Random Acts of Flyness: viajar pela mente de Terence Nance

O programa de variedade afro-futurista da HBO estreou-se no Verão do ano passado e chegou a Portugal com a nova plataforma de streaming.

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Random Acts of Flyness é um programa de variedade afro-futurista e completamente surreal HBO

No estranho mundo de Random Acts of Flyness, um programa de variedades afro-futurista, cabe muito dentro de cada episódio. É como um sonho feito de vários elementos que podem ou não estar ligados entre si que se sucedem uns aos outros, segmentos que às vezes param a meio e nunca mais voltam, outras continuam. O tom muda de um momento para o outro, do sério ao parvo.

Aqui cabem sketches, narração, histórias contadas por sms, uma sucessão de caras de pessoas negras, centrando-as na sua enorme variedade. Montam-se minimusicais e programas de televisão como Everybody Dies, cuja função é lembrar que toda a gente morre através de canções para crianças. Jogam-se videojogos sobre assédio sexual na rua, conversas sobre fluidez de género, raça, sexualidade, sexismo e outros tópicos. Colocam-se inúmeras perguntas, fala-se sobre a invisibilidade do homem negro bissexual. Até há espaço para uma aplicação chamada Bitch Better Have My Money — como a canção de Rihanna —, que junta utilizadores negros, cujos antepassados foram escravizados, a famílias brancas, cujos antepassados tenham escravizado essas pessoas, isto para lhe devolverem o que lhes devem. Também há música, muita.

É este o universo surreal patente em Random Acts of Flying, que se estreou em Agosto nos EUA e chegou agora ao nosso país através da HBO Portugal — uma plataforma que não vive só dos nomes mais óbvios. Já há uma segunda temporada a caminho. É algo que saiu da mente do realizador Terence Nance, que se apresenta no primeiro episódio a filmar-se a ele próprio a andar de bicicleta e a falar para a câmara, sendo depois abordado por um polícia que o tenta deter. Antes disto, tinha realizado um filme, An Oversimplification of her Beauty.

No mesmo primeiro episódio em que Nance está na bicicleta, Jon Hamm, o Don Draper de Mad Men, apresenta um anúncio sobre “pensamentos brancos” e como erradicá-los — não é a única cara conhecida por aqui, por exemplo, Whoopi Goldberg também aparece mais para a frente. Mas, num momento meta-referencial, vemos o próprio Nance a montar esse segmento no seu computador enquanto recebe uma mensagem de um amigo, que lhe lembra de que “como artistas”, “deviam abordar menos a branquidão e afirmar mais a negritude”, o que faz acabar o anúncio. Essa missão é cumprida ao longo dos seis episódios da primeira época, de formas sempre surpreendentes e bizarras.

Há, em Random Acts of Flyness, um pouco de PFFR, o colectivo artístico fundado por Vernon Chatman e John Lee, criadores de alguma da comédia mais alternativa das últimas décadas, como Wonder Showzen, Xavier: Renegade Angel ou The Heart, She Holler —​ Chatman também trabalhou no recente Trigger Warning with Killer Mike, do Netflix. Ou de Tim & Eric, o duo de anticomédia surreal. Mas o trabalho de Nance e dos seus colaboradores, um rol de outros artistas experimentais, está muito mais preocupado com questões de representação e interseccionalidade do que essas comparações. E, no final de contas, não há mais nada assim na televisão. Aproveite-se.