chão? Então, que venha a lei. Ou queremos antes continuar a discutir se temos o direito de mandar as beatas para o chão?

A sentença está traçada e a confusão instalada. Depois dos sacos de plástico, dos pratos e talheres de plástico e das palhinhas, vamos eliminar as beatas dos cigarros. O próximo alvo do plástico está seleccionado e os fumadores portugueses não vão sair ilesos. Dentro de sensivelmente um ano vamos ser proibidos de deitar beatas para o chão e multados se não cumprirmos a lei que está prestes a ser aprovada. Haverá uma distribuição em massa de cinzeiros portáteis e, por todo o lado, teremos cinzeiros permanentes disponibilizados por empresas de comércio, transportes públicos, hotelaria, alojamento local e instituições de ensino superior.

A origem do problema é esta: cerca de 90% dos mais de 5,6 mil biliões de cigarros fabricados anualmente em todo o mundo têm filtros feitos de acetato de celulose, um derivado do plástico que pode demorar entre cinco a 15 anos para se decompor. Anualmente, mais de dois terços destes filtros são descartados de forma irresponsável. Em Portugal, dizem, atiramos cerca de 7000 beatas para o chão a cada minuto que passa. Porquê? Por irresponsabilidade, desconhecimento, apatia, desinteresse, rebeldia ou outros motivos. Os estudos evidenciam que deitar a beata no chão é, para muitos, o momento final do ritual de fumar um cigarro.

No entanto, as beatas que deitamos no chão acabam por cair nas sarjetas e, através dos esgotos, chegam aos rios e oceanos. São, há mais de 30 anos, o maior contaminador plástico dos oceanos e das praias. Uma vez na água, flutuam e são consumidos por peixes e aves marinhas ou dissolvem-se e libertam os poluentes que absorveram do tabaco — nicotina, arsénio e chumbo. Uma beata pode contaminar aproximadamente 7,5 litros de água numa hora, água esta que é a base do ecossistema marinho.

O impacto das beatas e de todos os outros plásticos encontrados no oceano tem sido subestimado, mas recentemente um estudo do Laboratório Plymouth Marine de Inglaterra abordou três benefícios críticos que os oceanos nos proporcionam e que nem sempre temos consciência: a provisão de comida, o património e o turismo. Vejamos.

A produtividade, viabilidade, rentabilidade e segurança das indústrias da pesca e da aquicultura são altamente vulneráveis ao impacto do plástico marinho, o que conduzirá à diminuição da disponibilização de comida proveniente do mar. A ingestão dos microplásticos pelas baleias, cachalotes, tartarugas, ursos polares ou aves marinhas levarão à diminuição da reprodução e aumento da mortalidade destes carismáticos animais que têm elevado valor patrimonial e emocional para as pessoas. A abundância de plástico nas costas e nos oceanos vai fazer com que os turistas deixem de visitar os locais mais afectados e de praticar actividades recreativas, o que levará à perda da receita turística. São só e apenas três razões sistémicas para acabar com as beatas no chão.

Devemos banir os cigarros com filtro? Eliminar as substâncias químicas das beatas? Equacionar filtros biodegradáveis? Orgânicos? Comestíveis? Com pouca pressão social, a indústria tabaqueira tem sido lenta a responder a estas questões, mas agora, com as beatas diabolizadas vai ter de encontrar soluções mais céleres.

Para evitar multas que podem ir de 200 a 4000 euros, os fumadores terão que conseguir desenvolver uma capacidade sobre-humana para mudar de hábitos. O acto de dar a última passa, inalar a nicotina que falta, deitar a beata para o chão e pisá-la tem os dias contados. É necessária uma lei para que deixe de ser “normal” atirar beatas para o chão? Então, que venha a lei. Ou queremos antes continuar a discutir se temos o direito de mandar as beatas para o chão?