Gronelândia está a derreter mais depressa

Análise a vários séculos revela a intensidade do derretimento e do escoamento do manto de gelo da Gronelândia. O artigo publicado na revista Nature mostra que tudo se está a passar a um ritmo mais rápido do que no passado.

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REUTERS/Konrad Steffen/University of Colorado

São mais de 350 anos que foram analisados para concluir que temos más notícias para dar vindas directamente da Gronelândia. O manto de gelo está a derreter-se agora mais rapidamente do que no passado e o ano de 2012 foi particularmente danoso. O prejuízo, dizem os cientistas que assinam um artigo na revista Nature, aumenta de forma não linear com o aumento de temperatura. O que significa que um clima mais quente no futuro poderá ter consequências graves.

O manto de gelo da Groenlândia é um dos principais factores naturais que contribui para a elevação do nível do mar. No entanto, segundo os cientistas, não se sabe se as actuais taxas de derretimento são invulgares, já que os registos não chegam a anos distantes e as investigações que foram feitas antes não permitem uma análise de toda a camada de gelo. Não é possível saber a variabilidade, a intensidade e o escoamento do derretimento antes da era do satélite.

Agora, Luke Trusel, da Universidade Rowan, em New Jersey (nos EUA), coordenou uma equipa de investigadores que desenvolveu um registo que recuou até 1650 e analisou camadas de derretimento em núcleos de gelo do Oeste da Gronelândia. “Os autores ligaram essas camadas a processos de derretimento mais amplos e actuais na Groenlândia”, refere um pequeno resumo do estudo. Os resultados desta análise levam a concluir que o derretimento e o escoamento do manto de gelo da Groenlândia aceleraram recentemente, fora do intervalo da variabilidade passada.

O trabalho permitiu ainda confirmar que o derretimento da camada de gelo da Gronelândia começou a aumentar logo após o início do aquecimento do Árctico, em meados da década de 1800. Além disso, o derretimento da superfície em 2012 foi mais extenso do que em qualquer outro período nos últimos 350 anos, e na década mais recente contida nos núcleos de gelo (2004-2013) observou-se um degelo mais sustentado e intenso do que qualquer outro período de dez anos registado.

“Devido a uma resposta não linear do derretimento da superfície ao aumento das temperaturas do ar no Verão, o aquecimento atmosférico continuado levará a aumentos rápidos no escoamento do manto de gelo da Gronelândia e nas contribuições no nível do mar”, avisam os autores no artigo.

O manto de gelo da Gronelândia é um dos lugares do mundo que serve como um importante marcador da evolução do nosso planeta e que atrai a atenção dos cientistas. Ano após ano, o mundo aquece e a Gronelândia derrete. Em Junho de 2017, um outro estudo já concluía que os glaciares e os cumes de gelo distribuídos por pontos altos da costa da Gronelândia não vão conseguir recuperar da actual situação. O estudo divulgado na  Nature Communications referia que o derretimento do gelo na costa da Gronelândia terá como consequência a subida do nível do mar em cerca de 3,8 centímetros até 2100.

Desde 1980, a temperatura média da Terra subiu cerca de um grau Celsius por causa do aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, lançado na queima de combustíveis fósseis. Sabemos também que se (ou quando) a temperatura subir mais dois graus, a Terra será um lugar muito diferente. Uma estufa, com desertos e savanas, em vez de florestas, tempestades e outros fenómenos meteorológicos extremos, e um nível médio do mar que faria desaparecer muitas regiões costeiras.

Num outro estudo publicado em Agosto deste ano na revista científica PNAS antecipava-se que é possível que já não se consiga impedir o desaparecimento do gelo da Gronelândia, que, uma vez derretido por completo, aumentará o nível médio do mar em sete metros de altura. No artigo, os autores definiram quando um processo deixa de ser reversível de acordo com o aumento de temperatura. Tal como o derretimento da Gronelândia, estima-se que o branqueamento dos corais dos trópicos e o derretimento do gelo da região Oeste da Antárctica sejam irreversíveis se a temperatura aumentar entre um e três graus. O grande receio é que, mesmo que se consiga travar as emissões de C02, alguns destes fenómenos já não sejam reversíveis e, por sua vez, façam aumentar a temperatura, desencadeando um efeito dominó.