Este engarrafamento no Evereste é mesmo real – e foi letal

Terça-feira foi um dos dias mais movimentados de sempre no topo da montanha mais alta do mundo. Duas pessoas morreram.

,Summit
Foto
A imagem de cerca de 300 montanhistas à espera de subirem ou de descerem do topo do Evereste atraiu atenções mundiais Nirmal Purja/Facebook

Escalar a montanha mais alta do mundo, o Monte Evereste (8848 metros), tem um preço. Desde a primeira conquista de Edmund Hillary e Tenzing Norgay, mais de 9000 pessoas já subiram ao cume, mas nem todos saem de lá vivos. E a terceira semana de Maio faz parte da época alta, com condições meteorológicas propícias – o que levou na quarta-feira mais de duas centenas de pessoas a tentar chegar ao topo. Duas delas morreram.

Um norte-americano, Donald Cash, de 55 anos, e uma indiana, Anjali Kulkarni, também com 55 anos, sucumbiram depois de terem conseguido escalar até ao ponto mais elevado da superfície terrestre. Elevava-se assim para quatro o número de mortos nesta época de escalada, depois de um outro indiano ter perdido a vida e da morte de um montanhista irlandês, que continua desaparecido depois de ter caído quando se aproximava do cume. O balanço tornou-se ainda mais mortal nesta quinta-feira: segundo as agências de notícias, três alpinistas (dois indianos e um austríaco) perderam a vida, elevando para sete o número de mortes nesta época.

Com a meteorologia de feição, centenas de pessoas querem conquistar o Evereste. Na quarta-feira, formou-se uma enorme fila com cerca de 300 pessoas que tiveram de aguardar horas para subir ou descer. O engarrafamento foi fotografado por Nirmal Purja, um montanhista que quer conquistar este ano todos os 14 picos acima dos 8000 metros de altitude na região dos Himalaias, numa só temporada (que dura sete meses). 

PÚBLICO -
Foto
Nirmal Purja tenta mostrar que é possível subir a 14 topos acima dos 8000 metros na região dos Himalaias numa só época de sete meses Project Possible/Facebook

Nirmal tem documentado esta “viagem" pelas alturas e a fotografia de quarta-feira, que partilhou em diferentes redes sociais, atraiu atenções em todo o mundo. Alguns questionaram se a fotografia é verdadeira ou se foi manipulada. Outros simplesmente expressaram admiração ou espanto pelo cenário em que se vê uma densa linha de montanhistas.

“No dia 22 de Maio cheguei ao topo do Evereste às 5h30 e ao topo do Lhoste (8516 metros) às 15h45, apesar do muito tráfego (cerca de 320 pessoas)”, escreveu Nirmal, na legenda das duas fotografias que publicou na madrugada de quinta-feira. Lhotse é a quarta maior montanha daquele maciço e a mais próxima do cume do Evereste.

A acumulação de montanhistas em paisagens deste género não é uma novidade. E tem vindo a agravar-se, aliás. O número de pessoas que tenta chegar ao topo do mundo é cada vez maior. E o número de pessoas que o consegue também: em 2018, foram 802 montanhistas a atingir o cume do Evereste, um recorde para o qual contribuíram todas as rotas possíveis até ao ponto mais alto do montanha. Espera-se que esse recorde seja superado em 2019, apesar de o governo chinês ter aplicado novas regras que limitam o número de autorizações para estrangeiros. Há duas rotas mais procuradas (pelo Sul e por Nordeste), mas 2019 conta com outra alternativa, a norte.

Mas a fotografia de Nirmal será talvez a mais icónica dos últimos anos, pelo menos desde aquela que foi tirada e divulgada em 2012 pelo alemão Ralf Dujmovits. “A minha esperança [quando fiz essa foto] era a de que o número de montanhistas no Evereste pudesse descer. Mas temo que com esta foto ainda popularizei mais aquela montanha”, diria o alemão, meses depois, numa entrevista.

PÚBLICO -
Foto
Uma foto icónica de 2012 Ralf Dujmovits

Um dos melhores períodos para tentar subir é entre Abril e Maio. E a 19 de Abril de 2019, outra fotografia publicada no Twitter mostrava quão popular está aquele destino, com dezenas de montanhistas em fila na área de Khumbu, no lado nepalês do Evereste.

O facto de haver poucos dias num ano em que é possível subir ao topo acarreta este tipo de consequências. E para alguns dos corajosos, a história acaba mal exactamente por causa disso. Don Cash e Anjali Kulkarmi morreram depois de conquistar o topo, quando tentavam descer. O problema é que tiveram de esperar muito tempo para descer. E a permanência em zonas tão elevadas acarreta riscos, como a doença da altura (ou mal de montanha), devido à pouca disponibilidade de oxigénio, ou como a ulceração por causa do frio.

PÚBLICO -
Há poucos dias com meteorologia favorável para tentar a subida ao cume REUTERS/File Photo NARCH/NARCH30

Segundo algumas notícias em diferentes sites de montanhismo e relatos reproduzidos pela agência AFP, Don Cash terá esperado duas horas para descer, tendo perdido consciência num momento em que tirava fotografias. E Anjali Kulkarmi também teve de lutar com atrasos significativos. “Ela teve de esperar muito tempo para chegar ao topo e para descer”, contou um dos sherpas que a ajudou nesta expedição. “Já não conseguia descer por ela e morreu quando guias sherpa a traziam para baixo.”

O Tibete emitiu 381 autorizações (que custam 11 mil dólares – 9800 euros) para esta Primavera. A esmagadora maioria dos montanhistas é acompanhado por um guia sherpa, o que significa que 750 pessoas vão tentar vencer a montanha mais elevada do mundo num curto espaço de tempo, através da mesma rota. Além disso, foi autorizada a ascensão de mais 140 pessoas pelo flanco norte do Tibete.

Na presente temporada, morreram 14 pessoas nos picos acima dos 8000 metros dos Himalaias. Mas também há notícias de um recorde: um sherpa do Nepal, Kami Rita, de 49 anos, chegou às 24 subidas do Evereste, duas das quais numa só semana.