Opinião

Regresso ao futuro

Parti para os Estados Unidos na década de 90, e desde então continuei a visitar Portugal mas por curtos períodos de tempo. Nos últimos dois anos, porém, passei a ficar temporadas mais longas.

Esta experiência fez-me refletir neste país que continua a ser meu, apesar de muitos anos vividos no estrangeiro. E nestes anos, horas e minutos que passaram desde que parti para os EUA, Portugal e eu mudámos. É como se estivesse a ver o país de fora, mas estando dentro. Assim, quando vejo Portugal, não me consigo distanciar do que tenho observado pelos quatro cantos do planeta e, nesse contexto, deixo aqui a minha reflexão.

Logo de início, nestas temporadas mais longas, em viagens do Norte ao Sul do país, senti o enorme impacto do potencial que emana deste Portugal. Para além do clima temperado e acolhedor, a paisagem diversa e cativante, a gastronomia rica e saborosa, e a cultura milenar influenciada pelo contacto internacional ao longo dos séculos, os portugueses demonstram ser tolerantes e possuir uma inteligência criativa, rara de encontrar. Esta inteligência é bem visível na capacidade que os portugueses têm de resolver um problema, com poucos recursos e em curto tempo.

À primeira vista, parece existir tudo para que Portugal seja a inveja de muitos países. E de facto, esse apreço pelo nosso país é bem patente em conversas de circunstância com turistas, amigos e colegas estrangeiros. Contudo, numa segunda análise, verifica-se que existe um desafio significativo em atrair e reter uma população dinâmica, jovem, diversa e internacional para as universidades e empresas portuguesas, em magnetizar a vinda de startups e empresas inovadoras, assim como aglutinar pensadores e intelectuais. Mas porquê? O que falta neste cenário que impede a concretização deste potencial em Portugal?

Acima de tudo, o sistema sociocultural estabelecido atual reprime bastante as capacidades individuais, pois não permite que se explore o seu potencial. Continua a existir uma organização extremamente centralizada, paternal, vertical e hierárquica em praticamente todas as esferas da sociedade que não promove o diálogo, a troca de ideias e dificilmente deixa emergir pensamentos “de baixo para cima”. As iniciativas nascem na grande maioria “de cima para baixo”, muitas vezes no sentido de refrear ideias mais arriscadas. Ouço muitas vezes jovens frustrados com o facto de os seus líderes lhes retirarem protagonismo. Confunde-se, assim, autoridade com liderança, controlo com responsabilidade, obediência com disciplina. Por outro lado, o funcionamento das instituições pauta-se por um série de regulamentações que têm como base a desconfiança. Demonstrar que uma pessoa é a própria, preencher inúmeros formulários, apresentar um vasto número de documentos é uma experiência comum para os cidadãos e para as empresas em Portugal. A isto se deve a ideia generalizada de que os portugueses tudo farão para furar ou contornar as regras. Neste sistema de desconfiança, cria-se um grande número de procedimentos que torna o trabalho burocrático, pouco eficiente e obsoleto – é como se se lidasse com adultos infantilizados e não com adultos responsáveis.

Porque não promover um sistema menos burocrático, baseado na confiança, mas com mecanismos de justiça céleres e rigorosos para aqueles que prevaricam? É fundamental responsabilizar os cidadãos e evitar a criação de uma teia convoluta de barreiras que desmotive o desenvolvimento individual.

Outra questão tem a ver com a dificuldade em estabelecer um sistema meritocrático e transparente. Embora a meritocracia não seja sempre fácil de implementar devido às assimetrias sociais, no caso de Portugal a grande maioria da população não acredita que o sucesso seja fruto do trabalho ou do esforço, pois conhece poucos exemplos baseados neste lema. Conheço casos onde os melhores candidatos a concursos públicos foram eliminados na secretaria por simples questões, como a falta de uma assinatura. Existe a ideia enraizada de que as condições importantes para atingir o sucesso estão fora de controlo. Neste contexto, o sucesso é fruto de contactos pessoais, do acaso. A idade e o tempo de trabalho sobrepõem-se ao mérito profissional e, consequentemente, a sociedade reparte-se em pequenos grupos que tudo fazem para se proteger – qualquer pessoa fora desse círculo é vista como concorrente. Ora, nesta economia global, as grandes ideias e mais-valias advêm de sinergias, da partilha de informação, de colaborações sólidas, da empatia.

Por último, parece existir uma grande obsessão com o erro e, por conseguinte, penalizam-se os comportamentos negativos, não se premiando e estimulando os comportamentos positivos. Frases do género “não fazes mais do que a tua obrigação”, “17 valores não é mau”, “assim não vais a lado nenhum” são ouvidas com frequência. Em suma, sobrevaloriza-se o erro em detrimento do sucesso. Por isso, as críticas e as avaliações, mesmo construtivas, são difíceis de aceitar pela população. Este tipo de comportamento afeta a autoestima, principalmente no caso dos mais jovens, originando aversão ao risco.

Esta postura opõe-se ao estado da economia atual: globalizada, altamente competitiva, fomentada pela inovação e baseada no risco. Neste âmbito, é crucial cometer erros e aprender rapidamente com eles. De facto, o erro é uma parte fundamental de qualquer processo cognitivo, seja a resolver um problema matemático, seja a tomar uma decisão importante, seja a explorar novos horizontes. Acima de tudo, o erro e a aprendizagem subsequente fazem parte da condição humana e permitem o desenvolvimento da sociedade. Alguém acredita que a descoberta do fogo, o desenvolvimento da agricultura, a produção de medicamentos, a construção de foguetões e a revolução digital teriam acontecido sem erros?

É indiscutível que Portugal possui características únicas e um enorme potencial por explorar. Na verdade, temos características para ser um dos países mais atrativos para viver e trabalhar. Contudo, temos de promover líderes que acreditem em capacitar as hierarquias, em vez de serem autocráticos e autoritários. Temos de estabelecer uma cultura de confiança entre os cidadãos, de forma a agirmos para o bem comum, e não apenas para o interesse individual ou familiar imediato. Temos de assentar o sucesso individual no mérito e no trabalho e não em contactos pessoais e/ou profissionais. Temos de dar prioridade ao sucesso e não aos erros.

Afinal de contas, o progresso é impossível sem mudança. E neste regresso ao futuro, cheguei à conclusão de que devemos evitar o maior erro de todos – não fazer nada, deixando a responsabilidade para a mudança nas mãos do acaso.