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Carta à estrela polar: quanta ciência e saudade

Que ciência pode ter a saudade? Posso tentar descrever exaustivamente as possibilidades de reacções biológicas, os circuitos neuronais ou todos os frenesins hormonais que nos acontecem, sem ainda conseguir responder a esta pergunta.

Entropia, reacção cruzada, emparelhar electrões, pândegas, serotonina e adrenalina, diluição, saturar a solução, conservação da massa. Hoje disseram-me que até quando falo uso palavras de ciência. Lembrei-me de ti, Vó, quando me dizias “lá estás tu com essas palavras de agora, que eu não entendo nada”. E eu não percebia porquê.

Naquele momento os meus olhos rasaram de lágrimas, como quem diz de uma solução heterogénea com proteínas, lípidos e tanto mais. Mas não só, o meu coração ficou apertadinho e os meus neurónios, sem sequer pedirem autorização, enviaram logo uma mensagem aos meus músculos que esboçaram um sorriso. Tudo isto nada era mais que a saudade.

Sabes, Vó, tinhas razão. Tantas palavras destas que te fui dizendo sem me aperceber que a ciência esteve sempre ali, lado a lado, nos nossos serões. Lembras-te quando tivemos de preparar tudo para um daqueles grandes almoços de Verão? Cheguei à cozinha e a primeira expressão que me saiu foi “tanta entropia aqui” e tu, sem perceberes que o eu queria realmente dizer era “desordem” ou “confusão”, encolheste os ombros e continuaste dona de si.

Tenho a certeza que te recordas de mais situações que eram verdadeiros enigmas e nem me dizias nada! Eu lembro-me que gostava de te explicar as mudanças de estado físico e as reacções quando fazias aquele pudim de ovos ou o célebre bolo económico da Dona Lourdes. E sei que me ouvias com atenção, até porque cheguei a ouvir-te (orgulhosa) a repetir a explicação a quem chegava para se deliciar.

Sabes, Vó, tinhas razão. Já era feitio, tanta coisa que te queria explicar, tantas mais coisas em que te queria mostrar toda a ciência à tua volta, à nossa volta. Insistias em dizer que um dia ia perceber que há coisas em que não ia conseguir ver ciência.

Que ciência pode ter a saudade? Posso tentar descrever exaustivamente as possibilidades de reacções biológicas, os circuitos neuronais ou todos os frenesins hormonais que nos acontecem, sem ainda conseguir responder a esta pergunta. E a saudade para mim será sempre olhar para aquela estrela mais brilhante e acreditar que é a nossa constelação, o nosso firmamento, o nosso mundo infinito.

Sabes, Vó, és a minha saudade e o meu coração no céu. Mas serás sempre, os meus pés na Terra para ver ciência e desafiar-me todos os dias para a explicar.