Cristina Lavaggi/Unsplash
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Megafone

Bancar o bobo na Caixa

Resolver o assunto pelo telefone não se aconselhava: há limites para o tempo que uma pessoa aguenta estar exposta ao som de pan pipes, servido a título de intervalo lúdico enquanto a chamada era reencaminhada. Era preciso ir lá pessoalmente.

Conta-se que certa vez, por ocasião da visita a uma empresa, alguém terá perguntado ao escritor José Sesinando quantas pessoas trabalhavam ali. E ele respondeu: “Cerca de 50%.” Não sei se a história é verdadeira ou apócrifa, nem isso interessa; mas recordo-me dela, justa ou injustamente, sempre que me perco nos labirintos da burocracia que fazem as agruras de Creta parecer um tranquilo retiro termal. E, como todas as grandes epopeias, esta que relato também nasceu de um gesto nobre, de uma aspiração sublime, de um desígnio homérico: abrir uma conta bancária.

Foi já há uns aninhos. Ao fazer a matrícula na faculdade, tive a insensatez de solicitar à agência a abertura de uma conta especial para estudantes, de modo a beneficiar da isenção de “anuidades” associada a esses cartões. Se exceptuarmos o facto de terem perdido três vezes o processo, obrigando-me a apresentar novamente a documentação outras tantas vezes, a coisa correu sobre rodas. De 15 em 15 dias deslocava-me lá, a indagar do andamento do processo; após 20 minutos (no mínimo) de torturada espera, os funcionários do balcão garantiam-me, pressurosos, que no prazo de uma semana tudo estaria resolvido; ao fim de quatro meses (quatro!), quando as horas de convívio mútuo já haviam suplantado as que habitualmente dedico a amigos próximos, o cartão estava em minha posse.

Mas que o aparente final feliz não iluda ninguém. Nem era o final, nem era feliz: era apenas o início de um longo calvário itinerante pelos balcões da Caixa, que em desabafos domésticos já merecia o cognome “de Pandora”. A “anuidade” de que estaria isento fora entretanto debitada — e meros 20 dias após a abertura da conta. O que fazer? Resolver o assunto pelo telefone não se aconselhava: há limites para o tempo que uma pessoa aguenta estar exposta ao som de pan pipes, servido a título de intervalo lúdico enquanto a chamada era reencaminhada. Era preciso ir lá pessoalmente. Ciente de que a surtida bancária poderia prolongar-se, desmarquei os compromissos para a manhã seguinte e lá me apresentei ao balcão, disposto a esclarecer o equívoco; naquele tom de frieza polida em que os instruíram para lidar com os clientes, a funcionária informou-me que a isenção de “anuidade” apenas se aplicava aos cartões especiais para estudantes. O diálogo que se seguiu parecia desafiar a paciência budista com que aceitara o contratempo:
- Mas o meu cartão é um cartão de estudante.
- Não, senhor José, o seu cartão é um cartão normal.
- Mas eu pedi o de estudante.
- Não, o que o senhor José aqui tem é o normal.
- Mas o lapso foi vosso...
- Sim, eu compreendo. Mas agora já está no sistema, não há nada a fazer.
- Repare, não só estão a debitar-me a “anuidade” por um serviço que não pedi, como me debitam a “anuidade” por um serviço de que só usufruí 20 dias...
- São os procedimentos...
- Mas uma “anuidade” correspondente a um período de usufruto de 20 dias (e de um serviço que não pedi) é uma interpretação um pouco criativa do conceito de “anuidade”, não concorda?
- Percebo, senhor José, mas o processo já está no sistema. Não há nada a fazer.

Moral da história? Não há moral nenhuma: isto é uma historieta, não um libelo. E, em abono da historieta, falta o desenlace. Anos depois, concluí o curso; o cartão para estudantes, nunca cheguei a vê-lo. Quando, já com o canudo na mão, me dirigi à agência para solicitar o fecho da conta, a funcionária perguntou “qual o motivo” para a mudança —  e se “não estava satisfeito com o serviço”.