Daniel Rocha
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Moçambique: e se fosse contigo?

As catástrofes naturais não têm target nem segmentação. Faltaram às aulas de Marketing. Atingem pobres e ricos, numa mesma dimensão e com a mesma impiedade. Mas, na roleta russa da vida, têm a tendência irónica por optar pelos menos “sortudos” e mais desfavorecidos pelo berço geográfico e financeiro

A redoma: também poderia dar este título a este texto. Vivemos, efectivamente, numa redoma de segurança (financeira, social, climática, etc.), num mundo à parte, onde a fome existe (infelizmente), mas numa escala dificilmente semelhante à de muitos outros países, onde o barro e a terra enchem estômagos de alma vazia e coração desacreditado.

A sorte de sermos europeus calhou-nos na rifa do nascimento. Digo-o, muitas vezes, quando o assunto passa pelos refugiados, por exemplo. Somos europeus, caramba! Obrigada, Deus — ou qualquer outra entidade superior. Temos problemas. Lutamos pelos nossos direitos. Óbvio. Somos europeus de segunda, sempre no vagão traseiro do comboio de Merkel ou Macron, comboio esse elitista e manipulador. Mas, se a lei da comparação serve de tabulação e de nível, deveríamos chamar-lhes antes desafios e, logo, como numa análise SWOT, oportunidades.

Do outro lado do hemisfério, onde também se pronuncia, canta e soletra a palavra saudade há, efectivamente, problemas que nada têm de oportunidades. Pelo menos, a curto prazo. Grita-se agora por socorro, berra-se e sente-se o sofrimento, num som afónico, mas visceral, literalmente mortífero ao segundo. É imprescindível ajudar. Ajudarmos. Todos.

Os esforços de resgate continuam em Moçambique, Malawi e Zimbabwe, com mais de um milhão de pessoas afectadas pelo Ciclone Idai, que arrasou países do sul da África. Ainda chove em algumas áreas afectadas e muitas pessoas seguem isoladas, enquanto a água continua a subir. Centenas de pessoas estão desaparecidas. As famílias desesperam para encontrar os seus entes queridos.

Como se vê, as catástrofes naturais não têm target nem segmentação. Faltaram às aulas de Marketing. Atingem pobres e ricos, numa mesma dimensão e com a mesma impiedade. Mas, na roleta russa da vida, têm a tendência irónica por optar pelos menos “sortudos” e mais desfavorecidos pelo berço geográfico e financeiro. Pelos já destruídos pela vida e que, ainda que resilientes, têm ali mais um argumento para sobreviver e deixar cair a folha de vez.

“Não vale a pena, é só corruptos!” Tenho ouvido tanto esta frase ao falar da necessária ajuda a Moçambique (felizmente, a mobilização tem crescido ao longo da semana, multiplicando-se as campanhas solidárias). Entendo-a. À frase. Factos bem recentes demonstram que, por vezes, a solidariedade tem contornos estranhos, sórdidos e difusos. De aproveitamento de pessoas, maledicência e malvadez. Mas, independentemente disso, há milhares de mulheres, homens e crianças a precisar de ajuda, que nada têm a ver com essa corrupção e má fé.

Acreditemos que as nossas pequenas ajudas chegarão ao destino final, para fazer uma gigante diferença, com a consciência de quem fez o que pôde. E, sobretudo, de que nas voltas do mundo e da vida, um dia poderemos vir a ser nós a precisar.