Opinião

O futebol com sal e pimenta de Thomas Tuchel

Ser goleado e recolher elogios não é propriamente comum no futebol. Podem chamar-lhes palavras de cortesia, vindas de um treinador rival que acabou de se impor no relvado com autoridade, ou podem encarar esses encómios de Pep Guardiola como a reacção de alguém que viu (e vê) bem para além do resultado. Certo é que, nesse 4 de Outubro de 2015, dia em que o Bayern aplicou um 5-1 ao Borussia Dortmund, o catalão confirmou que Thomas Tuchel era não só um dos mais promissores técnicos da Alemanha, mas um estratega de primeira água. Uma reputação que tem vindo a confirmar no PSG.

Há cerca de três semanas, mesmo sem poder contar com Neymar, Cavani e Meunier (e com Verratti a meio-gás), o todo-poderoso campeão francês esvaziou um pouco o balão de oxigénio em Old Trafford, com um triunfo sobre o Manchester United que lhe facilitou a missão para a segunda mão desta noite, no Parque dos Príncipes. Nesse encontro, Tuchel teve de montar uma cadeia de produção capaz de fazer chegar a bola em condições óptimas a Di María e, sobretudo, a Mbappé, recalibrando um modelo de jogo que tem feito vítimas atrás de vítimas nesta temporada.

Primeiro no Mainz 05, depois em Dortmund, Thomas Tuchel foi fundindo no seu caldeirão futebolístico uma pequena poção do jogo mais directo e fisicamente exigente da década de 1970 alemã, com o gegenpressing (reacção à perda com pressão exercida imediatamente sobre o portador da bola, ao invés de baixar linhas para reagrupar) e as bases do jogo de posição celebrizado pelo Barcelona (e replicado com sucesso no Bayern e agora no Manchester City). Essa intersecção de estilos nem sempre convenceu o adepto germânico mais convencional, mas chamou a atenção dos seus pares.

Voltamos a Guardiola para dar conta da boa relação que ambos estabeleceram quando se cruzaram na Bundesliga. O episódio mais colorido dessa aproximação foi uma (de muitas) conversas à mesa de um popular bar de Munique, o Schumann’s, na qual os dois treinadores terão utilizado o saleiro, o pimenteiro e os copos para representarem os jogadores distribuídos num campo imaginário. A paixão pelo jogo e pela sua componente estratégica ajudavam a cimentar uma admiração mútua que mais tarde viriam a reconhecer.

Num certo sentido, o Borussia Dortmund de Tuchel tinha dado um passo em frente, do ponto de vista conceptual, face à versão bem-sucedida de Jürgen Klopp. E o alemão aproveitou essas bases para transformar o PSG numa equipa cujo domínio, hoje em dia, se expressa em mais do que salários chorudos e transferências milionárias. É inegável que o colosso francês é uma equipa recheada de talento, mas importa reter de que forma o actual treinador o coloca ao serviço do colectivo.

No 4x3x3 preferencial de Tuchel (ainda que já tenha ensaiado variantes como o 4x4x2, o 3x5x2, o 3x4x3 ou 4x2x2x2), há toda uma intenção de exponenciar a qualidade individual de um quarteto atacante de classe mundial: Neymar, Mbappé, Cavani e Di María. E essa trajectória da bola até ao último terço começa, na primeira fase de construção, com um dos médios (Marquinhos, nos últimos jogos) a recuar para o meio dos centrais e o outro (o talentoso Verratti) a ocupar o espaço da posição seis para funcionar como primeira estação de ligação. O terceiro médio é projectado para o espaço entre linhas, no meio-campo contrário, provocando uma avalanche de linhas de passe na medida em que Neymar e Mbappé também recuam uns metros para receber, os extremos passam a jogar mais por dentro e os laterais se projectam em organização ofensiva, conferindo largura.  

A herança da nova vaga da escola alemã, essa, fica mais visível na reacção à perda da bola. Com o objectivo de encurralar o adversário ainda no seu terço defensivo, o PSG obriga-o a sair por uma das laterais, deslocando habitualmente cinco homens para esse corredor. Uma vez recuperada a bola, é ensaiada uma variação rápida do centro do jogo à procura da projecção do lateral, que em condições normais receberá a bola com tempo e espaço para decidir. Um modelo que, como todos, implica riscos (e o Lyon, com transições lancinantes, colocou-os a nu na Ligue 1), mas que traduz ousadia e sagacidade em doses generosas.

Para um treinador a quem é colado muitas vezes o rótulo de controlador e que é descrito como distante na relação com os jogadores, não deixa de ser pertinente relevar também a forma como elevou o compromisso de mega-estrelas como Neymar, que nesta época temos visto frequentemente em tarefas defensivas mesmo no primeiro terço do campo. Uma submissão ao interesse colectivo que só é possível quando entornada por uma ideia maior. Uma ideia que mobilize. Uma ideia com assinatura.