2018 foi o quarto ano mais quente

As últimas notícias são mais uma prova de que o clima da Terra está em mudança. Não só se confirmou que 2018 foi o quarto ano mais quente desde que há registos como fomos alertados para as consequências do degelo na Antárctida e na Gronelândia até ao final do século.

Foto
Glaciar Renegar nas Montanhas Transantárcticas Nick Golledge

Quais serão os efeitos do degelo na Antárctida no clima da Terra? Dois artigos científicos na edição desta semana da revista Nature respondem a esta questão e ambos concordam: se a concentração de gases com efeito de estufa continuar elevada, o contributo da Antárctida para a subida do nível médio do mar será muito provavelmente de pelo menos de 15 centímetros até ao final do século XXI. Projecções divulgadas no mesmo dia em que se soube que 2018 está no top dos anos mais quentes desde 1880.

“[A temperatura global do planeta] está a caminhar na direcção de um aumento entre três a quatro graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, levando uma quantidade significativa de água derretida das camadas de gelo da Gronelândia e da Antárctida a entrar nos oceanos da Terra”, começa por avisar Nick Golledge, da Universidade Victoria de Wellington (na Nova Zelândia), que participou nos dois estudos e liderou um deles, num comunicado sobre o trabalho. Sobre a investigação que coordenou, resume: “De acordo com os nossos modelos, esta água derretida causará grandes perturbações nas correntes oceânicas, assim como mudanças nos níveis de aquecimento em todo o mundo.”

Neste primeiro artigo, a equipa de Nick Golledge combinou simulações dos efeitos do degelo na Antárctida e na Gronelândia no clima com observações de satélite de mudanças recentes nas camadas de gelo. No final, criaram-se projecções até 2100 do que ocorrerá ao clima da Terra se continuarmos com as actuais políticas climáticas.

Verificou-se então que a subida mais rápida do nível do mar deverá ocorrer entre 2065 e 2075. “Algumas áreas no mundo, como ilhas no Pacífico, poderão ter uma grande subida do nível do mar”, alerta Natalya Gomez, da Universidade McGill (no Canadá) e também autora do artigo. 

Concluiu-se também que, em poucas décadas, a água derretida durante o degelo irá abrandar substancialmente a circulação termoalina meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês). Esta circulação é influenciada pela corrente do Golfo (águas pouco densas que viajam das Caraíbas até às latitudes mais a norte). Durante a sua viagem, estas águas libertam calor na atmosfera e aquecem a Europa ocidental. Ora, segundo este estudo, o degelo irá enfraquecer a corrente do Golfo, o que contribuirá para o aumento das temperaturas no Árctico, no Leste do Canadá e na América Central e para a diminuição das temperaturas no Noroeste da Europa.

Além disso, ao longo dos anos, a variabilidade climática nos oceanos e na atmosfera pode aumentar até 50% em algumas regiões, resultando em mais fenómenos climáticos extremos.

“Nas nossas simulações, o futuro derretimento das camadas de gelo aumentará a variabilidade da temperatura global e contribuirá para o aumento de até 25 centímetros do nível do mar até 2100”, resume-se no artigo científico.

Os cientistas alertam ainda que as actuais políticas climáticas globais estabelecidas no Acordo de Paris de 2015 (que quer limitar a subida da temperatura global do planeta abaixo dos dois graus Celsius face aos níveis pré-industriais e até ao final do século XXI) não consideram todos os efeitos do degelo no clima do planeta no futuro. “A subida do nível do mar já está a acontecer e acelerou-se nos anos mais recentes”, frisa Nick Golledge. “As nossas simulações mostram que esta subida continuará com alguma dimensão mesmo que o clima da Terra estabilize. Mas também mostrámos que, se reduzirmos drasticamente as emissões [de gases com efeito de estufa], poderemos limitar os impactos futuros.”

Os quatro anos mais quentes

no segundo estudo, uma equipa liderada por Tamsin Edwards (do King’s College de Londres) determinou a futura contribuição do gelo na Antárctida para a subida do nível do mar através de uma hipótese chamada “instabilidade marinha dos penhascos de gelo”. Segundo esta hipótese proposta em 2011 e revista em 2016, quando os penhascos de gelo atingem os 100 metros acima do nível do mar tornam-se instáveis e entram em colapso, o que causa um rápido recuo do gelo.

Para verificar esta hipótese, a equipa analisou perdas de gelo há três milhões de anos, há 125 mil anos e nos últimos 25 anos (estas de forma mais detalhada). Percebeu-se então que o desmoronamento dos penhascos de gelo não tinha necessariamente causado subidas do nível do mar no passado. Aliás, quando os cientistas removeram a hipótese dos penhascos de gelo dos seus modelos, verificaram que o contributo do degelo na Antárctida para a subida do nível do mar era residual.

“Mostramos que a instabilidade dos penhascos de gelo não parece ser um mecanismo essencial na reprodução de mudanças do nível do mar no passado”, salienta Tamsin Edwards, indicando que se deve ter isto em conta em projecções futuras.

“Os estudos realizados por Edwards, Golledge e os respectivos colegas demonstram que as camadas de gelo polar terão um papel crucial no clima da Terra no futuro”, assinala Hélène Seroussi, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (EUA), num comentário aos artigos também na Nature. Mas avisa: “É preciso continuar a trabalhar para melhorar os modelos numéricos e, desta forma, compreender melhor como as camadas de gelo afectarão o clima da Terra ao longo das próximas décadas e séculos.”

Quanto ao clima do presente, a NASA e a NOAA (agência dos oceanos e da atmosfera dos EUA) confirmaram esta quarta-feira que 2018 foi o quarto ano mais quente desde que há registos. As temperaturas globais foram 0,83 graus Celsius mais elevadas do que a média estabelecida entre 1951 e 1980. “2018 é mais uma vez um ano extremamente quente no top da tendência de aquecimento global”, afirma Gavin Schmidt, director do Instituto Goddard de Estudos Espaciais (da NASA), num comunicado da sua instituição. Mas se 2018 foi o quarto ano mais quente desde 1880 – como também foi confirmado esta quarta-feira pela Organização Meteorológica Mundial –, 2016 foi mesmo o mais quente. Já 2017 e 2015 ficam em segundo e terceiro lugar neste pódio. O que nos reservará 2019?