Antoine Dautry/Unsplash
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Megafone

As mulheres também são boas a Matemática

Sim, faz sentido dizer todos os dias que as mulheres são boas em muitas coisas, independentemente do género, porque a história criou essa necessidade. Faz sentido dizermos e garantirmos às mulheres que seguem carreiras científicas que também elas vão ver o seu trabalho reconhecido.

Karen Uhlenbeck, mulher, 76 anos, venceu o Prémio Abel de 2019 atribuído pela Academia das Ciências e Letras da Noruega. Este prémio é considerado na comunidade científica o “Prémio Nobel da Matemática” e aumentou a conta bancária de Karen em 600 mil euros.

Mas mais do que a conta bancária e um galardão que não diz nada à maioria dos leigos — como eu —, Karen vê 40 anos de trabalho finalmente reconhecidos no seio da comunidade científica matemática, sendo a primeira mulher a vencer este prémio, criado para celebrar o nascimento do matemático norueguês Niels Henrik Abel.

Karen recebeu-o pelas conquistas pioneiras nas equações diferenciais parciais geométricas, teoria de gauge (ou teorias de calibre) e sistemas integráveis e pelo impacto fundamental do seu trabalho sobre análise, geometria e física matemática.

Viajando de volta ao título, sei que muitos dirão — e dizem — que já não existe paciência para estes textos feministas a enaltecer a condição da mulher na sociedade. Eu entendo isso, até porque sei como é fácil verbalizar uma série de coisas quando a nossa vida não é limitada por uma condição que não podemos, nem queremos, alterar, tal como o género. Mas a vida de muitas mulheres foi e é condicionada pelo seu género.

E, naturalmente, quando surge a vitória de uma Karen é, de certa forma, uma vitória de todas nós porque há 100 anos uma mulher nem sequer poderia ser examinada numa universidade.

Em momento algum no ensino secundário me passou pela cabeça ser melhor ou pior aluna a Matemática do que o meu colega do lado devido à minha condição/género. E hoje, com uns bons anos em cima, já começo também a achar que aquela velha desculpa do “elas são boas alunas porque se aplicam mais” não passa disso mesmo, uma desculpa dos que preferem seguir o caminho da mediocridade. O sucesso implica trabalho. É, aliás, através de Einstein que faço uma breve viagem na história, que nos mostra como as mulheres sempre foram brilhantes a Matemática, tal como qualquer ser humano do género masculino.

Emmy Noether, matemática, foi para a universidade mesmo sem ter direito a ser examinada e os seus avanços em álgebra foram importantíssimos para o desenvolvimento da teoria da Relatividade de Einstein.

Recuando mais ainda, chegamos ao século XVIII: no decorrer da Revolução Francesa, Sophie Germain converteu-se em matemática autodidacta atacando os livros proibidos da biblioteca do pai. Criou, de forma ardilosa, o pseudónimo masculino Montsieu LeBlanc — et voilà, surge a teoria dos números primos, cujo nome demorou séculos até passar ao apelido da autora, Germain.

Voltando a Karen Uhlenbeck: há 50 anos, quando começou a procurar emprego após trabalhos temporários como professora no Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT) e na Universidade de Berkeley, disseram-lhe que ninguém contratava mulheres porque o trabalho delas era estar em casa a ter bebés.

Sim, faz sentido dizer todos os dias que as mulheres são boas em muitas coisas, independentemente do género, porque a história criou essa necessidade. Faz sentido dizermos e garantirmos às mulheres que seguem carreiras científicas que também elas vão ver o seu trabalho reconhecido — não que o façam à espera disso, mas porque merecem esse reconhecimento na mesma medida que qualquer ser humano.

Termino com a receita para o êxito de Uhlenbeck, receita essa que está impressa na sua personalidade e numa das coisas que mais valorizo no ser humano: a procura constante e incessante por novos conhecimentos e a aceitação das nossas imperfeições. “Aborreço-me com as coisas que já entendo. Toda a gente sabe que se uma pessoa é bonita, inteligente, divertida e bem vestida terá êxito. Mas também é possível triunfar com todas as tuas imperfeições. Eu necessitei de muito tempo para me dar conta disso”, afirmou.

Eu também, Karen, mas graças a pessoas como tu, a pessoas que tenho na minha vida e aos obstáculos da vida tenho aprendido que as minhas imperfeições são mesmo o meu maior tesouro.