Morreu Dina, uma pioneira da canção pop

Foi das primeiras mulheres a compor canções pop em Portugal. Foi autora de vários sucessos, incluindo Há sempre música entre nós e Amor d’água fresca. Tinha 62 anos.

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Ondina Veloso, conhecida no meio musical como Dina, morreu na noite de quinta-feira no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, confirmou ao PÚBLICO fonte daquele hospital, depois de a notícia ter sido avançada pela RTP esta sexta-feira​. Dina, que sofria de fibrose pulmonar, tinha 62 anos.

Dina, que começa a compor na década de 1970, ganhou visibilidade nacional no Festival da Canção de 1980 com o tema Guardado em mim, em que arrebatou o Prémio Revelação e ficou em oitavo lugar. No ano seguinte, lançou o single Há sempre música entre nós, um dos temas mais conhecidos de uma carreira com mais de 40 anos. Em 1982, voltou ao Festival da Canção para defender duas canções, Em segredo e Gosto do teu gosto, tendo co-escrito a segunda, que ficou em sexto lugar. 

Mas seria apenas na década seguinte, que teria uma participação vitoriosa no Festival da Canção de 1992 com Amor d'água fresca. “Uma criação lindíssima da Rosa Lobato Faria”, a letra da balada que correu o país e que permanece na memória colectiva, classifica ao PÚBLICO Júlio Isidro. A música levaria depois a cantora ao Festival da Eurovisão do mesmo ano. O apresentador da RTP, veterano da divulgação de talentos portugueses e em particular na música, chegou também a escrever músicas para Dina, no âmbito das canções infantis.

Ondina Maria Farias Veloso nasceu a 18 de Junho de 1956 em Carregal do Sal, distrito de Viseu, tendo iniciado a sua actividade como compositora em 1975, no Quinteto Angola. Em 1976, gravou o seu primeiro EP para a editora Alvorada, ainda sobre o nome artístico de Ondina, que inclui temas como Madrugada e A primeira aula.

Os festivais da canção e as telenovelas

Na década de 80, Dina era já uma presença constante na televisão, não só por causa dos festivais da canção, mas também por ter começado a compor para as bandas sonoras das telenovelas portuguesas. Começou em 1982 com Vila Faia e a canção Aqui estou (tema de Joana)igualmente com letra de Rosa Lobato Faria, continuando com as telenovelas Telhados de Vidro, Filha do Mar e Sonhos Traídos.

Devido à doença, Dina despediu-se dos palcos em 2016, em dois concertos no Teatro S. Luiz, em Lisboa, e no Teatro Rivoli, no Porto, com o espectáculo Dinamite, nome do seu primeiro álbum de 1982, que contou com a participação de artistas das novas gerações da música portuguesa, como Ana Bacalhau, B Fachada, Best Youth, D’Alva, Márcia e Samuel Úria. Gonçalo Tocha, o dinamizador dessa homenagem, definiu-a como a primeira cantora-compositora mulher a abraçar a canção pop em Portugal, como escreveu o PÚBLICO na altura.

“Para a minha geração ela sempre existiu. Era uma presença que não sabíamos definir, com a sua aparência um bocado de rapaz e a viola. Ouvimo-la com três ou quatro anos, porque tinha alguns temas muito fortes, muito melódicos, como Há sempre música entre nós [1981] e Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim [1983]. Ela era muito popular”, lembra Gonçalo Tocha. Depois, na adolescência, voltou a ouvi-la nos anos 90, com Amor d'água fresca, mais pop. “Tinha grandes canções, sempre do lado da melodia e da pop.”

Mas Gonçalo Tocha, fascinado com o lado B da história da música popular, redescobriu-a em 2006, através da canção Pássaro doido, a faceta de Dina mais rockeira. Com o seu duo Tochapestana, procurou então Dina para obter a necessária autorização para fazer uma nova versão da música de 1980. “Ouço essa música muito rockeira que é o Pássaro doido e fico ainda mais fascinado com ela. Ela era muito mais do que a nossa geração tinha visto. Isso mostrou-me que as imagens que fazemos dos artistas são sempre tipificadas.”

Um timbre lindíssimo

Ana Bacalhau, que fez parte da homenagem organizada por Tocha, lembra-se de Dina “desde que é gente, de a ver na televisão, à guitarra, com aquele sorriso contagiante e canções que ficavam logo no ouvido”. Ana Bacalhau interpretou, nesse tributo, Gosto do teu gosto, de Dinamite e uma das que a cantora defendeu no Festival da Canção em 1982. “Pude comprovar que o que ela mostrava na televisão era verdade, era uma pessoa acessível, simples, carinhosa e muito talentosa”, comenta, assinalando também o espírito de “comunhão e amizade” entre todos os músicos e Dina. “Ela não se cansava de dizer que estava muito feliz, por tudo aquilo que estava a ser feito com o reportório dela”, prossegue.

