Exposição a glifosato pode aumentar em 41% o risco de linfoma

Em Portugal, são diagnosticados anualmente 1700 casos de linfoma não-Hodgkin, um tipo de cancro que se desenvolve no sistema linfático e que se acredita estar associado à exposição ao herbicida.

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Roundup é a marca de glifosato comercializada pela empresa Monsanto DR

Um novo estudo sobre o potencial cancerígeno dos herbicidas veio revelar que a exposição ao glifosato pode aumentar em 41% o risco de linfoma não-Hodgkin, um tipo de cancro que se desenvolve no sistema linfático e que afecta, por ano, 1700 pessoas em Portugal. 

O artigo, publicado na revista Mutation Research e divulgado no site Science Direct, nota que o glifosato, um herbicida de amplo espectro comercializado pela empresa norte-americana Monsanto (através dos produtos Roundup e Ranger Pro), é o mais utilizado no mundo. O seu uso na agricultura tem vindo a aumentar nas últimas décadas, segundo os autores, o que faz com que os humanos entrem em contacto com estes composto químico através do consumo de alimentos contaminados (sendo que os resíduos permanecem nos alimentos mesmo após a sua confecção), água e poeiras.

A recente publicação compilou dados de outros estudos epidemiológicos, efectuados por várias instituições norte-americanas e internacionais, sobre o perigo de herbicidas à base de glifosato (alguns dos quais já tinham revelado uma relação entre a exposição ao glifosato e a imunossupressão, a disrupção endócrina e alterações genéticas associadas ao cancro). As conclusões apontam para um aumento de 41% do risco global de linfoma não-Hodgkin em indivíduos expostos à substância.

“Estes resultados são muito convincentes”, disse ao diário Le Monde Emanuela Taioli, professora de epidemiologia na Escola de Medicina Icahn, no Monte Sinai (Nova Iorque) e uma das autoras do estudo.

Avança o mesmo jornal francês que o estudo poderá ter impacto ao nível judicial, tendo em conta que a Monsanto enfrenta, até ao momento, cerca de nove mil processos judiciais nos Estados Unidos, iniciados por doentes ou familiares que culpam o herbicida pelo aparecimento de cancro. Em Agosto de 2018, a empresa foi condenada por um tribunal na Califórnia a pagar uma indemnização no valor de 289 milhões de dólares (251 milhões de euros) a Dewayne Johnson, um ex-jardineiro que em 2014 foi diagnosticado com um linfoma alegadamente causado pela exposição ao glifosato.

Em Março de 2015, a Agência Internacional para a Investigação do Cancro da Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou que o herbicida era genotóxico e “provavelmente” um carcinogénico, levando a preocupações a nível mundial sobre o perigo desta substância para a saúde humana. Porém, em 2017, os Estados-membros aprovaram a proposta da Comissão Europeia para a renovação da licença de uso do glifosato por mais cinco anos, até 15 de Dezembro de 2022. Segundo um outro estudo publicado à data na revista Science of the Total Environment e citado por associações ambientalistas, Portugal é o país europeu mais contaminado por este herbicida

Já em Janeiro deste ano, veio a público que o relatório encomendado pela União Europeia sobre os riscos da utilização de glifosato (e que foi decisivo para a tomada de decisão que autorizou o herbicida na Europa em 2017) foi copiado de um documento que a Monsanto e os seus parceiros industriais, produtores da substância, entregaram às autoridades europeias.

O linfoma não-Hodgkin (LNH) afecta sobretudo pessoas com idades avançadas e é mais predominante em homens do que mulheres, representando mais de 80% dos casos de linfoma. Ao longo dos últimos anos, a incidência deste tipo de cancro na população tem vindo a aumentar.

Em Portugal, segundo dados do relatório GLOBOCAN 2008 da Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC) divulgados pela Apifarma, são diagnosticadas anualmente 1700 pessoas com linfoma não-Hodgkin.

Por ano, de acordo com o mesmo relatório, descobrem-se 12,7 milhões de novos casos de cancro e 7,6 milhões de pessoas morrem da doença, números que poderão duplicar até 2030.