Crítica

Como uma exposição pode ser violenta

A celebração de um olhar masculino — o de Pedro Cabrita Reis — que olha para a mulher artista não como igual, mas como a outra metade de um céu distante.

Um olhar masculino que olha para a mulher artista não como igual
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Um olhar masculino que olha para a mulher artista não como igual sofia pinto basto
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sofia pinto basto
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Segundo nos conta a folha de sala da exposição, Pedro Cabrita Reis, um dos mais importantes artistas a trabalhar em Portugal, apresenta um “projecto expositivo” no Museu Arpad Szènes — Vieira da Silva (MASVS) constituído por obras de 60 mulheres artistas, desde “Josefa de Óbidos até ontem”. A exposição integra-se nas comemorações dos 25 anos da FASVS, uma instituição especial por variadas razões — não apenas celebra a obra de um casal de artistas excepcionais em qualquer contexto internacional, como tem sabido lutar contra adversidades financeiras e conjunturais. Esta exposição surge assim como uma surpresa. Não que não saibamos todos que Cabrita Reis inclui, no seu modo de estar no mundo e de fazer arte, uma relação especial com os amigos e mesmo com outros artistas, sobretudo jovens. No ano passado, depois de ter vendido uma colecção única de arte comprada a jovens em início de carreira à fundação EDP, tivemos a oportunidade de ver o resultado do seu gosto, do seu “faro” para descobrir talento e o pôr a render em exposição no MAAT. Mais recentemente, quer em pequenas exposições a três num bar de Lisboa, ou numa outra grande colectiva em Faro, esta menos feliz, continuou a dar azo a este gosto pela organização de exposições a que hoje damos o nome de curadoria. É também curador. E isso  integra a sua obra plástica, que se quer autoritária, autoral, englobante, voraz.

Para “A metade do céu”, nome retirado de uma poética referência de Mao Tsé-Tung ao seu sexo oposto, Cabrita Reis fez um levantamento de mulheres artistas em Portugal. Conta-se que chegou perto das sete centenas. Destas, seleccionou as 60 que apresenta, pretendendo, segundo as suas palavras, “revelar o pensamento, o olhar e a prática criativa” das mulheres. Expliquemos já, à partida, que “mulher” parece significar, para o artista-curador, a posse de dois cromossomas X, e não a construção social que toda a teoria feminista nos revelou estar nesta designação desde que há memória histórica até hoje. Se estas pessoas possuem um pensamento, um olhar e uma prática criativa distintos das outras pessoas que possuem um cromossoma X e um cromossoma Y, então esta discriminação, positiva mas já discriminação, de qualquer modo, tem algum lugar de ser. Embora hoje, numa altura em que o discurso igualitário, antidiscriminatório e ultra-reivindicativo sobre as questões de igualdade de género floresce em todos os suportes e plataformas reais e virtuais, nos espantemos como é possível não apenas imaginar uma exposição destas — um homem, afirmativo, muito alfa e heterossexual, que selecciona obras de 60 artistas mulheres apenas com base no seu próprio gosto — como compreender as razões que levaram tantas artistas a integrá-la alegremente.

Era preciso ter estado na inauguração, com honras de visita do ex-presidente Cavaco Silva e esposa, com centenas de convidados, com festa no fronteiro jardim das Amoreiras, para se deixar invadir pela perplexidade de uma exposição de que todos pareciam gostar, e que no entanto não punha nenhuma obra a dialogar com outra sobre bases que não fossem o inusitado da selecção. Cabrita Reis afirma no mesmo texto que a exposição não tem tema nem “narrativa curatorial”, e que se quer “alheia ao artifício discursivo”. É pena. Não compreendemos a preferência do artista-curador pelas obras de juventude de Maria Helena Vieira da Silva em detrimento daquelas que manifestam o pleno domínio da sua linguagem, nem a inclusão de obras menores de outras artistas, como é o caso da peça de Helena Almeida, por exemplo, ou de Lourdes Castro. Será que não gosta de artistas que desenvolvem plenamente as suas potencialidades criativas? O discurso sobre as obras de arte, prática que se estabeleceu desde o começo das lentas caminhadas dos vários ensinos artísticos para o domínio do reconhecimento universitário, não é um defeito que se acrescente à pintura, mas uma mais-valia. Todos os artistas têm coisas a dizer. E o que dizem pela palavra, que é diferente da linguagem muda mas eloquente dos materiais, enriquece a obra. Mesmo a de mulheres, como Cabrita Reis devia saber.

Quer isto dizer que a exposição é má? Nada disso. Há obras boas e  muito boas, se se conseguir abstrair do conjunto sem nexo onde se inserem. A mão feita por Ana Jotta em apropriação de Philip Guston, por exemplo; a escultura mole de Paula Rego; as esculturas de Susana Anágua, Patrícia Garrido, Suzanne Themlitz; a instalação de Ana Vieira; as pinturas de Fátima Mendonça e Maria José Aguiar; a fotografia de Alexandra Freitas Alves; ou os desenhos de Sara Bichão, Cecília Costa, Luísa Correia Pereira, Ângela Ferreira. Sem esquecer Josefa e Aurélia de Sousa. Extraordinárias, contudo, são as obras das artistas que hoje são donas das vozes mais altas na defesa da igualdade de género, e que pacificamente aqui se submetem a esta visão masculina e autoral. Susana Mendes Silva, com uma peça de resto muito interessante, é o caso mais óbvio disto que aqui afirmamos.

E no entanto não se pense que todas as artistas participaram acriticamente. Ana Jotta é caso único: colocou à entrada do museu dois panfletos para que o visitante os levasse para casa. Diz um “Só para rapazes”; já o segundo, afirma que “Eu e a Josefa estamos magoadas”. Nenhuma outra artista pareceu dar-se conta do que aqui se tratava: da celebração de um olhar masculino que olha para a mulher artista não como igual, mas como a outra metade de um céu distante. Felizmente, há por todas as salas, alheias à exposição, obras em quantidade de Maria Helena e de Arpad, estas sim mostrando-nos dois olhares equilibrados e valorizadores, nem autoritários nem violentos, sobre a obra um do outro.