Dois homens e um destino. A nova polémica do partido de Santana

Aliança mudou direcção na Madeira, mas coordenador recusa sair. Os primeiros dias da Aliança na região estão envolvidos em polémica

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MIGUEL MANSO

A substituição do coordenador da comissão instaladora da Aliança na Madeira está longe de ser pacífica. João Rodrigues, um dos fundadores do partido na região autónoma e até agora o rosto da Aliança na Madeira, insiste estar à frente da comissão instaladora no arquipélago, mesmo depois da direcção nacional ter anunciado oficialmente Joaquim Sousa para o cargo.

“Trata-se de alguém que quer chegar a todo o custo ao poder, mesmo destruindo pelo caminho todo um trabalho feito e um projecto que estava a crescer”, reage João Rodrigues ao PÚBLICO, sem nunca nomear Joaquim Sousa, que na semana passada foi indicado pela Aliança (partido fundado por Pedro Santana Lopes) como coordenador do partido no Funchal.

Rodrigues, que nas últimas autárquicas foi candidato pelo CDS à Câmara Municipal do Porto Santo, garante que vai reunir nos próximos dias com os restantes elementos da comissão instaladora e ameaça recorrer para o Conselho de Jurisdição ou mesmo para os tribunais se for afastado. “Tenho uma acta posterior ao congresso [de Évora] que comprova que sou o coordenador da comissão instaladora”, afirma, dizendo que está na Aliança para servir o partido e a Madeira. “Ao contrário de outros que querem é servir-se do partido e da Madeira.”

Para a direcção nacional, esta questão está encerrada. “Não é, nem voltará a ser coordenador da comissão instaladora”, vinca ao PÚBLICO o director executivo da Aliança, Luís Cirilo, convidando João Rodrigues a aceitar essa realidade. “Faz parte do senado, para o qual foi eleito no congresso, mas neste momento a direcção nacional considera que não reúne as condições políticas para coordenar o partido na Madeira”, explica, apontando o facto de João Rodrigues estar mais tempo em Lisboa do que no Funchal como uma das razões para esta decisão.

Tendo em conta o calendário eleitoral deste ano, a Aliança decidiu não promover eleições nas várias regiões e distritos, mantendo até Outubro as comissões instaladoras. Um órgão, diz Luís Cirilo, que não é estatutário e que depende exclusivamente da confiança política do presidente do partido. Por isso, não entende a intenção de João Rodrigues levar esta questão à Comissão de Jurisdição. “As comissões instaladoras não estão nos estatutos. É o presidente que nomeia os coordenadores, e é o presidente que os dispensa.”

Sobre acta que Rodrigues, que desvinculou-se do CDS em Julho do ano passado, diz que legitima a coordenação regional, o director executivo da Aliança desvaloriza. “Poderá ter o excerto de uma acta em que é dito que é prolongado o mandato das comissões instaladoras, o que não invalida que elas possam depois serem substituídas”, argumenta, exemplificando como os casos de Vila Real, Beja ou Aveiro. “Foram também feitas substituições, com toda a naturalidade.”

Também Joaquim Sousa tenta esvaziar a polémica. “É preciso destacar o papel de João Rodrigues na formação do partido na Madeira, através da recolha de assinaturas. Mas cada um tem o seu papel num determinado momento”, diz ao PÚBLICO, considerando que partido precisa de uma nova dinâmica na região autónoma.

Joaquim Sousa, que construiu uma imagem pública como director de uma pequena escola rural na Madeira, considerada em 2015 uma das melhores do país, defende que o momento da Aliança já não é o da “organização de base”, de recolha de assinaturas, mas sim a de “coordenação política”.

Foi, acrescenta, essa a opinião da direcção nacional, que comunicou essa decisão ao anterior coordenador regional. “Esperávamos uma transição pacífica, como aconteceu noutras comissões instaladoras, não esta polémica”, adianta Joaquim Sousa, admitindo que toda esta situação possa ter repercussões negativas na Aliança. “Naturalmente que para um partido novo, que se assume como um projecto político diferente, nada disto é positivo para a imagem da Aliança na Madeira.”