Solidariedade leva selecção com síndrome de Down ao Brasil. Mas há “inúmeros casos” de falta de apoio

Em campeonatos anteriores – sobretudo em destinos longínquos –, houve selecções paralímpicas a desistirem, a mandarem menos gente ou a não se candidatarem sequer por falta de dinheiro. A selecção de futsal com síndrome de Down poderia ter sido mais um caso, mas conseguiram obter os 35 mil euros de que precisava.

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A selecção portuguesa de futsal com síndrome de Down venceu em 2018 o campeonato europeu em Itália Fotografia cedida pelo seleccionador Pedro Silva

Depois de se sagrarem campeões europeus de futsal para síndrome de Down, a selecção portuguesa de atletas com síndrome de Down esteve em risco de não conseguir participar no campeonato mundial de Maio, no Brasil, por falta de dinheiro. Valeu-lhes “o coração enorme” por trás da empresa de viagens EC Travel, que decidiu na segunda-feira doar os 35 mil euros de que a selecção precisava para cobrir as despesas da ida ao Brasil. E esta falta de capacidade financeira não é caso único no desporto paralímpico: “Ao todo, são 3000 atletas, 300 actividades ao ano e 16 modalidades. É muito complicado”, diz ao PÚBLICO a directora de comunicação da ANDDI Portugal (Associação Nacional de Desporto para Desenvolvimento Intelectual, que tutela a selecção), Judite Freitas. 

Foram “inúmeras as vezes” em que as selecções paralímpicas tiveram de prescindir de um campeonato por falta de dinheiro, diz Judite Freitas. “Muitas vezes acabamos por nem nos pronunciar sobre um campeonato porque sabemos de antemão que não vamos ter verba, ou temos de desistir, ou reduzir drasticamente o número de atletas”, reconhece.

A directora de comunicação da associação conta que o pedido de ajuda começou nas redes sociais, e não a nível institucional. Foi um mero pedido de ajuda, um pedido de sensibilização, para quem pudesse dar alguma coisa. O campeonato do mundo FIFDS (Federação Internacional de Futebol para Síndrome de Down) decorrerá em Ribeirão Preto, que fica a 300 quilómetros de São Paulo, no Brasil.

Foi no Facebook que o director e proprietário da empresa de viagens EC Travel, Eliseu Correia, viu o apelo do atleta paralímpico Lenine Cunha (que tem 203 medalhas internacionais), a quem já tinha dado apoio financeiro. “Soube que tinha de fazer alguma coisa”, conta ao PÚBLICO. “Ninguém deve ser privado dos seus sonhos e seria muito triste se isso acontecesse por falta de dinheiro.” O donativo foi feito através da sua empresa, não a nível pessoal: Eliseu Correia acredita que “todas as empresas têm o dever moral de ajudar e de estender a mão a quem precisa”.

Agora, emocionado com as reacções positivas que tem recebido, diz que o próximo passo é conhecer pessoalmente os atletas no dia em que partirão para o Brasil, para lhes dar “um abraço de apoio”.

“Ainda estamos a tentar descer à Terra, isto é fantástico e nunca tivemos um donativo tão grande. Estamos de coração cheio”, admite Freitas, fazendo questão de dizer que todas as ajudas são mais do que bem-vindas e agradecidas: “O nosso obrigado é igual para todos, agradecemos tanto a quem dá um euro como quem dá 35 mil.” Ainda assim, reconhece a utilidade da quantia avultada: “A ANDDI precisa de apoios e de ajuda 365 dias por ano, todo o ano. Sobretudo nestes casos em que temos de deslocar atletas para países longínquos, só em passagens aéreas fica muito caro”. E refere que terão em breve um novo desafio financeiro pela frente, com a quinta edição dos Global Games INAS para atletas com deficiência intelectual, que acontecerão em Outubro deste ano em Brisbane, a terceira maior cidade da Austrália. 

Judite Marques pede ainda cautela a quem tem criticado a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), porque as duas entidades não estão ligadas – parte do financiamento da ANDDI vem do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e de apoios privados, “mas chega muito pouco dinheiro”. “A FPF não tem obrigatoriedade de ajudar, e quando o faz é por responsabilidade social; já nos têm cedido equipamento e ajudado na divulgação”, admite.

A selecção portuguesa de futsal para síndrome de Down é composta por dez jogadores com “idades muito variadas, entre os 23 e os 44 anos”, que vêm de vários pontos do país, explicou o seleccionador da equipa, Pedro Silva. “Muitos deles pertencem a clubes e a instituições de solidariedade social”, completa. A síndrome de Down, também conhecida como trissomia 21, é caracterizada pela existência de três cromossomas 21, em vez do habitual par — o que causa uma série de complicações fisiológicas e uma capacidade cognitiva limitada.