Também se joga golfe em Campanhã. Não é luxo, é uma arma de inclusão

“Golfe para Todos” é um projecto da Câmara do Porto que promove a inclusão social através de uma modalidade associada ao luxo. Em Campanhã, a zona mais pobre da cidade, a iniciativa quer colmatar “a falta de respostas a pessoas com alguma deficiência”.

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Com uma assiduidade irrepreensível, os convidados “habituais” das quintas-feiras chegam à Quinta da Bonjóia, no Porto, às 11 horas em ponto. Organizados numa fila dois a dois, os sete jovens e a técnica da Associação dos Amigos das Deficiências Intelectuais e Desenvolvimentais (AADID) percorrem os caminhos em pedra, delineados pelos jardins luminosos característicos da quinta até à sala de aquecimento. É dia de “Golfe Para Todos”, o projecto da Câmara do Porto que une uma modalidade associada ao luxo à promoção da inclusão e coesão social – “a prova de que o golfe é mesmo para todos”, dizem. E logo em Campanhã, a freguesia mais pobre da cidade. 

A turma forma duas filas e, de bola na mão, um de cada vez tentam acertar no meio do cesto. Em cada “boa!”, “quase!” e “força, tu consegues!” do professor e da técnica, há uma tentativa bem-sucedida para ninguém ficar mais agitado com a presença de desconhecidos. Esta é uma turma, a única da AADID a participar no projecto, onde existem “níveis diferenciados” de espectro do autismo, uma perturbação que pode dificultar as relações interpessoais e alguns desenvolvimentos motores. Mas não há ali quem se deixe vencer pela condição e, nos últimos dois anos, tem havido evoluções notáveis. “Não conseguia pô-los numa fila. Hoje, apesar de não perceberem bem o que estão a fazer, já se organizam, esperam que o colega jogue, ajudam e respeitam-se”, elogia Pedro Pimenta, o professor de Educação Física do projecto. Com formação em golfe adaptado, realça que o objectivo é “melhorar as capacidades sociais e psicomotoras que as turmas têm pouco desenvolvidas para poderem ter benefícios no dia-a-dia”.

Três dias para três instituições

Terminado o aquecimento, a sala de aula passa a ser um dos amplos jardins da Quinta da Bonjóia. E confirma-se o cenário descrito pelo professor. A organização continua, desta vez de taco na mão. Bola no sítio certo, acertam a pontaria, endireitam os pés e a postura e treinam o balanço. Em cada tacada há bolas a serem perdidas e outras a rodopiarem a berma do pin, o sítio onde é suposto acertar. Mas “não faz mal”. O importante é “aprenderem a ultrapassar as derrotas ou as dificuldades, criarem armas para lidar com as dificuldades que têm na vida” e serem mais autónomos no quotidiano. A verdade é que, seja qual for o término da jogada, sorriem para a assistência.

São três dias da semana dedicados ao golfe, distribuídos em aulas de uma hora por seis turmas de utentes – a AADID com apenas um grupo às quartas-feiras, a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental do Porto (APPACDM) com uma turma também às quartas e outra às quintas-feiras e a Associação de Apoio à Juventude Deficiente (AAJUDE) com um grupo também às quintas e dois às terças-feiras.

“Sabemos que há poucas respostas para as pessoas com deficiência física e mental”, afirma Raquel Castello-Branco, directora do departamento municipal de coesão social. Daí a necessidade de “criar um projecto interessante para as instituições ocuparem os seus utentes”. O Golfe para Todos”​ surgiu em 2012 e será reforçado no âmbito do programa Abordagem Integrada para a Inclusão Activa (AIIA Porto) de modo a chegar a mais públicos e melhorar as condições para a prática, designadamente através da requalificação de uma área da Quinta da Bonjóia. O impacto da iniciativa, diz, é “muito positivo”. “Dizem-nos que melhora realmente a qualidade de vida destes jovens.”

O golfe é, neste caso, também um luxo mas não porque os seus praticantes tenham uma posição socio-económica privilegiada. É que esta modalidade permite que os jovens “melhorem em termos de coordenação motora” e desenvolvam a pontaria e o movimento. Tornam-se mais “aptos e capazes”. Ao mesmo tempo, esclarece Pedro, são “obrigados a criar rotinas, a respeitar-se e a comunicar com outras pessoas”.

Os alunos mais antigos são os “verdadeiros entusiastas”. Alguns até já têm “luvas de profissionais”. “Os pais levam-nos ao mini-golfe da Foz, dão-lhes livros sobre a modalidade e eles ficam tão contentes que trazem para nos mostrar”, conta o professor. Apesar de “o golfe adaptado em Portugal estar muito atrasado em relação a outros países europeus”, é preciso ir mais além. “No âmbito do financiamento do Norte 2020 do projecto AIIA, vamos requalificar uma área da Quinta da Bonjóia para criar um sítio em condições para eles poderem evoluir”, avança ao PÚBLICO Raquel Castello-Branco. O alargamento, previsto para este ano, permitirá ainda que o projecto chegue a mais instituições. Uma tentativa para colmatar a “falta de resposta a pessoas com deficiência”.

Texto editado por Ana Fernandes