Glaciares dos Alpes podem perder quase 50% do seu volume até 2050

Os glaciares da cordilheira dos Alpes vão sofrer uma perda significativa de volume com o aumento do aquecimento global. De acordo com uma investigação na Suíça, estes glaciares podem vir a desaparecer totalmente nos próximos 80 anos.

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Glaciar de Gorner (nos Alpes) no final do Verão de 2017 M. Huss

Os Alpes são conhecidos por apresentarem uma paisagem pintada de branco que atravessa vários países da Europa. Com o aumento do aquecimento global, esta imagem pode estar prestes a mudar. Uma equipa de investigação na Suíça apresentou vários cenários possíveis para o futuro dos glaciares que fazem parte da maior cordilheira da Europa.

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Os Alpes são conhecidos por apresentarem uma paisagem pintada de branco que atravessa vários países da Europa. Com o aumento do aquecimento global, esta imagem pode estar prestes a mudar. Uma equipa de investigação na Suíça apresentou vários cenários possíveis para o futuro dos glaciares que fazem parte da maior cordilheira da Europa.

No cenário mais positivo o volume dos glaciares seria reduzido para cerca de um terço do volume actual, até 2100. Mas, caso as emissões de gases de efeito de estufa continuem a subir, os glaciares podem sofrer um degelo total nos próximos 80 anos. Devido à poluição e à resposta lenta dos glaciares às alterações climáticas, estima-se que metade do seu volume desapareça até 2050.

Os investigadores que publicaram o trabalho na revista científica The Cryosphere utilizaram o ano de 2017 como referência para o “presente” e estimaram as consequências das emissões de gases de efeito de estufa até ao final do século. “Os glaciares vão perder cerca de 50% do seu volume entre 2017 e 2050”, explicou ao PÚBLICO Harry Zekollari, autor principal do estudo e investigador no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ) e na Universidade de Tecnologia de Delft (Holanda). No entanto, a perda de volume pode ser ainda mais significativa se a preocupação com o planeta não se tornar uma prioridade nas próximas décadas.

O modelo matemático computacional desenvolvido pelos cientistas incorpora o aumento da temperatura dos últimos 30 anos. Foi a partir deste sistema que foi possível determinar os cenários para as próximas décadas. Se as emissões de gases de efeito de estufa não diminuírem, a temperatura pode aumentar entre 4 e 5 graus Celsius. “No caso mais pessimista os Alpes vão ficar quase sem gelo até 2100. Apenas com algumas camadas de gelo nas zonas mais altas o que significa uma perda de 95% ou mais do volume de gelo que existe actualmente”, afirmou Matthias Huss, outro dos autores do estudo e investigador no ETHZ, num comunicado sobre o trabalho.

“No cenário mais positivo continuaria a existir aquecimento global, mas seria um aquecimento menos significativo. Seria um aumento de temperatura entre 1 e 2 graus Celsius”, nota Harry Zekollari. No entanto, as emissões de gases de efeito de estufa actualmente continuam altas e a caminhar para um cenário preocupante. “Estamos mais próximos do cenário mais negativo porque ainda estamos a emitir muitos gases [de efeito de estufa] e não há alterações significativas a decorrer para alterar este rumo”, alerta o investigador belga.

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Glaciar Aletsch nos Alpes suíços, em 2015 REUTERS/Denis Balibouse

"Ainda não foi feito o suficiente"

Apesar de sofrerem directamente com as alterações climáticas e com o aumento do aquecimento global, a resposta dos glaciares a estas mudanças pode demorar centenas de anos. “O seu volume [glaciar], especialmente em baixas altitudes, ainda reflecte o clima mais frio do passado devido à resposta lenta dos glaciares às alterações climáticas”, refere o comunicado sobre a investigação. Desta forma, os gases de efeito de estufa emitidos actualmente só se vão notar nos glaciares nas próximas décadas.

“Mesmo que hoje conseguíssemos parar o aquecimento global os glaciares iriam perder na mesma cerca de metade do seu volume actual nos próximos 30 anos”, esclarece Harry Zekollari. Para além da subida do nível da água do mar, a diminuição do volume dos glaciares tem consequências para a produção de energia hidroeléctrica ou para o turismo, pois, estima-se que a neve dos Alpes conquiste 50 milhões de visitantes todos os anos. Para além disto, “noutras regiões do mundo, como nos Andes (América do Sul) ou nos Himalaias (Ásia), milhares de pessoas recorrem à água dos glaciares [enquanto reservatórios de água doce], especialmente nos meses de Verão”, lembra o investigador.

De acordo com os cientistas, já não é possível impedir o degelo de quase metade dos glaciares dos Alpes. Agora, as futuras emissões de gases de efeito de estufa vão ditar o futuro dos gigantes gelados que vão continuar de pé. “No futuro esperamos que as temperaturas estabilizem. Infelizmente, até agora ainda não foi feito o suficiente”, confessa Harry Zekollari. Os gases de efeito de estufa são produzidos desde a queima de combustíveis fósseis à produção e transporte de roupa

Este modelo matemático que permite prever as alterações climáticas e as suas consequências nos glaciares foi aplicado aos Alpes, mas não tenciona ficar por aqui. “Testámos o nosso modelo para os glaciares dos Alpes, mas agora vamos tentar utilizá-lo noutras regiões importantes de glaciares como os Himalaias ou os Andes”, anuncia o cientista. 

Texto editado por Andrea Cunha Freitas