Gonçalo Dias

De paletes a tijolos, há uma segunda vida para as beatas

Por ano, os portugueses consomem 10 mil milhões de cigarros. Quantos acabarão nas ruas, nas florestas ou no oceano? Consciencializar e sensibilizar são termos recorrentes para lidar com o problema das beatas no chão. E há quem lhes queira dar uma segunda vida fora dos cinzeiros e do lixo.

Estima-se que 4,5 biliões de pontas de cigarro sejam descartadas indevidamente todos os anos, em todo o mundo. Uma ida à praia ou uma caminhada com os olhos postos nos passeios de algumas cidades portuguesas facilmente darão razão aos números publicados em 2011 no British Medical Journal, com base numa investigação realizada pela Tobacco Control (uma revista internacional que analisa os diferentes impactos do tabaco no mundo). Em Portugal, os dados mais recentes de um relatório divulgado em 2017 pela Seas at Risk, uma organização não-governamental financiada pela União Europeia (UE) preocupada com as políticas de protecção dos oceanos, revelam que os portugueses consomem 10 mil milhões de cigarros por ano.

Este valor também pode ser entendido da seguinte forma: em média, tendo em conta a população fumadora com mais de 15 anos em Portugal, são consumidos 1113 cigarros por habitante, por ano, de acordo com a mesma fonte. Quantos acabarão nas ruas, nas florestas ou nos oceanos? O problema, diz Paula Sobral, professora e investigadora no Departamento de Ciências e Engenharia da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa, “é a licença social conferida às pessoas de poderem deitar as beatas para o chão”.

A também presidente da Associação Portuguesa do Lixo Marinho é categórica ao afirmar que “as beatas são o principal lixo que se encontra no Sul da Europa”. Um cigarro contém mais de 4000 partículas tóxicas que podem ser prejudiciais para o ecossistema, lê-se no artigo de 2011 da Tobacco Control, Toxicity of cigarette butts, and their chemical components, to marine and freshwater fish ("Toxicidade das beatas e dos seus componentes químicos, para o peixe de águas doce e salgada). A investigadora considera que “só criando cada vez mais dificuldades a quem fuma” e “disponibilizando cinzeiros” será possível actuar sobre o problema das beatas. “Tem de haver acções concertadas, temos de criar condições para que as pessoas se possam comportar bem.”

Os filtros, introduzidos nos cigarros durante os anos de 1950 e 1960, numa tentativa de tornar mais saudável o hábito de fumar, são compostos por acetato de celulose — um material resistente à decomposição.

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O tema está na ordem do dia. O partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) apresentou um projecto para regulamentar o destino a atribuir às beatas. O diploma será discutido em plenário pelos deputados, a 12 de Junho. Propõe-se a proibição do descarte de beatas em todo o país (alguns municípios já aprovaram regulamentos que penalizam quem atira beatas para o chão) e a criação de uma “ecotaxa”. No projecto-lei do PAN, afirma-se que “para cerca de 20% da população portuguesa seja normal descartar as beatas para chão”, tratando-se, pois, de “um hábito inconsciente e ainda socialmente aceite”. Segundo dados publicados na proposta do PAN, sete mil beatas de cigarro vão parar ao chão a cada minuto, em Portugal. “Sete mil resíduos aparentemente inofensivos, mas cada um deles contém mais de quatro mil substâncias tóxicas.”

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Como resposta ao problema, o município de Oeiras aprovou, em 2017, o regulamento de Serviço de Gestão de Resíduos Urbanos e de Limpeza e Higiene Urbana, em que é proibido “lançar para o chão qualquer resíduo, nomeadamente papéis, latas, vidros, restos de alimentos, beatas de cigarros e outros resíduos que comprometam a segurança e salubridade públicas”, podendo constituir uma contra-ordenação punível com coima de 50 a 1000 euros a prática dessa infracção”.

