Fruut: desidratar a fruta feia, para a salvar do caixote do lixo

É quase como se faz em casa: a fruta é lavada, descascada e laminada. Depois, vai ao forno durante umas horas et voilà. Está pronto. É mesmo assim: simples, sem segredo ou aditivos. A única parte “técnica” do processo é a desidratação, conseguida depois de várias horas num forno industrial que extrai a água e permite que a fruta se torne estaladiça.

Na fábrica da Fruut, em Viseu, há cerca de 280 quilos de maçã a serem descascados por hora. Se as maçãs não estivessem nestas máquinas, que as lavam, descascam, laminam e desidratam, provavelmente estariam no lixo. Porque na Fruut só entra “fruta feia” — trazida da Quinta de Vilar, distribuidor que está mesmo na porta ao lado —, mas que nem sempre é tão feia assim: “Utilizamos fruta que o mercado rejeita apenas porque tem um pequeno defeito na casca, uma forma mais irregular ou um calibre mais pequeno”, explica Filipe Simões, director executivo da empresa.

“Podíamos fazer isto com fruta de primeira qualidade, mas queremos dar o nosso contributo para um mundo mais sustentável”, refere Filipe. Desde 2013, data em que a empresa nasceu, já foram “resgatados” cerca de cinco milhões de quilos de fruta — à volta de 32 milhões de peças que teriam sido descartadas por não cumprirem os requisitos estéticos do mercado. E para haver o mínimo de desperdício possível, as cascas e os caroços da fruta descascada são todos os dias recolhidas por produtores das proximidades, que as utilizam para alimentação dos animais.

Nesta fábrica, o que vai para o lixo é a fruta que está podre e imprópria para consumo, ou as embalagens que já estão prontas, mas que, por não terem o peso indicado na embalagem, são retiradas da linha. Tudo o resto pode ser encontrado em supermercados, caixas de venda automática, gasolineiras: um dos esforços da marca é ter um produto “fácil de encontrar”.

“Preocupamo-nos em contribuir para a sustentabilidade e para a diminuição do desperdício alimentar e reconhecemos também a problemática do plástico”, aponta Filipe Simões. Por isso, a Fruut reduziu 25% da utilização de plástico nas embalagens da marca e pretende, “dentro de um ou dois anos”, fazer “uma redução ainda mais significativa do uso deste material, que poderá culminar com a substituição” total do mesmo. “Se não a eliminação, pelo menos uma redução muito significativa do uso de plástico”, refere.

A fábrica está em processo de expansão: há novas máquinas instaladas e um novo armazém. A ideia é conseguir ter “capacidade para responder a grandes encomendas e redução do custo de produção”, num momento em que Portugal “já representa menos de 50% do mercado” das vendas da Fruut. “A partir do momento em que começamos a ter determinada projecção e a ambicionar algo crítico, precisamos de alargar o tipo de produtos”, atira o director executivo. Em breve, deverá juntar-se à maçã, abacaxi, pêra e coco, novos “frutos, legumes e outras surpresas”. Sempre, claro, com a maçã como protagonista: “O primeiro produto e o mais apreciado.”

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