Opinião

Os fantasmas do comendador

A repulsa que Berardo hoje suscita reflecte um sentimento e uma rejeição de “classe” ainda muito enraízados em Portugal.

Escrevi na crónica anterior que Joe Berardo se revelou “o representante mais histriónico do capitalismo português: a sua dislexia serve-lhe às mil maravilhas para fazer a caricatura de um sistema que ri à custa dos outros ao mesmo tempo que se ri de si mesmo”. Uma semana depois, essa observação que me parecia pertinente, foi completamente ultrapassada pelos acontecimentos, com a transformação do caso Berardo num psicodrama nacional e no retrato mais grotesco do país que somos em vários domínios. Com efeito, há muito tempo que não me recordo de ver uma tal concentração de atenções e comentários numa mesma personagem, ofuscando totalmente a já irrelevante campanha para as eleições europeias (como se Berardo fosse o candidato fantasmagórico dessas eleições).

O caso ganhou um relevo inusitado com a proposta de retirar o título de comendador a Joe Berardo depois do seu comportamento considerado indecoroso numa comissão de inquérito parlamentar. Ora, sendo Berardo o “comendador” português que – à falta de um título académico ou nobiliárquico – mais exibe esse título como parte da sua identidade, tal despromoção significaria reduzi-lo à condição comum de onde proveio. Mais concretamente: num país onde a desigualdade de classes só é ultrapassada pela conquista dos privilégios que o dinheiro concede, isso significaria recordar a Berardo as suas muito humildes origens madeirenses a que ele tentou escapar com a corrida aos diamantes na África do Sul e, depois, com os seus negócios em Portugal.

Não por acaso, num texto que lhe é dedicado no Facebook e que, supostamente, se tornou “viral”, o autor – um advogado de nome Varela de Matos – identifica assim o jovem emigrante Berardo: “Levavas as calças rotas no cu”. Berardo sem o título de comendador seria pois, simbolicamente, aquele que levava “as calças rotas no cu”. Ou seja: a repulsa que Berardo hoje suscita – superando a que visa tantos nascidos em berços de ouro e acusados de idênticas ou ainda piores tropelias financeiras – reflecte um sentimento e uma rejeição de “classe” ainda muito enraizados, pelos vistos, em Portugal.

Aliás, o altivo desprezo que alguns votam à colecção de arte de Berardo não é estranho a esse sentimento. Porque uma coisa é condenar os ardis e estratagemas a que Berardo recorreu – com a cumplicidade e a cobertura de banqueiros, advogados e até políticos – para se tornar inimputável ou fugir a pagar dívidas e empréstimos. Outra coisa é desvalorizar até à negação total o património artístico que ele, apesar de tudo, conseguiu reunir (já agora, se Berardo tem usado e abusado da qualidade de “hóspede” do Estado no CCB, a colecção de arte contemporânea ali exposta conta-se entre as mais valorizadas a nível europeu).

A excentricidade bacoca de Berardo, sublinhada pela sua dislexia, tornou-o quase um extraterrestre na sociedade portuguesa. De facto, ele correu sempre atrás da respeitabilidade e da notabilidade de um grande senhor dos negócios mas sem nunca conseguir escapar ao tal estigma das “calças rotas no cu” – e que o levou a atitudes em conflito com os bons costumes, as normas éticas ou as meras relações civilizadas (a propósito de uma entrevista que em tempos me propus realizar com ele, Berardo exigiu lê-la antes da publicação, o que mostra a ideia que faz do jornalismo…).

Por culpa própria, Berardo tornou-se uma espécie de bode-expiatório da podridão estrutural em que assenta grande parte do sistema bancário e do mundo dos negócios português (com a bênção frequente da classe política). Mas não será por retirar-lhe a identidade – aliás pacóvia – de comendador ou torná-lo uma espécie de “inimigo público nº.1” que conseguiremos exorcizar os fantasmas da corrupção e da ineficácia judicial que perseguem este Portugal de 2019.

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