Cathédrale Notre-Dame de Paris
Reuters/BENOIT TESSIER

Notre-Dame: o que se conseguiu salvar e as relíquias que se perderam nas chamas

Os danos ascendem aos milhões de euros, mas o alívio pelas relíquias que foram salvas é notório. O PÚBLICO fez uma selecção de algumas das peças que escaparam ao fogo, daquelas que se perderam e de outras cujo futuro é ainda incerto: aparentam estar intactas, mas o calor das chamas e a força da água podem ter efeitos a longo prazo.

Em poucas horas, arderam mais de 850 anos de História. O incêndio na catedral de Notre-Dame, no coração da capital francesa, deflagrou na segunda-feira e devastou o monumento, símbolo gótico do país e de uma Paris medieval, durante mais de 15 horas: ainda que se tenha conseguido salvar a estrutura e as duas torres da catedral, o pináculo e a maior parte do telhado esvaíram-se nas chamas. No meio desta perda e dos danos que ainda há por contabilizar, há também casos felizes: a grande relíquia da catedral, a coroa de espinhos, foi salva antes da chegada das chamas, assim como 16 estátuas que ornamentavam o pináculo, que tinham sido retiradas pouco dias antes, para serem restauradas.

O que se perdeu

“A floresta”

Chamavam “a floresta” à armação em madeira que sustentava o telhado da catedral, por ter sido construída com inúmeras vigas de carvalho. A estrutura estendia-se ao longo de 110 metros de comprimento, 13 metros de largura e dez metros de altura – além das cinzas, nada sobrou da estrutura. Segundo o Le Monde, a armação ficou concluída no início do século XIII (ainda que alguns elementos datassem do século VIII) e era uma das mais antigas de Paris.

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A estrutura do telhado, em madeira de carvalho Fotografia retirada do site oficial da catedral de Notre-Dame

“A flecha”

O pináculo da catedral de Notre-Dame era conhecido entre os parisienses como “la flèche” (a flecha, em português). Como tinha 93 metros de altura (bem visíveis ao longe, nos céus de Paris), os bombeiros tiveram dificuldades em fazer a água chegar à estrutura, que acabaria por desabar em chamas, pouco tempo depois de o incêndio deflagrar. O pináculo agora destruído foi um dos muitos elementos reconstituídos nas grandes obras de restauro empreendidas no século XIX sob a direcção do arquitecto Viollet-le-Duc. A revista L’Obs esclarece que a primeira estrutura tinha sido construída por volta de 1250 e que foi desmantelada entre 1786 e 1792 – regressou em 1860, com a forma que conhecíamos hoje.

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O pináculo em chamas

Juntamente com a estrutura perdeu-se também o galo que estava no topo do pináculo e que tinha consigo três relíquias: uma parte da coroa de espinhos, uma relíquia de São Dinis e uma relíquia da Santa Genoveva.

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PHILIPPE WOJAZER/Reuters

O telhado e parte da abóbada

Foram precisas poucas horas para que grande parte do telhado de chumbo da catedral ardesse: segundo o porta-voz dos bombeiros de Paris, Gabriel Plus, foram mais de 1000 metros quadrados da cobertura que se dissiparam com o fumo. No site da catedral, é referido que o telhado de chumbo pesava mais de 210 toneladas. Segundo afirmaram na segunda-feira os bombeiros de Paris, a estrutura foi salva.

Apesar dos danos exteriores, o arquitecto Pedro Caiado esclarece ao PÚBLICO que, do que se pode ver nas fotografias, “a maior parte das abóbadas da catedral aparenta estar intacta, tendo ruído apenas dois panos (secções de abóbadas) que uniam o terceiro e o quarto tramo da catedral”. Além disso, as imagens entretanto divulgadas dão a entender que “também terá ruído a abóbada do cruzeiro e um segmento no braço-norte do transepto”. A maior parte do que ardeu estava, portanto, no exterior da catedral: “Apenas o telhado, ou seja, a ‘casca’ exterior da cobertura, terá ardido, tendo sido preservada a estrutura interior quase na totalidade”, conclui Pedro Caiado.

