Nesta escola plantam-se “armas” para enfrentar um clima alterado

Limparam o terreno abandonado nas traseiras da escola e plantaram mais de 50 espécies de plantas. Criado pela associação de pais da Escola Básica do Bom Pastor, no Porto, o projecto "Um Bosque pelo Clima" é uma adaptação do recreio às "futuras ondas de calor".

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Pedro Macedo e Maria João, membros da associação de pais e participantes do projecto Um Bosque pelo Clima Inês Fernandes

Já foi um terreno abandonado. Hoje, nele despontam e crescem 50 espécies plantadas, sob a sombra de outras que permitem que as que ainda agora acabaram de emergir do solo resistam ao sol inclemente. Este é o resultado do plano arquitectado pela Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas Carolina Michaëlis – Núcleo da Escola Básica do Bom Pastor (APAECM). O projecto “Um Bosque pelo Clima” tem, desde 2016, dado uma nova vida – e mais verde – ao terreno, outrora abandonado, nas traseiras do edifício cor-de-rosa da escola do bairro portuense Bom Pastor, na freguesia de Paranhos, Porto. Pensado para “reduzir a pegada de carbono da escola e ser uma mitigação às alterações climáticas”, o projecto tem também uma vertente de sensibilização ambiental, explica Pedro Macedo, membro da associação e impulsionador do projecto.

Embalados pelo ambiente da Festa da Flor e da Feira das Plantas que a escola organizou em jeito de boas-vindas à Primavera, Pedro e Maria João, também membro da APAECM, fazem uma visita guiada ao (futuro) bosque. Junto da placa de madeira que anuncia o nome do espaço, Um Bosque pelo Clima, Pedro alerta: “Pode não parecer, mas há um desenho por trás disto”. Para quem está de frente para o alto muro que limita o jardim, o lado esquerdo é “uma zona mais natural”, tem um ninho, um “hotel para insectos” e está coberto por medronheiros ainda a quererem crescer. No meio, mesmo atrás da placa, está uma camélia e uma gilbardeira. Uns metros ao lado, é um “bosque mais alimentar” com árvores de fruto, seguido por um “espaço de perfumes”, com algumas espécies aromáticas. Ao fundo, num patamar um pouco mais acima do restante terreno, está um sobreiro e é um local idealizado para aulas ao ar livre, o próximo “salto” cobiçado pelos pais que querem tornar o jardim “num espaço pedagógico”.

Inês Fernandes
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Inês Fernandes

Piqueniques familiares, peças de teatro ligadas à floresta, plantações, a construção do herbário e acções de manutenção já estão na lista de actividades proporcionadas pelo projecto que, passo a passo, vem alertar a comunidade escolar para a “problemática das alterações climáticas” e a importância do ambiente. “Além de ter a vantagem de reduzir a pegada de carbono da escola, com o jardim a consumir o dióxido de carbono, quisemos tornar o espaço mais resiliente ao aumento das ondas de calor”, explica Pedro, pai de um aluno da pré-escola e de uma aluna do 2º ano. E, se tudo correr como deseja, as árvores que têm sido plantadas desde 24 de Novembro de 2016, o dia da oficialização do projecto, pelas mais de duas dezenas de pais, filhos e professores, irão crescer e proteger os mais pequenos do sol nos minutos de brincadeira ao ar livre.

Investigador na área das alterações climáticas, Pedro vê o aproveitamento do espaço, anteriormente ocupado com “os entulhos das obras da escola”, como uma “adaptação” às futuras ondas de calor que “serão cada vez mais frequentes”. “Temos de começar a perceber e a pensar: ‘Ok, vamos ter cada vez mais ondas de calor, com dias de 30 ou 40 graus e os recreios sem sombra não vão poder ser utilizados’”, acrescenta.

Sabem, no entanto, que esta iniciativa “não tocará a muitos” miúdos e graúdos. Há, por exemplo, “pais que não gostam tanto” que os filhos estejam no jardim e, por isso, há um “esforço” em tentar tornar “o espaço mais apelativo”. Têm, porém, a certeza que este tipo de projectos é “muito importante” para os mais pequenos porque, com uma maior sensibilidade ambiental, “vão querer aprofundar estas questões climáticas ao longo da vida”. “Eu vejo isso pela minha filha”, comenta Pedro. A “activista com currículo” de sete anos esteve presente na Greve Climática Estudantil de 15 de Março e, de cartaz em punho, apelou pelos painéis solares na escola básica Bom Pastor.

A urgência dos painéis solares

Alinhada ao projecto de Um Bosque pelo Clima está a luta pelos painéis solares na escola que já dura há dois anos. Com o apoio da Coopérnico – uma cooperativa de energias renováveis que apoia projectos de protecção ambiental, Pedro apresentou um projecto de instalação dos painéis que “foi recusado” em detrimento de um “projecto que a câmara municipal do Porto está a desenvolver” nesse âmbito. “Era para ser (implementado) em Janeiro de 2018, depois já era no início deste ano… E andamos assim”, diz.

Questionada pelo PÚBLICO, a câmara municipal afirma que, durante este ano, “serão lançados vários projectos de sustentabilidade energética” trabalhados em parceria com a Agência de Energia do Porto (AdEPorto), destacando a “produção de energia através de painéis fotovoltaicos”. Numa fase inicial, afirma a autarquia, serão instalados sistemas fotovoltaicos nas coberturas dos edifícios sob a sua responsabilidade, “uma potência de 1MW dividida por 34 edifícios, dos quais 25 são escolas de ensino básico”.

“A Escola Básica Bom Pastor é uma das que está em fase final de avaliação e previsivelmente será parte desta primeira fase do projecto”, ressalva a câmara. Esta intervenção, a cargo da empresa municipal Domus Social, permite “maximizar a utilização da energia produzir”, ao mesmo tempo que sensibiliza “a comunidade académica e os mais novos para as mais-valias da utilização da energia solar”.

Enquanto aponta para os telhados da escola que “berram por painéis solares”, Pedro pede urgência: “Todos os dias leio coisas que me deixam arrepiado. Sei que temos dez anos para fazer a diferença ou vamos ter um colapso da nossa civilização”. Esclarece que não duvida da “boa vontade”, mas “são coisas que já podiam estar feitas” e o projecto tem de “sair do papel” o quanto antes. “Não há tempo para podermos esperar.”

Texto editado por Ana Fernandes