“Traição” e contradições: o estranho caso de Júnior Sena

Avançado da Académica auto-excluiu-se de um jogo decisivo na luta pela subida. Semanas depois, foi anunciado como reforço para o treinador da equipa que não chegou a defrontar.

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Júnior Sena em acção pela Académica. Na próxima época será jogador do Leixões cortesia Académica/OAF (DR)

Esta é a história de um futebolista, figura da sua equipa, que, a menos de uma hora da partida mais importante da temporada, disse ao treinador e companheiros que não se sentia em condições de jogar. Um mês e meio depois, foi anunciado como reforço para a próxima época do novo clube do treinador da equipa contra a qual recusou jogar.

Internacional cabo-verdiano, Júnior Sena é o nome no centro deste enredo. Jogador da Académica na época que terminou, assumiu-se como elemento preponderante na equipa de Coimbra. Porém, em Abril, antes de um jogo que era decisivo para a Académica manter vivas as aspirações à subida de divisão, o futebolista alegou que não estava em condições para jogar. A partida era contra o Famalicão, que bateu a “Briosa” e no fim da época celebraria a promoção. Júnior Sena não voltou a jogar pela Académica e na próxima temporada será reforço do Leixões. Clube no qual vai ter como treinador Carlos Pinto, o técnico que o levou para Coimbra há um ano - e que orientava o Famalicão no controverso encontro de Abril.

“Fiquei estupefacto com a coincidência. São coincidências a mais. Se fosse um filme, eu metia-lhe esse título: O Filme das Coincidências. Eu não acredito em bruxas, mas que as há...”, afirmou, em conversa com o PÚBLICO, o treinador da Académica em 2018-19, João Alves. O técnico riscou Júnior Sena da equipa após os acontecimentos em Famalicão, tendo admitido, posteriormente ao jogo, que se sentiu “traído por aquilo que aconteceu”.

“Era como se fosse uma final para a Académica, que andou sempre atrás do Famalicão. [O Júnior Sena] era um jogador com influência enorme na equipa, e nem eu nem ninguém pode prever o que ia acontecer se esse jogador estivesse com a cabeça em condições. Ofensivamente, era o jogador mais importante da equipa. E perdemos essa ‘final’ nessas circunstâncias”, acrescentou João Alves ao PÚBLICO.

Júnior Sena - avançado que marcara três golos nos dois jogos anteriores à visita a Famalicão e tinha sido eleito o melhor jogador da II Liga em Março - estava a ser uma peça importante na recuperação classificativa da Académica. Após um mau início de campeonato, em que chegou a estar na zona de despromoção, o clube de Coimbra conseguiu reentrar na luta pela subida e, à entrada para a 29.ª jornada, podia reduzir a diferença relativamente ao segundo lugar para dois pontos, em caso de vitória na visita a Famalicão.

O futebolista cabo-verdiano chegara à Académica no começo da época, quando a equipa era orientada por Carlos Pinto. O técnico, que foi despedido no início de Outubro, utilizou o cabo-verdiano em quatro partidas do campeonato, apenas uma vez como titular (média de 43,5 minutos por jogo) e sem qualquer golo marcado. Com João Alves, Júnior Sena foi utilizado 20 vezes, 19 delas como titular (média de 86 minutos por jogo) e apontou seis golos.

“Estou num lamaçal”

O dia 13 de Abril marca a data em que tudo mudou, tanto para Júnior Sena na Académica como para a Académica na II Liga. A derrota em Famalicão foi o início de uma série de seis jogos sem vencer (dois empates e quatro derrotas), que deitou por terra a esperança que os conimbricenses tinham de lutar pela subida de escalão. Júnior Sena não voltou a vestir a camisola “negra” após perder a confiança do treinador.

Depois de devolver o Famalicão ao principal escalão do futebol português, Carlos Pinto viu consumar--se a sua saída do clube minhoto, tornando-se treinador do Leixões para 2019-2020. Dois dias depois, era anunciada a contratação de Júnior Sena para as próximas duas temporadas.

“Em termos morais, senti-me naquele dia, e sinto-me ainda hoje, completamente defraudado. Se as altas instâncias do futebol português vêem esta coincidência e ficam de braços cruzados, então parabéns e ‘siga para bingo’. É a prova provada que a II Liga pouco interessa aos organismos competentes e deixam levantar uma onda de suspeição, lama, lodo. Como profissional de futebol, estou num lamaçal, é uma nojeira. Fala-se muito do antigamente, mas afinal as coisas pouco mudaram”, lamentou João Alves.

Contactado pelo PÚBLICO, o representante do futebolista rejeitou as dúvidas levantadas pelo treinador da Académica. “O João Alves é livre de pensar o que quiser, mas não pode acusar a direcção do Leixões por querer juntar o Carlos Pinto e o Júnior Sena. Pelo que eu sei, além do Carlos Pinto, sondaram outros dois treinadores. Se fosse um dos outros, não havia essa conversa”, afirmou Helder Monteiro, director da Top Elite Athletes Management, acrescentando: “O treinador assinou muito depois de nós termos chegado a um princípio de acordo com o Leixões.”

Já havia conversas com vista à transferência de Júnior Sena para o emblema de Matosinhos na altura dos acontecimentos em Famalicão, reconheceu Helder Monteiro: “O presidente da Académica sabia disso”. O emblema de Coimbra, num longo comunicado emitido a 3 de Maio sobre o episódio de Famalicão, admitia esse cenário nas entrelinhas. “Insistimos em acreditar que o atleta Júnior Sena ainda não se comprometeu com nenhum clube para a próxima época desportiva, ficando contudo atentos quanto ao seu futuro, seja ele, ou não, à beira do Mar”, podia ler-se, numa referência evidente ao estádio onde o Leixões disputa as suas partidas.

Contactada pelo PÚBLICO, a Académica reiterou o seu posicionamento com o comunicado já divulgado.

Lesionado ou sem queixas?

Nos meses antes da visita da Académica a Famalicão, Júnior Sena estaria, segundo o seu representante, a jogar “em esforço”. “Foi pedido um tratamento de viscossuplementação (regeneração da cartilagem articular) para ele aguentar esse esforço”, apontou Helder Monteiro.

Pelo contrário, o emblema de Coimbra assinalava que em Março o jogador rejeitou esse tratamento numa clínica indicada pelo clube. “Em nenhum momento, o atleta em causa apresentou qualquer tipo de queixa ao treinador, ou a qualquer elemento da equipa técnica ou médica”, podia ler-se no comunicado. “Em pleno balneário do Estádio Municipal de Famalicão, já após o nosso treinador ter divulgado aos jogadores a equipa titular em que constava Júnior Sena, este pediu a palavra e comunicou, perante todo o grupo, que não se sentia em condições de jogar. Faltava então menos de uma hora para a partida se iniciar”, acrescentava a Académica.

No mesmo texto, os conimbricenses referiam-se a uma reviravolta ocorrida no processo de renovação contratual de Júnior Sena, “com um aumento significativo de salário, proposta esta que já constava numa cláusula do contrato em vigor”. “A proposta foi então recusada pelo agente”, garantiram.

Ao PÚBLICO, Helder Monteiro confirmou que houve uma proposta da Académica, à qual respondeu com uma contraproposta. Acabou por não haver entendimento porque, de acordo com o empresário, “os números eram muito abaixo do pretendido”. De resto, concluiu o representante de Júnior Sena, o clube de Coimbra ainda terá valores por saldar: “Devem salários ao jogador e à nossa empresa devem a comissão.”