Um Frei Luís de Sousa pouco beato e nada pós-dramático

Até 7 de Abril, o Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa, volta a receber o clássico de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, numa encenação de Miguel Loureiro que se foca no texto e na história de amor que não dá certo.

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Para quem se lembra do exuberante O Impromptu de Versalhes que Miguel Loureiro dirigiu há dois anos no Teatro Nacional D. Maria II, alerta-se que não vale a pena esperar o mesmo tipo de desvario desabrido que então aplicava à comédia de Molière, agora que lhe caiu nas mãos outro texto de fundo clássico. Cada peça é um caso particular e, sem espanto, “os problemas oferecidos” por uma encenação de Frei Luís de Sousa, texto dramático de Almeida Garrett estreado em 1843, “são absolutamente diversos” dos problemas então colocados pelo texto de Molière. Desde logo porque o tom de comédia nada tem que ver com a tragédia aqui em causa, e a vida na corte de Luís XIV pouco terá em comum com o período de resistência à dominação filipina do Portugal seiscentista.

A este diagnóstico inicial, o encenador junta ainda a aversão confessa a tudo o que possa aproximar-se minimamente de uma ideia de confirmação de expectativas. “Acho que a primeira coisa para nos sentirmos mal connosco é criarmos ou alimentarmos uma imagem que achamos que criámos em determinado trabalho”, admite ao Ípsilon. “Se calhar até existirá alguém que se rirá mais neste espectáculo — espero que não, porque para mim seria um sinal equívoco”, compara entre as peças de Garrett e Molière. Por isso, manter-se-á muito longe de qualquer vislumbre de ridicularização do texto. O que interessa a Miguel Loureiro, antes de mais, é o teatro enquanto “sentido de liberdade total”. “Posso fazer um espectáculo a partir de um gancho perdido numa mesa como posso encenar toda a Suma Teológica do Tomás de Aquino.”

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Claro que Frei Luís de Sousa não se trata de uma coisa nem outra. É uma obra canónica do teatro português e a carreira prevista na programação do Dona Maria II (Álvaro Correia, Ângelo Torres, Carolina Amaral, João Grosso, Maria Duarte ou Tónan Quito no elenco), que se estende até 7 de Abril, com os bilhetes a voarem a bom ritmo, parece provar que, afinal, está mais vivo do que se poderia supor. Não é algo que espante especialmente Miguel Loureiro, surpreendido até que o texto de Garrett, há muitos anos de leitura obrigatória nas escolas portuguesas, possa ter arrastado consigo uma reputação de “aborrecido”. Em matéria de aborrecimento, aliás, diz que Os Lusíadas deixou marcas mais profundas na sua vida e, no caso de Frei Luís de Sousa, elogia o “texto fabuloso, do princípio ao fim, na sua gestão, na sua economia do drama e como propõe e constrói a intriga, muito justo na distribuição das suas partes, no equilíbrio das suas personagens e na falta de foco no tema que é tratado”. Falta de foco, diz, porque “apesar de uma pessoa conseguir logo apontar dois ou três hipóteses, o tema não é claro.”

Frei Luís de Sousa, recorde-se, é um drama que acompanha Manuel de Sousa Coutinho (que ficaria conhecido pelo nome que titula a peça) e a mulher com quem se casou, D. Madalena de Vilhena, e teve uma filha (D. Maria de Noronha), depois da suposta morte de D. João de Portugal em Alcácer-Quibir ter enviuvado D. Madalena. Ora o regresso de D. João, passados 20 anos de cativeiro, nas vestes de um romeiro, há-de “condenar” Manuel e Madalena a uma vida religiosa, entregando as suas vidas a Deus para expiar o pecado em que viveram, e Maria à morte (vítima de tuberculose, do abandono parental ou da sua condição de filha ilegítima).

Miguel Loureiro quis apontar a encenação para “uma fábula simples, uma história de amor que não dá certo e uma série de projectos de vida que também se alteram devido a circunstâncias inesperadas”. Quis “não carregar a fábula de psicologia, fazer com que fosse ainda possível ouvir” o texto e distanciar-se do “projecto político que Garrett tinha com Frei Luís de Sousa”. Tudo quando tenha, aliás, uma aparência académica ou de leituras extrapoladas da obra para o ambiente sócio-político português, tudo isso, por estar já estudado e ser dado como adquirido, permite ao encenador escolher trabalhar a partir da linguagem e das ferramentas que o teatro lhe dá para pensar a natureza da cena.

Sem grand finale

Não vale a pena esperar de Miguel Loureiro uma marca autoral no seu ofício de encenador. Basta olhar para as suas mais recentes encenações e não se descobre, de facto, como traçar correspondências óbvias entre O Impromptu de Versalhes (Molière), Um Diário de Preces (Flannery O’Connor), Fera na Selva (Marguerite Duras) e este Frei Luís de Sousa (Almeida Garrett). Talvez porque prefira subtrair-se a vincar um gesto afirmativo que torne qualquer peça que passe pelas suas mãos imediatamente reconhecível. Tanto lhe interessam “dramas lutuosos germânicos como o teatro mais barrasco do interior de Portugal”, sendo certo que não acredita no choro no teatro — a menos que as lágrimas pertençam aos espectadores — e recusa com veemência aquilo que designa como “a canga pós-dramática”.

Até porque não esconde “graves problemas com o que tem eco nos dias de hoje”. Esta activação de património que agora dirige não necessita que alguém se identifique com uma mulher que olha para o Tejo e tem presságios ou para uma rapariga que assume um papel sacrificial ao mesmo tempo que brada contra Cristo enquanto símbolo de alguém que lhe rouba os pais. Miguel Loureiro confessa antes ter “um interesse mórbido por tudo o que é mais críptico”, garante encontrar no texto de Garrett um lado “da fábula gótica e de fantasmas, ou movimentos bruscos de narrativa” e não resiste à curiosidade de levantar cenas improváveis que modelou em encenadores alemães como Klaus-Michael Grüber, Peter Zadek ou Peter Stein na sua relação com o reportório.

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Ao Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett retirou pouca coisa: “Uma retórica pietosa e cristã, um cunho nacionalista, um excesso de beatismo”. Acrescentou, por outro lado, uma acção que recua no palco e se torna cada vez mais ampla. E isto porque ao seguir as pistas de Garrett, Miguel Loureiro começa por apresentar um palco mais fechado que enquadra o drama burguês do primeiro acto, “enfiado” no universo doméstico de Manuel e Madalena, fazendo-os recuar depois do incêndio em que se vêem obrigados a fugir para a casa de D. João de Portugal, num espaço que deixa de corresponder ao seu universo íntimo. Por fim, termina o terceiro acto, no apogeu da tragédia, num espaço amplo que remete para as igrejas e que acolhe também “conceitos muito maiores, da entrega à morte, a abdicação do mundo e da carne para passar para a vida de espírito”, como acontece no caso de Manuel e de Madalena”.

Depois, é o corpo de Maria que se extingue, sem alinhar pelo grand finale ou pela espectacularidade. Como um castelo de cartas que se desfaz. Quase como se fosse apenas uma vida desligada da corrente. Como se em vez de grandiloquente e exacerbado, tudo isto fosse apenas normal.

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