Opinião

A utopia e a ciência

Estes dois homens, que nunca se cruzaram na vida real e que trabalham em áreas diferentes, têm também algo em comum: demonstram-nos que o conhecimento científico pode e deve ser simultaneamente rigoroso, libertador, rebelde, e por vezes quase utópico.

Dois cientistas, duas utopias. Miguel Nicolelis é um médico e cientista brasileiro, atualmente com 58 anos. Alfonso Vázquez é um químico e cientista espanhol, atualmente com 79 anos.

Miguel Nicolelis (de seu nome completo, Miguel Angelo Laporta Nicolelis) nasceu em Mogi das Cruzes, um município brasileiro do estado de São Paulo. Alfonso Vázquez (de seu nome completo, Alfonso José Vázquez-Vaamonde) nasceu em Viveiro, um município espanhol na província de Lugo, na Galiza. Mas estes dois homens, que nunca se cruzaram na vida real e que trabalham em áreas diferentes, têm também algo em comum. Senão, vejamos:

Miguel Nicolelis e a sua equipa foram responsáveis pela descoberta de um sistema que possibilita a criação de membros robóticos controlados por meio de sinais cerebrais. Em meados de 2013, Nicolelis concedeu uma entrevista ao portal brasileiro de notícias UOL na qual detalhou as perspetivas do projeto Walk Again: “...no dia da abertura da Copa do Mundo vamos mostrar ao mundo que o Brasil também é um país da ciência e da tecnologia. Trabalhamos para que tudo esteja pronto e para que uma pessoa com deficiência possa se levantar, caminhar até o centro do campo e dar o chuto inicial do torneio”. E no dia 12 de junho de 2014, na cerimónia de abertura da Copa do Mundo realizada no Brasil, Nicolelis e a sua equipa realizaram a demonstração pública do exoesqueleto controlado pelo cérebro de um paciente paraplégico, colocando a ciência brasileira em evidência mundial. No entanto, houve repercussões diversas sobre o dito chuto ou pontapé na bola, com alguns definindo-o como ‘fracasso’. Se bem que Nicolelis tenha expresso a opinião de que “nos dias de hoje, a humanidade curiosamente é dominada por três esquizofrénicos (Abraão, Jesus e Maomé) que ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam que alguém estava falando com eles”, e que “Deus não acredita nele e ele muito menos em Deus”, tal não o impediu de, em janeiro de 2011, ter sido designado pelo papa Bento XVI membro ordinário da Pontifícia Academia de Ciências, embora na atual lista de membros dessa academia não encontremos o seu nome. Miguel Nicolelis dirige, desde 1994, o centro de neurociência da Duke University, na cidade de Durham, no estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos da América, e muito ainda se pode esperar do seu entusiasmo pelo estudo das interfaces cérebro-máquina, métodos para tratar a doença de Parkinson, computação neural, etc.

Alfonso Vázquez está já reformado, mas como cientista dedicou toda a sua vida a temas de metalurgia. Começou como professor auxiliar na Universidade Complutense de Madrid em 1964. Em 1967 passou para a carreira de investigação integrando os quadros do Centro Nacional de Investigações Metalúrgicas (CENIM), no qual chegou ao cargo máximo de diretor. Entusiasta pelo associativismo, foi presidente da Associação do Pessoal Investigador do CSIC (Conselho Superior de Investigação Científica, de Espanha); foi fundador, secretário e posteriormente presidente da SEMAT, cuja proposta de criação foi realizada em Oviedo em 1993, mas posteriormente denominada SOCIEMAT, Sociedade Espanhola de Materiais. O que ninguém estava à espera é que, apesar de toda uma vida intensamente vivada no meio científico, Alfonso Vázquez decidisse em 2014 aceitar ser cabeça de lista do partido Alternativa Republicana nas eleições para o Parlamento Europeu. O Alternativa Republicana (ALTER) assume-se como um partido político republicano-radical de esquerda, que busca a instauração pacífica de uma III República em Espanha, e que defende o federalismo, o laicismo, o ecologismo e o iberismo. Ora, ser republicano em Espanha é mais ou menos como ser monárquico em Portugal. Em Espanha, todos os grandes partidos aceitam a atual constituição, a qual estabelece no artigo 1 que a forma política do Estado espanhol é a monarquia parlamentar. Claro que os resultados eleitorais obtidos pela Alternativa Republicana foram também considerados um grande ‘fracasso’.

Atendendo à dimensão das tarefas, não faz qualquer sentido rotular de ‘fracasso’ os exemplos destes dois homens, que assumiram plenamente os riscos das suas propostas. Afinal, quer um quer outro demonstram-nos que o conhecimento científico pode e deve ser simultaneamente rigoroso, libertador, rebelde, e por vezes quase utópico. Tanto para Miguel Nicolelis como para Alfonso Vázquez, a ciência é assumida como um agente de transformação. Miguel afirmou mesmo que “temos de incentivar as crianças a aprender divertindo-se, a construir uma nova democracia e a remover o entulho de inferioridade que acumulamos” e também que “a aula deveria ser diferente, livre desse modelo da autoridade, de o professor ‘vomitar’ a verdade que deverá ser recitada pelo aluno”. Quanto a Alfonso, continua “a favor de uma república democrática onde possas eleger o Chefe do Estado”, e ao mesmo tempo diz que “é importante a cultura, mas mais importante é a ética”. Em resumo, polémicas à parte, os exemplos são tudo.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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