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O pináculo e o telhado da Notre-Dame antes de ser consumido pelo fogo BENOIT TESSIER/REUTERS

O que se salvou

A coroa de espinhos e a túnica de S. Luís

As chamas ainda lavravam na Notre-Dame quando o reitor da catedral, Patrick Jacquin, anunciou que a Coroa de Espinhos de Jesus Cristo, considerada a mais valiosa peça da catedral, e a Túnica de S. Luís tinham sido recuperadas do interior da catedral antes de ser consumida pelas chamas e levadas para a Câmara de Paris. Um bocado da alegada cruz transportada por Cristo e um prego também foram resgatados, escreve o Le Monde. Segundo a tradição cristã, a coroa de espinhos tinha o que restava da que foi posta na cabeça de Jesus Cristo antes da crucificação e é composta por “um círculo de junco retido por fios de ouro, num diâmetro de 21 centímetros onde estão os espinhos”, lê-se no site da catedral. Já a túnica, que data do século XIII, é feita em linho e acredita-se que tenha pertencido ao rei Luís IX, o único rei francês que se tornou santo (foi canonizado em 1297). Ambas as relíquias passaram a fazer parte da Notre-Dame em 1806.

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A coroa de espinhos

Além das relíquias mais valiosas, houve outras peças que foram tiradas do interior da catedral e postas a salvo na Câmara de Paris: candelabros, cadeiras, suportes de velas, sacrários, cibórios, túnicas e opas. Nas fotografias da Reuters, é possível ver os objectos sagrados atulhados numa sala, alguns protegidos com plásticos.

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BENOIT TESSIER/REUTERS

As 16 estátuas que circundavam o pináculo

Quase como uma coincidência do destino, as 16 estátuas em cobre com pátina verde que ornamentavam “a flecha” foram retiradas apenas quatro dias antes do incêndio, a 11 de Abril, para serem restauradas – e salvaram-se das chamas que fizeram desmoronar o pináculo.

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O momento em que as estátuas foram retiradas com a ajuda de uma grua

As estátuas representam os 12 apóstolos e quatro evangelistas de renome. Patrick Palem, que faz parte da entidade responsável pelo restauro das obras, disse à AFP que as 12 estátuas “já não são agora a prioridade”: essa prioridade é a reconstrução da Notre-Dame, “que poderá levar entre 15 e 20 anos”.

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REUTERS/Philippe Wojazer

Incerto

As rosáceas

A catedral tem três rosáceas, que datam do século XIII. As rosáceas de norte e sul têm 13 metros de diâmetro e têm representadas nos seus motivos santos, reis, anjos, profetas e cenas da vida divina; a rosácea de oeste é mais pequena. Os relatos dão conta de que a rosácea-norte está a salvo, mas o destino das outras duas é ainda incerto: ainda que aparentem estar inteiras, partes estão enegrecidas pelo fumo (e não se sabe se poderão ser restauradas) e podem ter sido afectadas pelo calor das chamas. Outros vitrais foram danificados pelas chamas, mas eram mais recentes: “São vitrais do século XIX, bem menos importantes, mas não [foram afectados] os do século XIII. Parece um milagre, estamos aliviados”, disse o porta-voz da catedral à BFMTV.

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A rosácea norte da catedral Charles Platiau/Reuters

Os órgãos

Ainda que o porta-voz da catedral, André Finot, tivesse começado por dizer ao início da manhã de terça-feira que o grande órgão da Notre-Dame poderia “ter sofrido alguns danos por causa da forte pressão da água”, mais tarde soube-se que o órgão não tinha, afinal, sido atingido pela água.

“Rezei toda a noite”, diz ao Le Figaro o organista Vincent Dubois: o grande órgão “está a salvo”. “Durante toda a noite esperei que as pedras angulares não caíssem em cima do instrumento”, diz; a preocupação foi partilhada com outro organista, Olivier Latry: “É um verdadeiro milagre”, acredita. Dubois explica que o órgão foi provavelmente salvo por essas mesmas estruturas de pedra acima do instrumento. Ainda assim, há incertezas: “Não sabemos se a fuligem e a poeira penetraram no interior da tubagem”.

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O grande órgão Fotografia retirada do site oficial da Catedral de Notre-Dame

“O grande órgão não foi afectado, mas está muito empoeirado. Não apanhou uma gota de água”, diz o gestor do património interior da Notre-Dame de Paris, Laurent Prades, ao L’Express, acrescentando que “nada ardeu, nada fundiu”. A Notre-Dame tem três órgãos, e este grande órgão é o mais importante: tem cinco teclados e mais de oito mil tubos (alguns dos quais datam da era medieval). Foi construído em 1403 e tem sido ampliado desde então.

o órgão mais pequeno, o órgão de coro que era mais utilizado no dia-a-dia, foi apanhado pela água que tentava apagar as chamas da catedral: “a estrutura está intacta, mas apanhou água”, conta Vincent Dubois. Este órgão tem duas mil peças e data do século XIX.