Opinião

Artista-escritor e vice-versa

Pedro Proença é um artista-escritor. Mas a hipótese de ser um escritor-artista é igualmente  plausível, não só porque tem livros e textos publicados de diversos géneros ou até de género nenhum reconhecível, mas também porque há um fortíssimo tropismo literário — narrativo, ficcional, poético, ensaístico — em grande parte do seu trabalho de artista plástico. Neste caso, as duas actividades não são complementares, não vem uma a seguir à outra, elas são consubstanciais, há uma co-implicação do verbal e do visual, e as duas classificações, a de artista e a de escritor, estão unidas por um hífen que não pode ser elidido. A exposição O Riso dos Outros, patente na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, até domingo, 31 de Março, é, no mais alto grau, um exercício em que a arte solicita a literatura e o literário dá-se numa dimensão visual ou plástica. A criação de heterónimos, para os quais Pedro Proença criou biografias, faz o visitante mais desprevenido pensar que estamos perante uma exposição colectiva (sobre este jogo da heteronímia, e muito mais, deve ler-se um pequeno livro de Pedro Eiras, O Riso de Momo, um ensaio em torno da exposição) e oferece plena justificação a um riso jubilante que dá título a esta manifestação plástico-literária: O Riso dos Outros. Pode uma exposição de arte contemporânea suscitar um riso que não é jocoso nem destitui de gravidade artística os trabalhos apresentados? Pode. Pode a arte servir-se do medium literário e textual (ou pura e simplesmente utilizar a linguagem, mas não exactamente de acordo com o uso que dela fez a arte conceptual), sem sucumbir à ilusão de que dar a ler é o mesmo que dar a ver? Pode. Pode um artista-escritor não se deixar enredar nas armadilhas da literatice ou da afectação literária? Pode. Pode um escritor-artista nunca perder de vista que a imagem não fala, é in-fans, como uma criança? Mais uma vez, Pedro Proença diz-nos que pode.

Interessou-me nesta exposição, muito particularmente, a literatura do artista “poliglota” (como ele se define), isto é, que faz as suas obras em estado de Babel, mas não é um transfuga. Essa literatura será fatalmente ignorada pelas gentes e agentes da coisa literária, circunspectos e puritanos, incapazes de olhar para fora dos livros. Uns nem se aproximam, outros nem reconhecem. Do outro lado, do lado dos artistas que não querem nada com a literatura, e muito menos com a literatura dos artistas, vamos certamente encontrar um puritanismo simétrico, isto é, aquele purismo visual à la Greenberg, avesso a práticas artísticas compósitas e reivindicando com veemência a especificidade do medium artístico. Lessing, com o seu tratado chamado Laocoonte, sobre as fronteiras entre a poesia e a pintura, substituiu o princípio da correspondência entre as artes por uma teoria da diferença entre elas. A tendência moderna para a “des-definição” da arte não foi acompanhada da mesma maneira pela literatura. Esta ofereceu muito mais resistência essencialista e, apesar das múltiplas experiências, permaneceu fiel a uma certa ideia de literatura (ou mesmo a um absoluto literário deixado em herança pelo romantismo) que se reconhece em critérios mais ou menos estáveis. Ora, esta exposição de Pedro Proença é um desafio aos lugares estáveis, desde logo por vir da figura improvável e instável do artista-escritor que também é escritor-artista e que tem a função pouco respeitosa de suscitar o riso dos outros. E que põe uns espectadores a exclamar: “Vejam o que os artistas fazem à literatura”, enquanto outros vociferam: “Vejam o que a literatura faz à arte”. Entretanto, percorrendo a sucessão de figuras heteronímicas ao longo da exposição, ora somos levados a pensar no tropismo linguístico que vai de Dada à arte conceptual e que, no seu efeito extremo, ficou conhecido como um linguistic turn, ora somos levados a pensar num pictorial turn, tal como ele foi teorizado por William J. T. Mitchell: uma “viragem” exercida pela hegemonia da imagem, pelos signos visuais, o que não exclui no entanto a parte linguística e narrativa, mas articula-a numa perspectiva prioritariamente visual. Pedro Proença abre esta via de acesso a “O Riso dos Outros” e põe o artista-escritor a rir do escritor-artista.