A autarquia de Lisboa também anunciou recentemente um novo regulamento de higiene urbana que proibirá atirar beatas e maços de tabaco, ou pastilhas elásticas, para o chão. A coima poderá chegar aos 1500 euros.

Para Jade Freire, que está a fazer um mestrado de Ecologia Humana, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, e que se tem envolvido em acções de sensibilização sobre o tema, o problema passa também pela “não classificação da beata como um resíduo perigoso pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA)”. O descarte indiferenciado gera um grave problema de gestão de resíduos, visto que as sobras de cigarro, na maior parte das vezes, são misturadas com o lixo comum e encaminhadas para aterro. A contaminação dos solos e dos sistemas de águas pluviais são apenas algumas das consequências do indevido descarte das sobras de cigarros, aponta a estudante brasileira.

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Questionada pelo P3, a APA reconhece as beatas como “sendo um dos mais recorrentes contaminantes dos rios e do mar”, mas esclarece que, de acordo com o Regime Geral de Gestão de Resíduos, “os resíduos de beatas não consubstanciam nos termos dos resíduos perigosos, visto as substâncias perigosas presentes não ultrapassarem os limites de concentração estabelecidos para efeito de avaliação da perigosidade”. “Além de não serem classificadas como resíduos perigosos”, esclarece, “as beatas não possuem potencial de valorização material, pelo que a sua recolha selectiva não traz mais-valias em termos de gestão de resíduos”. 

Em todo o mundo, e também em Portugal, são cada vez mais os projectos para minimizar o impacto das beatas no ambiente. Fomos procurar alguns.

Biatakí: cinzeiros portáteis

David Figueira, 30 anos, é um dos vários portugueses que resolveram tentar fazer a diferença e apresentar uma medida concreta para a redução do número de beatas nas ruas. Ao voltar da Suíça, depois de uma estadia ao abrigo do programa Erasmus, resolveu implementar uma solução, à época inovadora, em Portugal: a utilização de copos reutilizáveis. Introduziu essa prática em alguns festivais pelo país, mas sentiu que ainda lhe faltava fazer algo pelo ambiente. Foi assim que surgiu a rede Biatakí e o cinzeiro pessoal que permite aos fumadores colocar as beatas num recipiente próprio, sem poluir o chão. Os cinzeiros são feitos em cana de bambu e utilizam uma rolha de cortiça para manter as beatas compartimentadas. Além da solução de cinzeiros portáteis, a Biatakí associa-se a entidades públicas e privadas, disponibilizando recipientes onde podem ser depositadas beatas. Este ano lectivo realizou quatro acções de limpeza na FCSH e recolheu mais de 19 mil pontas de cigarros. As parcerias com diferentes juntas de freguesia e associações também são uma constante na agenda de David. 

E-tijolo: tijolos feitos com beatas

O Laboratório da Paisagem, juntamente com o Centro de Valorização de Resíduos e o Instituto de Soldadura e Qualidade, desenvolveram o E-tijolo. A proposta apresentada por Diogo Pinheiro, um engenheiro electrotécnico, venceu um concurso de ideias do Laboratório de Paisagem lançado em Abril de 2019 com base numa solução que incorpora as pontas de cigarros na construção de tijolos. O uso deste tipo de lixo permite criar tijolos mais leves, com melhores propriedades de isolamento, além de reduzir em 60% o consumo de energia necessário para a sua produção.

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Quando + 1= - 1: limpeza dos oceanos

A 22 de Maio celebrou-se o Dia Internacional da Biodiversidade e o projecto Quando +1 = -1, criado por Sónia Sousa Ell, saiu à rua em Lisboa para uma acção de plogging com a Associação de Estudantes do ISCTE e funcionários da Câmara Municipal de Lisboa. Os estudantes caminharam pela cidade para recolherem beatas num percurso de 970 metros entre o ISCTE, na Avenida das Forças Armadas, e uma das instalações da Câmara de Lisboa, no Campo Grande. As 4800 beatas recolhidas foram entregues ao município, num acto simbólico para apelar à consciencialização, e depois transportadas pela Missão Beatão para Abrantes, onde serão utilizadas num processo de valorização energética.

