NFACTOS / FERNANDO VELUDO
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NFACTOS / FERNANDO VELUDO

Megafone

Eu acredito em relações à distância

Se eu acredito em relações à distância? Acredito. Preciso de acreditar que quando voltar, se voltar, vai estar tudo na mesma e vocês também, com tantas saudades como nós destes beijos e abraços tão apertados para não nos deixarem partir outra vez.

A cada partida, a cada despedida, de Portugal, dos pais, irmãos, irmãs e amigos mil, uma promessa: não nos fomos embora, estamos à distância de um telefonema e hoje temos a Internet, vamos manter o contacto!

E, de facto, nas semanas seguintes, mantemos o contacto, procuramos manter o contacto, para nos convencermos de que não voámos de facto e isto aqui, esta terra de doidos onde não há sol nem luz e metade quer sair mas ficar na Europa e a outra metade quer ficar mas sair, não existe de facto e o dia-a-dia é um sonho do qual queremos acordar na nossa cama em Portugal.

E nas semanas seguintes enviamos e-mails, selfies no WhatsApp e Face, ligamos para casa ao fim-de-semana, vemos o telejornal mesmo sabendo não haver nada para ver e o futebol começa aos 20 minutos num exercício inútil de saudade bacoca. Vamos aos restaurantes portugueses de Londres, cheios de homens ao balcão e nem uma mulher à vista, e durante as primeiras semanas é como se nunca tivéssemos partido, mas partimos.

Mas o tempo passa, passa sempre, nunca pára, e como o eco das ondas os telefonemas, as selfies, os Faces, diluem-se nos dias, meses, semanas que nos afastam cada vez e cada vez mais de todos a quem queremos mais, de todos a quem deixámos. Com o frenesim do dia-a-dia, os fins-de-semana são sempre curtos para descansar, mas em Portugal também, e se nós nos afastamos o mesmo acontece sem querer a quem por aí está e estamos todos para o mesmo, cansados. Mas não esquecidos.

Senão reparem no tal eco das ondas, não pára, continua, como um sismo à volta do mundo de volta a casa, e nós também, mesmo que dure uns meses, muitos meses, um ano ou vários anos sem ver a irmã ou o irmão, um pai, uma mãe, o amigo da faculdade ou de infância, pouco importa quando o amor e a amizade perduram para além do tempo e da distância. 

Quando nos voltamos a ver, é como se nos tivéssemos visto no dia anterior. E entretanto já passaram 20 anos. Estamos mais gordos, alguns mais magros, poucos, todos com cabelos brancos, ou então pintam, mas na mesma desde ontem. Conhecemo-nos, falamos a mesma língua e somos da mesma família.

Se eu acredito em relações à distância? Acredito. Ainda para mais se a Internet é tão inútil hoje como antes do seu crepúsculo quando não há tempo para falar, contar, desabafar, rir e chorar enquanto mãos tocam mãos com um ecrã pelo meio. E por isso acredito, tenho de acreditar, preciso de acreditar que quando voltar, se voltar, vai estar tudo na mesma e vocês também, com tantas saudades como nós destes beijos e abraços tão apertados para não nos deixarem partir outra vez.