Sobre o blackface da Escola Básica do Godinho

Para todos os negros conscientes do mundo, o Blackface hoje é a representação sorridente da escravatura. E se uma escola não sabe disso, então será difícil romper com os imaginários do passado esclavagista e colonial.

Em 2005, o mundo inteiro ficou chocado e condenou em uníssono o príncipe Harry por se ter disfarçado de nazi numa festa de máscaras. A ele, a suástica, o emblema do nazismo, não trouxe as mesmas memórias fedorentas que suscitou na Europa e nos aliados com os quais combateu o nazismo. A comunidade judaica do mundo, vítima e que, com razão, jurou que ninguém mais iria brincar com os judeus, indignou-se com o insulto. Porque este acto trouxe à memória feridas mal cicatrizadas e perturbou a sua dignidade ofendida. Os judeus têm a capacidade de exigir respeito, porque o construíram com dedicação e sacrifícios. O príncipe e a família real pediram desculpas públicas. É o mesmo respeito que a comunidade negra espera para a sua memória mas, infelizmente, ainda não tem o poder da comunidade judaica.

A Escola Básica do Godinho, em Matosinhos, anunciou o seu tema de desfile este ano da seguinte forma: “No dia 1 de março irá realizar-se o desfile de Carnaval pelas ruas de Matosinhos. Este ano os nossos alunos deverão ir fantasiados de africanos, uma vez que o tema do Agrupamento são as raças. Para a fantasia, deverá ter em consideração – camisola e calças/leggings pretas; peruca e acessório para a cabeça; cara pintada. 

O tema da festa do príncipe Harry foi Indígenas e Colonos, e nesta como naquela, o princípio é sempre o mesmo: divertir-se. Pouco importa se isso ofende ou não os outros, divertir-se, inclusive com a memória dolorosa dos outros, é tudo o que conta, porque pensamos que os imaginários dos outros não contam, só os nossos contam, e porque a caricatura é um direito, defende-se veementemente. Só que tudo não faz rir todo o mundo. O incidente de mau gosto da Escola Básica do Godinho só fez rir algumas pessoas, incluindo negros incultos, e tratando-se de uma escola, o erro de julgamento é ainda mais grave e estúpido. Porque hoje, no século XXI – em Portugal –, ainda se ensina sobre as raças, noção que agora sabemos que nunca existiu assim definida, porque só existe uma raça – a raça humana – e através da qual se cometeram vários crimes contra seres humanos. E também porque uma escola, o lugar de formação das mentes, ignora o que representa o Blackface na história trágica do negro.

Resumido rapidamente, o Blackface é quando uma pessoa branca se disfarça de negro. Se a caricatura é um direito, esta não deve ignorar que durante séculos, durante os quais os palcos estiveram proibidos aos negros, comediantes brancos criavam caricaturas que incorporavam estereótipos do negro. É isso o Blackface, pintar a cara de negro, desorbitar os olhos para criar um sentimento de medo e engrossar os lábios com pinturas vermelhas ou brancas. O objectivo é criar uma imagem ridícula do negro e isto tem um nome: racismo. Porque isto não recorda só o minstrel show, o espetáculo teatral popular que exibia comediantes brancos com o rosto maquilhado de preto (blackfaces), mas recorda sobretudo Jim Crow, o sinistro nome intimamente ligado à segregação racial e às leis que codificaram a reinstitucionalização da segregação racial nos Estados Unidos da América. O Blackface recorda ainda a longa tradição dos brancos, que remonta pelo menos até 1441, de exibir negros para o seu divertimento. E o Blackface já foi proibido nos Estados Unidos, desde o movimento dos direitos civis na década de 1960, e porque é lá onde vive a comunidade negra mais poderosa. Para esta comunidade, e todos os negros conscientes do mundo, o Blackface hoje é a representação sorridente da escravatura. E se uma escola não sabe disso, então será difícil romper com os imaginários do passado esclavagista e colonial.

Lembremos então outra vez que a cor da pele do negro não é um disfarce e que o Blackface ressuscita anos pavorosos de negrofobia estrutural, que deu origem a humilhação e mortes na comunidade negra. Não é assim que se partilha o nobre ideal de diversidade cultural e ainda menos através da instituição escola. O Blackface não é apenas um acto racista, está também ligado a um crime contra a humanidade. Tornar isso tolerável e divertido é semelhante a uma postura negacionista favorecida pelo fraco trabalho de memória, que é geralmente pouco feito em toda a parte e muito menos ainda em Portugal. É isso que leva a criança negra a rejeitar uma boneca negra, porque a acha feia e má. É isso que leva certos africanos e negros a verem só a beleza na mulata ou na branca. Porque não foram educados para ver e amar a beleza negra e não sabem que veneradas deusas da beleza, como a Nefertiti, foram negras. Isso é assim porque a escola não cumpre toda a sua missão. E isso se chama imaginários. Imaginários construídos. Para o benefício de alguns e o detrimento de outros. Mas não a favor da humanidade, nem da concórdia e da paz durável entre os humanos, certamente, e pouco importa a nossa falsa paz.

Defendi publicamente no passado, num importante jornal brasileiro, uma artista que foi acusada de Blackface no Brasil porque a sua intenção foi outra: ela questionou e interpelou propositadamente a racista sociedade brasileira através da sua arte e teve razão. Aqui não é o caso. E a tradição secular do carnaval veicula também valores de respeito e igualdade. Porque é um momento de partilha, de confraternização jubilosa e de abolição das diferenças; durante o qual se revogam as discriminações. Igualdade é a sua única palavra de ordem, e a sua intrínseca e transgressora liberdade não autoriza ofender ninguém, nem de perto, nem de longe, como fez a Escola Básica do Godinho, suscitando a indignação de grande parte da comunidade portuguesa, descendentes de escravizados e colonizados.

Ricardo Vita é angolano, pan-africanista radicado em Paris, França. É co-fundador e vice- presidente do instituto République et Diversité, que promove a diversidade em França