Tony O'Brien/Reuters
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Não, não e não!

Sim, voltarei para Portugal, e voltarei à procura de trabalho quando quem deixei para trás tiver todas estas exigências cumpridas. Porque quando Portugal tratar bem os seus, tratará bem dos outros, os que procuram regressar.

Tive de confirmar a data da notícia: 11 de Maio de 2019. Não, é mesmo verdade, e não, não é uma notícia do Inimigo Público, e sim, ainda andam nisto. 

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, incentivou o regresso dos emigrantes num encontro com a comunidade portuguesa em Newark. “Portugal precisa de todos”, reafirmou. Sendo que a 9 de Maio o primeiro-ministro repetiu que Portugal está de braços abertos para todos quantos queiram regressar.

Exmo. secretário de Estado, com todo o devido respeito pela persistência de quem ainda não percebeu a mensagem, não, Sr. secretário de Estado, não, não e não!

Como professor, em Portugal sou apenas um entre milhares de professores no desemprego. Se voltar, não só não terei emprego como, na eventualidade remota de o ter, vou calcorrear o país entre contratos anuais até que, daqui por 20 anos e já na ternura dos 60, seja colocado em quadro de zona. Ou seja, continuarei a calcorrear metade do país, mas agora com acesso à carreira, mesmo a tempo de me reformar.

Sr. secretário de Estado, o salário mínimo de um professor em Inglaterra, onde me encontro há 11 anos por não ter o tal emprego, é de 2000 libras por mês com descontos. Um professor no topo de carreira em Portugal não ganha isto. Como é óbvio, nunca voltarei para Portugal por apenas 2000 libras por mês. 

E, sim, sou uma mais-valia para o meu país; caso contrário, não teria passado de professor a director de uma escola em apenas dois anos em terras de sua majestade britânica. Sem cunhas, sem favores, num país nem por isso amigo de quem vem à procura de trabalho. Se consegui fazer isto cá fora, consigo fazer muito mais em Portugal, por Portugal, para os portugueses, a começar pelos alunos.

A verdade, Sr. secretário de Estado, é que não quero voltar para Portugal. Não enquanto existirem dois milhões de portugueses no limiar da pobreza, não enquanto um milhão de portugueses viverem com o salário mínimo e na precariedade, não enquanto o salário mínimo não for de pelo menos mil euros, não enquanto, para ter um trabalho que seja, numa empresa ou na administração pública, for preciso conhecer alguém por especial favor, não enquanto não houver cultura de mérito num dos países mais desiguais da OCDE. 

Sim, voltarei para Portugal, e voltarei à procura de trabalho quando quem deixei para trás tiver todas estas exigências cumpridas. Porque quando Portugal tratar bem os seus, tratará bem dos outros, os que procuram regressar. E isto, sim, são garantias. É uma questão de vontade política, Sr. secretário de Estado, e uma das razões pela qual o seu Governo foi eleito. E outros tantos Governos antes do seu.

E para regressarmos não nos chegam reduções fiscais. E se insiste em repetir esta mensagem enquanto atira areia para os olhos de quem o vê ao vivo e na televisão, eu insisto em tirar essa areia dos olhos, repetindo até ao infinito a minha resposta.

Por tudo isto, peço-lhe para poupar as energias: mesmo não querendo estar longe de casa, a vida cá fora é inevitavelmente melhor e não há nem maneira nem razão para voltarmos. Apesar das saudades. Apesar da distância. Apesar da vontade.

Ao invés, dedique-se a quem ficou, e fica, por terras lusas. Dê-lhes condições de trabalho, condições de vida, o devido reconhecimento e um futuro. Se assim fizer, terá o meu eterno agradecimento e um abraço pessoal no dia em que regressar a Portugal.