Ana Bacalhau fala também da voz da artista, aquilo que continua connosco. “Era limpa, com um timbre lindíssimo, um registo que nos cativa imediatamente, uma dicção impecável, uma emoção na voz, uma sinceridade e honestidade. Acho que é por isso que as canções dela ficaram connosco e vão ficar durante muitos mais anos”, comenta a artista que é a voz de Deolinda e também artista a solo​. 

“A Dina é conhecida pela maioria das pessoas como cantora pop, mas ela também é rock, pop/rock e tem um cheirinho de tradição nalgum reportório”, conta Ana Bacalhau, assinalando a canção que interpretou no tributo. 

Dina estreou-se em televisão nos anos 1970, em Nicolau no País das Maravilhas, o programa que imortalizou as rábulas da dupla Sr. Feliz e Sr. Contente (Herman José e Nicolau Breyner, respectivamente), a interpretar Forma de inocência, o poema de António Gedeão. Já no início da década seguinte participou no programa da Rádio Comercial Febre de Sábado de Manhã, apresentado por Júlio Isidro, que elogia a cantora como “uma maravilhosa compositora, de temas do chamado rock ‘n’ roll mas particularmente de baladas”. Interpretou o tema Pássaro doido, recorda Júlio Isidro, que depois a receberia novamente no Passeio dos Alegres, já na televisão.

Era discreta, “um low profile que não é o que se usa”, diz Júlio Isidro ao PÚBLICO, elogiando a “voz muito bonita, extraordinária e que não foi suficientemente reconhecida” da cantora. Uma das últimas entrevistas de Dina foi em 2017 a Júlio Isidro, em Inesquecível, programa da RTP Memória, onde já doente revelou que “tinha material para fazer um novo disco”, recorda o comunicador. Isidro equipara-a mesmo a grandes intérpretes e compositoras internacionais: “Perdemos uma cantora da linha das Carole King e outras autoras de baladas. Há que voltar a ouvi-la”, apela.

Além de Dinamite (1982), que tinha canções como Deixa Lá ou Dinamite, Dina assinou ainda álbuns como Aqui e Agora (1991), Guardado em Mim (1993) e Sentidos (1997). Compôs também o hino do CDS-PP em 1995, para o partido liderado por Manuel Monteiro, e quando o político saiu para fundar a Nova Democracia em 2004, Dina seguiu-o e escreveu-lhe um novo tema.

Em 1996, no programa Grande Reportagem da SIC, Dina revelou a sua homossexualidade. Passados 20 anos, agora numa entrevista à revista Sábado em 2016, não quis voltar ao tema, explicando que o tinha feito apenas numa altura em que poucas figuras públicas falavam do assunto.

O papel da mulher

Maria Reis, guitarrista/vocalista de Pega Monstro, uma das responsáveis pela editora Cafetra, diz que o que mais a influenciou em Dina, além do “não se levar muito a sério e ter sentido de humor”, foi ela não ser só a intérprete, mas a autora das canções: “O papel da mulher na música pop ou na música que tem um propósito muito directo de ser transmitido para um público maior acaba por ser na maioria das vezes a de intérprete. Isto faz com que não haja representatividade directa do ponto de vista feminino, porque desde a melodia à letra houve a mão de um ou mais homens.”

Ana Bacalhau também sublinha o papel “que não é suficientemente falado” de compositora de Dina. “Hoje já há muitas autoras femininas que se conhecem, mas na altura da Dina eram muito poucas as que se conheciam. Era um mundo muito masculino e ela não cantava só canções dela, mas também compunha. Foi pioneira, abriu um bocadinho a estrada para as autoras no feminino na minha geração, que viram exemplos anteriores e o da Dina foi um deles”, resume.

Foi na editora Ovação que Dina gravou em 1997 o seu último disco de originais, Sentidos. “Esse álbum espelhava bem o melhor potencial da autora, compositora e cantora”, diz, numa nota enviada às redacções, Fernando Matias, director-geral da etiqueta discográfica. “A sua discografia não sendo vasta, é suficiente para nos mostrar a qualidade artística de uma cantora única, talvez a única ‘baladeira’ contemporânea portuguesa. A sua obra, como ela própria dizia muitas vezes, não se resumia aos seus dois super hits (Há sempre musica entre nós e Amor d'água fresca), mas a um punhado de muitas mais canções.”

O velório da cantora e compositora realiza-se a partir das 17h desta sexta-feira na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino, em Lisboa, segundo a agência Lusa. O funeral, reservado a familiares e amigos da cantora, está marcado para as 14h de sábado, no Cemitério dos Olivais. com Joana Amaral Cardoso