A mergulhadora explicou ao P3 que, a partir de alguns dados, é possível calcular — com alguma margem de erro — o número de beatas nos passeios da capital. O comprimento total das ruas de Lisboa ronda os 1800 quilómetros, aponta. Só na freguesia das Avenidas Novas são cerca de 85 quilómetros, por exemplo. “Com base no número de beatas recolhidas a 22 de Maio, estima-se que se podem encontrar no solo da cidade 81 milhões de unidades.”

O objectivo da acção foi sensibilizar os cidadãos para a erradicação ou diminuição do acto vulgarizado de deitar beatas para o chão. E também demonstrar o perigo que estas constituem para a saúde pública ao entrarem no circuito de águas residuais, através dos esgotos e sarjetas, contribuindo para a contaminação do ecossistema marinho ao chegarem ao mar.

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Missão Beatão: recolha de beatas

A Missão Beatão, criada por Manuel Nobre em 2018, apresenta sistemas de recolha e soluções para a transformação de beatas. Com sede em Santarém, tem vindo a promover acções desde 2013. A recolha das sobras de cigarros pode ser feita através de porta-beatas pessoais, mini-beatões que podem ser colocados em superfícies comerciais e edifícios públicos, ou beatões, grandes reservatórios onde é depositada toda a matéria recolhida. A solução encontrada para o fecho de ciclo é encaminhar as beatas para um processo de criação de combustíveis derivados de resíduos, desviando-as dos aterros onde acabam por poluir os solos envolventes.

Segundo dados da organização, cerca de 18% das beatas vão parar aos circuitos de água pluviais, cursos de água, mares e praias. Só em Portugal, são atiradas para o chão perto de 300 milhões de beatas por mês.

Manuel sente que faz a diferença ao desviar de aterro as beatas. “Podem ser queimadas e valorizadas energeticamente.” No sentido de promover um destino sustentável para as beatas, celebrou um protocolo com a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova de Lisboa, na “perspectiva de estudo dos seus componentes, para saber o que pode ser extraído para valorização do resíduo”.

No More Butts: tratamento de beatas

O programa No More Butts, parte integrante do projecto TerraMar, quer chamar a atenção da população mundial para os problemas dos oceanos. A organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido criou um programa de reciclagem de beatas e de outros materiais relacionados com a indústria do tabaco (plásticos que envolvem os maços, mortalhas e embalagens de tabaco de enrolar). As beatas terminam o seu ciclo de vida ao serem derretidas com plásticos duros que podem ser transformados em produtos industriais (por exemplo, paletes de plástico). As cinzas e o tabaco são separados e utilizados num processo de compostagem.

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The TerraMar Project

O primeiro passo é recolher as beatas e acondicioná-las num cinzeiro. Depois, há que colocar o lixo num envelope ou num recipiente e assegurar que todas as beatas e cinzas estão secas. O último é escrever um email a solicitar uma etiqueta de envio grátis. Por fim, basta entregar a encomenda nos correios e a mesma será encaminhada para a TerraMar.

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Greenbutts

Cigg Seeds: filtros biodegradáveis com sementes

Foi pela mão de um designer inglês que surgiu a ideia de criar o Cigg Seeds. Ben Forman lembrou-se que poderia tornar o acto de atirar beatas para o chão em algo que gerasse vida e beleza nos espaços ao ar livre. Foi assim que criou um filtro biodegradável com sementes no seu interior. Ao ser largado no solo, o material dos filtros decompõe-se e, passado algum tempo, florescem flores silvestres. Apesar de não ser uma solução eficiente para as áreas urbanas, permite diminuir a quantidade de beatas em algumas áreas rurais do Reino Unido.